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Nos relvados, como na vida, o segredo é “jogar em equipa”

13 de Outubro 2018

Publicado a 05 de Julho de 2018, na edição n.º933

 

Nome: MANUEL ANTÓNIO Leitão da Silva
Naturalidade: Santo Tirso – Porto
Idade: 72 anos
Profissão: Médico aposentado; Ex-Presidente do Conselho de Administração do IPO de Coimbra
Passatempos: Golfe; Estar com a família
Signo: Aquário

 

Começou, desde muito cedo, a jogar futebol nas camadas jovens da equipa da terra natal, o Tirsense, sem antever  naquela altura que as conquistas e trabalho de equipa iriam muito além dos relvados. Fez a escola primária em Santo Tirso no colégio de jesuítas, Instituto Nun´Álvares, mas “não gostava de lá andar pelos horários rígidos que praticavam” ainda que realce o bom ensino – apesar de rígido – que caracterizava a instituição. Por isso mesmo “em boa altura chegou o convite da Académica de Coimbra”, prontamente aceite por Manuel António, que assinou contrato por esta equipa em 1964. Foi, no entanto, um acordo que durou apenas um ano dado que começou a receber convites de outras equipas, nomeadamente do Futebol Clube do Porto optando, exactamente, pela equipa da Invicta embora “quase toda a família fosse composta por benfiquistas”. Jogou pelos azuis e brancos durante três anos “e ganhava, na altura, 250 contos por ano, valor que permitiu comprar um Fiat 1500 e ser quase um miúdo rico”, conta, divertido, o médico. Passou ainda pelo Liceu de Guimarães regressando depois a Coimbra para dar asas ao sonho de
tirar o curso de Medicina e integrando, novamente, a equipa dos estudantes, onde protagonizou, na época de 68/69, os momentos, que considera terem sido os mais marcantes da sua carreira futebolística.

Após 335 jogos disputados, 168 golos marcados (127 dos quais ao serviço da Briosa), uma Bola de Prata, uma Taça de Portugal e quatro internacionalizações, termina a sua carreira futebolística no União de Leiria onde jogou na época de 77/78.

Dos tempos de estudante e, simultaneamente, jogador de futebol, recorda, acima de tudo, o gosto enorme que distinguia esta equipa das outras nas alturas em que iam para estágio: “nas outras equipas onde estive ir para estágio era sinónimo de estar no hotel fechados e treinar. Mais nada. Enquanto jogador da Académica associávamos os estágios logo aos comes e bebes. Tivemos alguns momentos marcantes e há um episódio – entre outros – do qual me recordo muito bem. A selecção portuguesa foi jogar contra a Inglaterra, em Wembley, onde perdemos por 1-0. Quando chegámos a Londres, apareceu muita gente a rodear a camioneta. Uma confusão enorme de pessoas, gente que queria ver o Eusébio que era suposto ter ido connosco, mas ele não tinha ido. Assim que souberam que o Eusébio não estava foram-se todos embora e não quiseram saber mais de nós. Enfim, foi uma situação caricata, que deu para nos rirmos bastante”.

Concluiu o secundário já em Coimbra no, à época, Liceu D. Manuel II, ingressando depois no ensino superior em Medicina optando por tirar a especialidade de Ginecologia. Em 1974, “talvez por influência do Dr. Cortez Vaz, ex-presidente da Académica e que era, então, médico no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra e também ele Ginecologista”, Manuel António entrou nesta instituição sem saber que seria lá que alcançaria o auge da sua carreira de médico bem como o último local onde exerceria a profissão.

No início da década de 90 presidiu à Administração Regional de Saúde do Centro, competência que exerceu por curto espaço de tempo. Por nomeação da, na altura, Ministra da Saúde, Ana Jorge, foi Coordenador Nacional para as Doenças Oncológicas, entre Julho de 2010 e Dezembro de 2011. Presidiu, depois, à Comissão Coordenadora do
Instituto Português de Oncologia e foi o responsável, desde 1991, pelo Registo Oncológico da Região Centro. Enquanto membro do Grupo Português do Programa Europeu Contra o Cancro e do Conselho Nacional de Oncologia, Manuel António participou também na elaboração dos planos oncológicos nacionais.

