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“Não há pessoas insubstituíveis”. Oxalá!

18 de Novembro 2018

Perfil publicado a 20 de Setembro de 2018, na edição n.º 942

Nome: MANUEL de Jesus ANTUNES
Naturalidade: Memória – Leiria
Idade: 70 anos
Profissão: Médico e Professor Catedrático jubilados da área de Cirurgia Cardiotorácica
Passatempos: Ler, ouvir música
Signo: Caranguejo

 

“Uma vida com o coração nas mãos…porque não tive apenas o coração dos outros nas mãos mas, às vezes, com o meu próprio coração nas mãos em situações mais difíceis que fui encontrando”. Foi desta forma que Manuel Antunes iniciou a sua última lição mas bem podia ser o resumo da sua história de vida e do perfil abaixo composto.
Nasceu no seio de uma família humilde da qual demonstra manifesto orgulho, realidade que levou a que o patriarca da família viajasse para Moçambique para trabalhar como condutor de autocarros nos Serviços Municipalizados de Viação de Lourenço Marques.
Quatro anos depois, em 1954, Manuel Antunes, o irmão mais novo e a mãe foram aos seu encontro. Foi lá que, com seis anos, iniciou a vida escolar. “Fiz lá as ‘três classes’ (como se chamava na altura) e depois o meu pai adoeceu e regressámos à metrópole. Pensávamos que era de vez quando voltámos mas ele curou-se quase milagrosamente e ao final de um ano já estávamos lá outra vez. Eu fiz aqui em Portugal a quarta classe e depois fiz lá os sete anos de liceu”.

Em 1972 concluiu a licenciatura em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Lourenço Marques. “Por sorte a Universidade de Lourenço Marques tinha sido criada lá dois anos antes de eu terminar o liceu e tive sorte porque a família não teria condições económicas para me por em Portugal a estudar sozinho em qualquer uma das cidades”, explica o cirurgião. Terminado o curso é convidado a integrar o quadro docente da universidade com o grau de Segundo Assistente, o que lhe permitiu, dois anos depois, solicitar uma bolsa para fazer um Doutoramento em Joanesburgo. Era aí que estava em Julho de 1975, com a mulher e os filhos quando, consumada a independência de Moçambique, são fechadas as fronteiras impossibilitando-o de ver a restante família deixada em Lourenço Marques o que fez com que esta, cerca de um ano depois, regressasse definitivamente a Portugal. Nessa altura, Manuel Antunes tinha desistido, temporariamente, do Doutoramento optando por tirar uma especialização. Após dois anos e meio em Cirurgia Geral com contacto directo com cirurgiões, optou por se especializar em Cirurgia Cardiotorácica, feito que alcança em 1982 pela Universidade de Witwatersrand.

Começa então a desenvolver a técnica de reparação da válvula mitral e resolve fazer um doutoramento com base nos primeiros 250 doentes que operou. “Esta técnica pioneira na África do Sul e tem um pouco de artista digamos assim porque é de corte e costura…coser uns botões é uma coisa, coser os ombros de um casaco é outra. E eu fui a Paris aprender com o melhor. Depois comecei a tornar-me conhecido e a ser convidado para ir fora da África do Sul para explicar essa técnica”, completa. Subsequentemente, apresenta uma tese de doutoramento baseada na experiência assim obtida.

Em 1985 é convidado a ser Professor Associado na Universidade de Coimbra e Médico assistente no novo Hospital da Universidade de Coimbra tendo visitado estas instalações mas deixando claro num relatório que desenvolveu quais os aspectos a serem melhorados frisando que não valia a pena avançar com a cirurgia enquanto “não estivessem todas as especialidades instaladas no hospital”.
Três anos depois, aceita gerir a Unidade desta especialidade nos HUC e começa a dar aulas como professor associado (tendo feito a agregação logo em Novembro desse ano tornando-se professor catedrático). Mas não foi um (re)começo fácil. “Os meus colegas até diziam para não vir, mas eu vim para mostrar que era possível fazer. Os tempos iniciais aqui não foram fáceis, já havia um professor e vinha um de fora destronar um que já cá estava. Eu marquei dois doentes para o primeiro dia e fui logo chamado à direcção porque era um risco. E depois até operámos três porque surgiu uma urgência entretanto. Foi algo que deu trabalho mas bem conseguido graças a uma equipa nova que se foi criando. Uma equipa de futebol quando começa já tem gente consagrada que veio de algum lado, mas
nós começámos tudo de novo. Tornámo-nos, após alguns anos, num serviço muito prestigiado não só em Coimbra”, conclui.

