Coimbra  24 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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“Não me vejo a fazer outra coisa”

24 de Junho 2020 Jornal Campeão: “Não me vejo a fazer outra coisa”

Perfil publicado a 24 de Outubro de 2019, na edição n.º 995

 

Nome MÓNICA Cláudia de Castro QUINTELA

Naturalidade Vieira do Minho

Idade 52 anos

Profissão Advogada; Deputada do PSD eleita pelo círculo de Coimbra

Passatempos Leitura, cinema, arte, música e viagens

Signo Caranguejo

 

Ficou (ainda) mais conhecida por defender vários casos mediáticos na área criminal, não obstante grande parte dos processos que patrocina serem da área do direito civil, família e menores, e comercial. Hoje, a vida reservou-lhe mais um desafio: a função de deputada do PSD eleita pelo círculo de Coimbra.

Da infância relembra as férias no Minho com os arraiais, os natais em família, a ida do padre a casa na altura da Páscoa, as feiras novas, a feira da ladra… uma infância muito feliz. Viveu toda a vida em Coimbra desde os seus quatro meses, mas continuou sempre com ligação forte ao Minho onde viviam as avós. Estava na primeira classe quando se deu o 25 de Abril de 1974. “Lembro-me de o meu pai e o meu tio me irem buscar à escola (a mim e a uma amiga que era minha vizinha) com ar sério dizendo que tinha de ficar em casa. Lembro-me de cantar músicas de ordem contra a PIDE. Com veia revolucionária sem ter consciência ao certo do que se passava”, relembra.

Terminou a escolaridade obrigatória igualmente em Coimbra e foi nesta cidade que, em 1986, ingressou na licenciatura em Direito. O curso não poderia ser outro. Seja porque já existia um legado familiar nesta área ou, curiosamente, pelos romances policiais de Agatha Christie que lia assiduamente e em que a advocacia anglo-saxónica (“que nada tem a ver com a nossa”) a apaixonava e galvanizava. Nunca equacionou outro curso que não este. “E era Direito, para exercer advocacia. Nunca quis ser outra coisa. É aquilo que sou, que serei e que gosto de ser.

Com muito trabalho, é certo. Tem dias que levo as mãos à cabeça, mas não me vejo a fazer outra coisa”, conclui.

Existiu ainda outra razão que, desde pequena, ditou as suas escolhas e atitudes: “Ficar do lado dos mais fracos e da justiça.” Foi, aliás, coordenadora e formadora do Projeto “Arco-Iris” – o papel pedagógico do intercâmbio internacional de jovens no combate ao racismo e à Xenofobia” – um projecto que considerou muito interessante e, acima de tudo, gratificante. “Tenho uma tendência quase maternal pelos mais fracos e injustiçados. Eu ia sempre em defesa deles. O bullying sempre existiu, mas não se falava nele. Lembro-me de um episódio em especial…tive uma colega que perdeu a visão. Foi daquelas histórias de vida que me marcaram. A par disso, pouco tempo depois, morreu-lhe a mãe. Chorei imenso, tinha 13 anos na altura. Imagine a dificuldade de adaptação de uma criança que de repente perde a visão e depois a mãe. Ela tinha uma máquina para escrever em braille e lembro-me que havia colegas e pais de colegas que vieram reclamar do barulho das teclas da máquina e eu fiquei muito revoltada, e cheguei mesmo a dar um tabefe a uma miúda que a provocou e lhe bateu”.

Apesar de gostar e de se identificar com aquilo que faz tece algumas críticas ao curso de Direito: “quando me formei em 1991 já havia uma proletarização da advocacia e, desde então, aumentou muito. Porque há muitas universidades públicas e privadas a leccionar Direito e muito poucas com qualidade. Lembro-me que quando estava no Conselho Geral da Ordem dos Advogados fiquei estarrecida porque tomei conhecimento da existência de cursos onde era possível licenciar-se em direito em que cadeiras processuais (como o processo penal) eram facultativas e havia cadeiras do género “métodos de estudo”! Está a ocorrer uma massificação da advocacia e tenho muita pena porque sem advogados não há Estado de Direito”.

É quando fala sobre os casos que defende que a expressão do rosto se altera. O espírito de advogada que há em si regressa à entrevista e deixa para trás a criança, a adolescente e a estudante de outros tempos. Há processos que Mónica Quintela não aceita defender, como por exemplo, os casos de crime sexual. “Não critico quem o faz, como é óbvio, porque tem de haver alguém que o faça, todo o crime tem de ter defesa. Mas eu para patrocinar um processo tenho que acreditar na própria defesa. No caso dos crimes sexuais não há nenhum argumento que eu consiga esgrimir ou justificar o que para mim é injustificável. As pessoas perguntarão: e o homicídio?

Bem, dentro do catálogo de crimes, o homicídio é o mais grave no código penal, mas aí consigo perceber que, em determinadas circunstâncias, uma pessoa proceda dessa forma. Eu não o faria, nem os percebo todos, que fique claro, mas há uma razão, é, por regra, um crime de emoção. No crime sexual só patrocino as vítimas.”

