Coimbra  27 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

“No dia em que não tiver projectos, algo não está bem!”

14 de Agosto 2020 Jornal Campeão: “No dia em que não tiver projectos, algo não está bem!”

Perfil publicado a 07 de Novembro de 2019, na edição n.º 997

 

Nome: CRISTINA Maria Domingues de JESUS

Naturalidade: Corticeiro de Cima – Cantanhede

Idade: 48 Anos

Profissão: Deputada do PS eleita pelo círculo de Coimbra

Passatempos: Viajar

Signo: Leão

 

Cristina Jesus não pára. Grosso modo, se quiséssemos sintetizar o seu perfil, seria talvez esta a frase que melhor corresponderia à história da gestora e, hoje, deputada do PS recentemente eleita pelo círculo de Coimbra.

Fala com orgulho e, dir-se-ia até, um vislumbre de saudade da infância que viveu na aldeia do concelho de Cantanhede, no Corticeiro de Cima, à qual regressa sempre que pode seja para reuniões de família ou mesmo para saber o que se lá passa, “como todo o deputado que se preze deveria fazer com o território que é o o qual vai, no fundo, representar no parlamento”, sublinha a gestora. Filha de pai emigrante e mãe costureira diz, com um brilho nos olhos, que foi muito feliz na terra natal, recordando os tempos em que brincava na rua e ia a pé para escola. Entre a escola primária de Corticeiro de Cima e o colégio interno de Famalicão, as escolas secundárias de Mira e, depois, de Cantanhede, surge uma apetência para a área da Economia que a leva a concorrer ao curso de Gestão de Empresas. Após o primeiro ano no ensino superior na Covilhã, pede então transferência para Coimbra onde ingressa na Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas na Faculdade de Economia. Termina em 1997 e começa a sua vida profissional dando formação na área comercial. Poucos meses depois surge a oportunidade de entrar na indústria farmacêutica como Delegada de Informação Médica, primeiro na área de ambulatório numa empresa nacional e depois, já numa multinacional, na área hospitalar.

Uma promoção leva-a a partir de malas e bagagem para Lisboa onde assume o cargo de Gestora de Marketing. Foram cerca de 15 anos numa área na qual adorou trabalhar. “É muito interessante trabalhar em multinacionais, dá-nos muitas competências. Ganha-se experiência na gestão e desenvolvimento de equipas de vendas, aprende-se os processos de reorganização e reorientação estratégica e participa-se activamente em processos de negociação com clientes e instituições. Trabalhar na indústria farmacêutica foi excelente por trabalhar num ambiente multicultural e também por ter acesso formações diversificadas de grande qualidade”, reforça.

É então que um despedimento colectivo a deixa no desemprego. Mas, voltamos ao início deste perfil: “Cristina Jesus não pára”. Se, por um lado, o panorama não se adivinhava fácil, cruzar os braços não era opção. Voltou às origens e criou uma empresa de venda de frutas e legumes cultivados nos terrenos de Corticeiro de Cima, “O Cabaz da Dona Odete” (com o nome da mãe) onde, mais uma vez, empregou as capacidades de gestora que a caracterizam, entre 2014 e 2017.

Resolve então fazer um Curso Avançado de Gestão para Executivos da Universidade Católica Portuguesa e depois uma formação em Marketing Digital no curso ‘Flag Professional Web Marketing’ complementado além fronteiras, com o de ‘Digital Marketing and Social Media’, tirado em Londres.

A política na sua vida surge de forma natural. Foi convidada, ainda estava na indústria farmacêutica, a integrar uma equipa que concorria à junta de freguesia de Corticeiro de Cima. “E porquê que não hei-de dar o meu contributo se gosto tanto da minha aldeia e é lá que tenho a minha família?”, pensou. A pergunta é, obviamente, retórica, mas foi suficiente para levar Cristina Jesus a aceitar o desafio. Nesse ano perderam as eleições. No entanto, em 2005, é convidada novamente, desta feita, a encabeçar uma lista. Num clima e época onde as mulheres ainda não tinham direito a quotas e a política era liderada por homens, a réstia de sexismo dos tempos foi posto de lado e eis que o inesperado acontece. “Arranjei uma grande equipa e fizemos uma campanha fantástica. Correu bem e ganhei as eleições. Nunca mais me esqueci desse dia porque foi uma surpresa ficar como presidente da junta de freguesia de Corticeiro de Cima.