E foi ao Serviço de Cirurgia Cardiotorácica que dedicou os últimos trinta anos da sua vida tendo atingido este ano o tempo máximo de serviço (70 anos). Nestes 30 anos, o serviço que liderou (com uma equipa responsável por 45.000 cirurgias cardíacas e pulmonares, 358 transplantes cardíacos), classificado pelo Ministério da Saúde como Centro de
Referência, afirmou-se sobretudo nas áreas da transplantação cardíaca e da reparação da válvula mitral e foi responsável, desde cedo, pela eliminação da lista de espera para cirurgia cardíaca e torácica existente na zona centro do país.
Manuel Antunes quer, no entanto, continuar a ter contacto directo com os doentes. Não sendo no Serviço Nacional de Saúde, sê-lo-á seguindo outros caminhos que se vislumbram, no sector privado ou em missões humanitárias com as quais tanto se identifica, contribuindo com a publicação de mais um livro, agora sobre história da cirurgia cardíaca nacional ou na edição internacional de trabalhos científicos, onde conta já com mais de 400 artigos publicados. Aos que darão continuidade ao seu legado, deixa a mensagem: “Não sou daqueles que dizem para não mudar nada daquilo que fiz mas pelo menos mantenham os princípios que fomos desenvolvendo. Não há pessoas insubstituíveis e nada me satisfaria mais do que, daqui a um ano, poder dizer que o serviço está muito melhor do
que quando o deixei. Porque se estivesse pior, se o ‘edifício’ tivesse abanado ou ruído significaria que algumas das fundações que deixei não tinham as devidas condições”.

E ainda …

“Houve muitas circunstâncias da vida em que tive sorte. Eu disse na minha última lição que o meu avô esteve na famosa Batalha de La Lys onde morreram muitos soldados portugueses e ele não morreu e se tivesse morrido eu não tinha nascido. A minha mãe sempre trabalhou em casa, e até nisso tive sorte, a minha mãe estava sempre comigo.”
“Cinquenta por cento dos alunos que terminam o ensino secundário querem Medicina e já nesse tempo era assim. O médico, o padre e o farmacêutico eram as pessoas importantes da terra. E depois havia muitos professores que eram igualmente médicos. Tive um avô materno que também esteve doente nessa altura e eu acompanhei-o e houve vários aspectos da minha vida que me orientaram para a Medicina.”

“Se eu pudesse voltar atrás? Não adiantaria. Os erros que fiz são para servir de lições de vida. Voltaria a escolher os mesmos destinos mas tentaria novos e mais fáceis caminhos.”
“A família, tanto da minha parte como da minha mulher, é muito unida. Nestes trinta anos sempre passei em média no hospital doze horas por dia, muitas noites aqui, foi muito tempo em que não me dediquei à família.”
“Mantive sempre os laços com a Universidade em Joanesburgo tanto que apresentei lá uma tese de Doutoramento sénior, que é algo que não existe em Portugal, que só existe nalgumas universidades e aquela tinha e eu apresentei um trabalho sobre a cirurgia valvular, esta tese era constituída por todos os trabalhos na imprensa científica internacional que eu tinha publicado”.

“Nunca tive ambição de fazer política. Tive vários convites que não aceitei. Estive quatro anos como presidente da assembleia municipal de Leiria mas interpretei isso como um serviço cívico que fiz, não mais do que isso.”
“A dada altura fui convidado a escrever um livro, baseado nos artigos que tinha escrito, mas na altura eu não tinha tempo para o fazer. Curiosamente, um dia eu tinha um problema a resolver com os serviços centrais do Ministério da Saúde e foi aí que decidi escrever o livro que deu muito que falar. O professor Barlow dizia que ‘uma pessoa torna-se importante, mesmo que não tenha importância nenhuma, se um dia for capaz de dizer não a uma pessoa importante’. Não se pode escrever ‘Serviço nacional de saúde: ineficiência e desperdício’ e esperar não ter nenhuma reacção. Em cinco semanas o livro passou por cinco edições. Quinze mil cópias foi algo de significativo.”

“A minha esposa acompanha-me há 46 anos, em todos os aspectos. Fez uma longa pausa voluntária no curso de Economia que frequentava para cuidar dos filhos e em prol também da minha carreira, curso que só retomou catorze anos depois, quando regressámos a Portugal”.
“Em Coimbra a cardiologia desenvolveu-se muito. E mais podia ter sido feito se nos tivessem deixado.”

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