Foi vogal da Delegação de Coimbra da Ordem dos Advogados Portugueses, no triénio 2005/2007 e também vogal do Conselho Geral da Ordem dos Advogados Portugueses no triénio 2014-2016.

Representou também a Ordem dos Advogados Portugueses no Conselho Consultivo da Comarca de Coimbra. Recentemente eleita deputada do PSD pelo círculo de Coimbra, não lhe “passa pela cabeça depender da política para viver”, até porque existe uma carreira de advocacia que construiu ao longo de quase trinta anos. Mas, acrescenta, irá dar o seu melhor “em total espírito de missão e de serviço público.”

Paralelamente à absorvente vida de advogada há, claro, uma família que a acompanha. E quando se fala sobre ela, Mónica Quintela não consegue esconder a emoção. Teve uma vida plena mas com períodos tristes de luto, como quando enviuvou, e que a deixaram sozinha a gerir os escritórios. Fases que, ainda hoje, custam relembrar. Ilumina-se-lhe o olhar apenas quando fala do orgulho que sente na filha e no marido que tem: “a minha filha é o que de mais importante tenho na vida; tenho um orgulho imenso na pessoa que é. Lembro-me que, quando ela era pequenina e eu dava consultas ao domingo, aos sábados à noite íamos as duas jantar fora e contávamos o que tinha acontecido durante o dia, ou seja, tivemos sempre tempo de qualidade. E o meu marido é uma pessoa absolutamente fantástica. Tem uma paciência enorme para me aturar, é o melhor marido do mundo. E, se ele não fosse advogado, costumo dizer que me punha uma “acção de despejo”. Porque eu tenho uma vida complicada, não tenho horários nem fins-de-semana…só mesmo com uma pessoa que tem o mesmo trem de vida.”

E AINDA…

Eu fui eleita pelo distrito de Coimbra. Procurarei elevar ao máximo a cidade e o distrito. Coimbra perdeu competências, já não é a terceira cidade do país, com muita pena minha. Viveu

sempre à sombra da universidade e hoje já nem os seus próprios filhos está a conseguir fixar. Hoje Coimbra é uma cidade morta.”

Nunca militei em nenhum partido político ou em qualquer outra organização porque, primeiro, sou advogada com total independência e liberdade, com um espírito rebelde, podendo dizer aquilo que penso sem estar amarrada a nada a não ser ao bom senso e à minha própria consciência. O que mais desejo é manter sempre o equilíbrio e a sensatez e não perder nunca o discernimento que eu acredito que tenho. E por isso, até hoje, nunca me quis envolver em nenhum partido. Não só pela falta de tempo mas porque também não tenho propriamente aquele espírito de militância normalmente apreciado. Não me via, por exemplo, em lutas fratricidas por um lugar numa lista, não tem nada a ver comigo.”

O distrito de Coimbra está desertificado. Há muito a fazer pelo distrito. Irei abraçar, além da área da justiça, que é transversal ao país inteiro, as questões distritais e além disso também as causas que me vierem a ser atribuídas. Questões como as acessibilidades, estradas para o interior, saúde, ensino… muitos dos municípios do interior só têm ensino até ao nono ano. É muito diferente uma criança levantar-se às seis da manhã para ir estudar para uma outra localidade do que uma criança que está a dez minutos da escola. Distorce as oportunidades que cada um pode ter.”

“No fundo a política também é isto, dar mais e melhores condições para que as pessoas e as empresas se possam fixar num sítio, senão ficamos com Lisboa e Porto e nada mais.”

Sempre fui PSD, não estou filiada mas fui sempre social democrata. A morte de Francisco Sá Carneiro causou um ambiente de grande consternação em minha casa. Tenho a imagem do Raúl Durão a anunciar a morte dele e foi uma tristeza muito grande. A generalidade da minha família também é do PSD.”

Temos listas de espera em Oncologia…e nós sabemos que nesta área da saúde, ser operado hoje ou daqui a uma semana faz toda a diferença e, infelizmente, é uma realidade que conheço bem. O Estado não pode nem deve dar tudo. As pessoas têm de ter esperança de singrar e de obter sucesso por si próprias. As sociedades com forte pendor estatal retiram o sonho e a capacidade de iniciativa individual que permitem a evolução e o desenvolvimento. E sem esse sonho e esperança de poder modificar as coisas, a sociedade não evolui, “o mundo não pula nem avança”, como diz o poema.

Sinto-me uma pessoa realizada. Se me perguntasse se eu queria voltar atrás para ser mais nova e viver o que vivi, dizia já que não, porque tendo tido uma vida de muito trabalho e muito sofrida em determinados períodos…também tenho tido uma vida muito bonita com muitas alegrias e realização pessoais e profissionais e apesar de todas as perdas nunca baixei os braços, e tenho assumido os compromissos e desafios e tenho sabido lidar com eles. Mas, olhando para trás, não voltaria a passar por tudo outra vez. Há um tempo para as coisas e tenho os olhos postos no futuro.”