De 1991 a 1993 e depois, novamente, de 1995 a 2016, foi presidente do Conselho de Administração do IPO, cargo que, sustenta, ocupou com orgulho e consciência, enaltecendo a equipa que o acompanhou e apoiou neste trajecto: “Quando fui para o IPO aquilo eram apenas pré-fabricados. Por dentro tinham as condições necessárias para exercer mas o aspecto exterior era muito diferente do que é hoje. Fiz lá grandes obras e empreguei bem – acredito – as verbas que nos eram fornecidas pelo Governo para modernizar tudo. Além disso tinha uma equipa muito boa e convivia muito bem com ela. Porque é isso que, quem manda, deve fazer, conviver com todos, trabalhar em equipa. Eu
dava as orientações e todos compreendiam. Salvo uma ou outra excepção, existia rigor, eficiência e excelência. Quando se dizia que era preciso trabalhar das oito da manhã até às oito da noite, faziam-no. O rigor foi sempre uma coisa que defendi. Na minha vida houve sempre uma disciplina pessoal que me possibilitou fazer o que fiz. Ali toda a gente contribuía para o mesmo objectivo e é por isso que o IPO de Coimbra foi (e é) reconhecido pela Organização Europeia de Institutos de Cancro e pelo Caspe Healthcare Knowledge Systems, entre outros.”

Em Novembro do ano transato, numa cerimónia presidida por Frederico Valido – presidente da comissão organizadora da homenagem – e marcada pela presença de amigos, familiares, utentes e de Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel António foi homenageado pelo reconhecido trabalho desenvolvido em prol do IPO e dos utentes. No átrio do edifício do ambulatório da instituição permanece, para a posterioridade, a placa evocativa desta homenagem.

 

E ainda…

“A minha esposa foi minha colega no liceu de Guimarães. Ela era filha do Reitor do liceu (Américo Guerreiro) em Guimarães e quando fui para lá conheci-a, namorámos e depois casámos.”
“Coimbra, especialmente na área da saúde, teve muitos avanços e tem agora mais capacidade de responder às necessidades da população. Na saúde não está assim tão estagnada como noutras áreas. Sou suspeito para falar sobre a qualidade do serviço do IPO, mas é reconhecida e, indiscutivelmente, muito boa. Não fazíamos o discurso de coitadinhos porque a crise existia, efectivamente, mas os cortes eram feitos de forma consciente e sabendo até onde podíamos ir. Era e é fundamental manter sempre o princípio de que o nosso objectivo é tratar o doente com cancro.”

“A Académica de hoje…nem sei que lhe aconteceu. Acho que está fraca em termos de futebol. Antes a Académica era uma equipa de estudantes a sério. Éramos moinas mas dava para tudo e mantinhamo-nos na primeira divisão.”
“Nunca quis contrariar o destino. As portas abriram-se, naturalmente. Tive sempre em conta o passo que ia dar a seguir e fiz por nunca me zangar com a vida. É verdade que fui tendo algumas mazelas mas isso é positivo. Procurei não ter nem rancores nem mágoas e trabalhar, com calma. E assim fui conseguindo bons resultados.”

“Se o presidente do Porto, Pinto Magalhães, me tivesse contrariado, certamente, não teria vindo para a Académica nem tirado o curso de Medicina. Provavelmente, ficaria pelo Norte a jogar futebol profissional ou, quem sabe, teria ido jogar para Espanha, de onde surgiram convites.”
“Quando terminávamos o curso, havia dificuldade em entrar numa especialidade. Tínhamos o serviço médico à periferia, para onde nos mandavam. Eram zonas mais deficitárias em termos de médicos e nós estávamos lá, mas não sabíamos qual era o futuro da nossa carreira. Tínhamos de ir à procura da nossa sorte.”

“Nunca me inscrevi em nenhum partido, também por isso, mantive sempre a minha independência. Depois do 25 de Abril, apercebi-me que a condição de militante partidário podia violentar a minha liberdade. E essa foi uma opção que logo recusei. Tenho as minhas convicções, dou o mérito a quem o tem mas não deixo de fazer as minhas críticas”.
“Tive sempre uma voz crítica. Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. E eu estava no IPO para trabalhar.”

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