Ganhar é mesmo uma coisa maravilhosa, ainda para mais quando vi a alegria de todas as pessoas que estiveram ao meu lado”, relembra. Em 2009 volta a concorrer e volta a ganhar, iniciando assim um segundo mandato. Em 2013, concorre numa lista para a câmara de Cantanhede onde fica como vereadora da oposição durante quatro anos.

Em outubro 2018, João Galamba é promovido a Secretário de Estado e, inesperadamente, Cristina Jesus entra como deputada. Acompanhou aí a Comissão de Cultura, Juventude e Desporto, sendo suplente na Comissão de Economia e Obras Públicas. No entanto, problemas de saúde levaram-na a afastar-se do Parlamento durante dois meses tendo sido substituída, até fevereiro do presente ano, por Isabel Cruz.

Hoje, confessa, não tem sido fácil conciliar a frequência no Doutoramento em Turismo da Universidade de Aveiro com a vida de deputada mas, ainda assim, está a adorar este curso. “Este desafio tem sido muito interessante. Estou na fase de tese e já tenho o tema aprovado (“A adaptação da oferta de turismo português ao mercado chinês”). O turismo tem sido um instrumento de coesão territorial, económica e social. No relatório de competitividade 2019 do Fórum Mundial, Portugal atinge, pela primeira vez, a liderança mundial em termos de qualidade das infraestruturas turísticas. A reabilitação dos centros históricos, o programa Revive, o forte investimento no sector contribuíram de forma decisiva para este reconhecimento. O turismo é líder no crescimento das exportações, com a subida de 45 % das receitas turísticas nos últimos quatro anos. O peso das receitas turísticas nas exportações de serviços foi de 51,5 % em 2018”, afirma.

Agora é abraçar mais este desafio e “dar azo à grande capacidade de trabalho e organização que acredito ter. Tentar não ser demasiado exigente comigo mesma e, sempre, sem parar.”

 

E AINDA…

“Revia-me nos princípios do PS e as pessoas que, inicialmente, me convidaram para a vida política eram do PS. Foi por isso que integrei o PS apesar de estar num sítio onde era tudo PSD.”

“Fui eleita porque estava em quatro lugar na lista. Porque era a única deputada em lugar elegível numa lista no concelho de Cantanhede e isso foi muito importante para a minha eleição. Foi importante dar a conhecer a Cantanhede que tem uma deputada que é de lá e que conhece bem a região. Também o facto de ter sido autarca que me dá um conhecimento vasto do território. E acho que é muito importante que cada vez mais as pessoas eleitas conheçam bem o território. E também acho que eu ter sido autarca e agora estar como deputada acabam por ser dois cargos que se complementam.”

“Eu tenho sempre novos projectos. Costumo dizer que, no dia em que não tiver projectos, algo não está bem.”

“O distrito de Coimbra tem algumas coisas fundamentais para nos preocuparmos. O sistema de mobilidade do Mondego, a nova maternidade, a questão do IP3… e depois aquela zona do litoral por causa dos incêndios de 2017 que tem área que precisa de ser reaproveitada. A questão das alterações climáticas que também cada vez mais temos de nos preparar para isto. Coimbra tem muito potencial e ainda pode fazer muito mais. Tem um manancial de potencialidades que podem e devem ser aproveitadas. E tem uma boa localização geográfica para onde é preciso atrair investimento.”

“Cantanhede é o terceiro maior concelho do distrito de Coimbra. Foi a primeira vez que o Partido Socialista colocou uma candidata de Cantanhede nos primeiros cinco lugares. É uma honra para mim representar Cantanhede na Assembleia da República.”

“Assumimos diversos compromissos com o distrito de Coimbra. Destaco a área da inovação rural e as florestas. É fundamental prosseguir uma estratégia de reutilização das áreas ardidas com reflorestação e agricultura. O emparcelamento de pequenas propriedades é essencial para incentivar a criação de novas empresas especializadas no sector.”

“Ser deputada traduz-se numa vida multidisciplinar. O parlamento tem doze comissões muito distintas. Trabalho, economia, cultura, agricultura… todas distintas. Da minha experiência acho que também devíamos nos especializar em duas ou três áreas onde possamos dar o nosso contributo. Embora devamos ter conhecimento de tudo, mas o nosso contributo deve ser dado nas áreas onde temos mais conhecimento para que seja um trabalho mais dedicado. Neste mandato, espero dar um contributo muito maior, na medida em que tenho a oportunidade de estar presente desde o início. Para além disso, é fundamental estar atenta às questões do distrito e, dentro das nossas competências, contribuir para a resolução dos problemas do distrito.