Coimbra  17 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

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“Não foi só Coimbra que falhou…foi o país!”

22 de Abril 2018

Perfil publicado a 08 de Março de 2018, na edição n.º 916

 

Nome: Emanuel Furtado
Naturalidade: Coimbra
Idade: 57 anos
Profissão: Coordenador Unidade Transplantação Hepática do CHUC
Passatempos: Leitura de artigos técnicos da área da Transplantação Hepática
Signo: Virgem

Há quase 26 anos atrás realizava-se o primeiro transplante hepático com sucesso em Coimbra através duma equipa liderada pelo pai, Professor Linhares Furtado. Um quarto de século depois o legado continua bem entregue e sedimentado pelas sucessivas conquistas do filho, Emanuel Furtado.
Nasceu em Coimbra mas, por força das circunstâncias, iniciou os estudos em S. Miguel, Açores, de onde era natural a maior parte da família: “como era usual na vida de muitas pessoas, também os meus pais vieram estudar para o continente, o meu pai Medicina e a minha mãe Matemática.
Entretanto a Faculdade decidiu que o meu pai seria o responsável pela Urologia e foi por isso que os meus pais foram para Londres durante um ano e eu completei o primeiro ano de escola em S. Miguel”, recorda o cirurgião.

Regressou a Coimbra onde continuou a escolaridade mas com 12 anos voltou a viajar, desta feita para Lourenço Marques, Moçambique (actual Maputo), para acompanhar o pai em mais uma expedição. Já o 25 de Abril tinha acontecido quando regressou a Coimbra.
Chegada a altura de ingressar no ensino superior esteve indeciso entre Física e Medicina prevalecendo a segunda opção. Depois, enquanto aluno, acompanhou de perto o trabalho do pai: “fui um daqueles alunos que procurou o contacto com a prática médica. Estava presente nos serviços de urgência, fora das horas normais, e envolvi-me bastante com a área para além daquilo que o curso nos dá. Tive o grande privilégio de acompanhar o meu pai na prática cirúrgica e, enquanto não terminei a licenciatura, participei nas intervenções cirúrgicas que ele fazia numa
clínica privada, embora não fosse no lugar de médico mas sim como instrumentista, e isso no meu caso foi muito bom.”

Com o internato geral percebeu que tinha uma apetência para a cirurgia geral e fez então o exame de entrada na especialidade. Em 1987, ano da abertura do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC), entrou para o internato complementar de cirurgia geral. Neste ano fez-se também a primeira tentativa de transplante de fígado em Portugal, uma em Coimbra e outra em Lisboa. Sendo que o início dos programas de transplantação de órgãos sólidos em Portugal foi liderado por Linhares Furtado, mais uma vez os passos do pai conduziram Emanuel Furtado a
esta área que começou a ser regular a partir de 1992 e que cresceu muito mas que Emanuel Furtado, em jeito de desabafo, diz dificultar muito o foro afectivo de quem a ela está ligado: “É mau ter muitas urgências mas ainda assim não é tão mau porque tem-se os dias marcados, há alguma previsibilidade. A transplantação, da forma como é feita em Portugal e nos países ocidentais com a utilização de órgãos de pessoas que faleceram…é complicado. Há outros países, sobretudo na Ásia e no Japão onde a transplantação é quase toda feita com pessoas vivas o que quer dizer que a cirurgia é agendada previamente. Mas a verdade é que no nosso país e em Espanha, por exemplo, a disponibilidade de dadores de cadáveres é tão alta que não há pressão para se fazer com dadores vivos. Aqui durante uns anos ainda fizemos vários transplantes com dadores vivos e depois houve uma época em que quase não o fizemos porque as necessidades baixaram e isso coincidiu com uma altura em que uma equipa – liderada por mim e pela Dra. Isabel Gonçalves e com anuência por parte das outras equipas – conseguimos que Portugal ficasse com os melhores critérios do mundo de distribuição de órgãos para crianças no fígado, o que ainda hoje se mantém”.

Considerado um dos poucos médicos, no país e na Europa, capazes de fazer transplantes hepáticos em crianças, Emanuel Furtado esteve quase um ano afastado dos CHUC regressando depois em 2012. Nesse período de ausência aconteceu o inesperado: “Na minha ausência as crianças, pelo menos durante uns seis meses, tiveram de ir para Madrid para ser transplantadas. E isso foi o resultado, em parte, da desvalorização deste trabalho. Depois houve a necessidade de reiniciar a parte de transplantação pediátrica e foi por isso que voltei. Era comum dizer-se ‘são 10 transplantes por ano, qualquer equipa faz aquilo, é facílimo’. Gostaria que não voltasse a acontecer nada semelhante por via também (além de outros aspectos) de se criar a ideia que qualquer pessoa fazia isso. Havia, e por vezes ainda há, aquela ideia que Coimbra falhou redondamente porque estava encarregada daquela responsabilidade que era atender todas as crianças que precisam do país. Não é bem assim, não foi só Coimbra, o país inteiro falhou! E uma parte teve a ver com a desvalorização do trabalho dos outros. O facto é que quando os transplantes pararam em Coimbra eram tão fáceis que mais ninguém os fez”.

Hoje, segundo Emanuel Furtado, a transplantação em Portugal atravessa uma fase de estabilidade fortalecida com equipas bem formadas para o efeito, profissionais que Emanuel Furtado ajudou a formar. Também por isso está na altura da actividade profissional do cirurgião começar a reduzir-se para preencher lacunas que, com o zelo extremo à profissão, acabaram por surgir: “É altura de a minha actividade na transplantação começar a diminuir. Não é bom não ter mais nada além da profissão. A certa altura isso também tem um retorno negativo na própria profissão e isto é algo que já tenho vindo, aos poucos, a alterar”.

E ainda…

“Eu nunca tive aquela consciência que alguma pessoas têm que desde pequenos sempre quiseram ser isto ou aquilo. No final do ensino secundário pôs-se a questão ‘o que vou escolher?’. Tinha classificação para, praticamente, qualquer curso mas estava indeciso entre Física e Medicina. As minhas disciplinas fortes sempre foram matemática e física. O que na altura não era habitual, uma pessoa com estas disciplinas fortes ir depois para medicina. Lembro-me no dia que tive de escolher, decidi ali naquele momento apenas, e escolhi Medicina.”

“O meu ano foi o primeiro em que o concurso para entrada na especialidade foi feito na altura devida, mas para isso foi junto com o ano que estava um ano à nossa frente. Foram dois cursos agregados ao mesmo tempo e daí para cá os concursos passaram a ocorrer na altura devida. Quanto tive de escolher escolhi então a cirurgia geral. Nessa altura eu já tinha decidido antes porque conhecia, presencialmente, as dificuldades e características dessa área. Nessa altura, e hoje ainda também, as pessoas com boas classificações quase não iam para cirurgia geral, escolhem outras especialidades. Mas eu e outro colega de curso escolhemos cirurgia geral.”

“O problema é que há pessoas, e eu sou uma delas, que muito pouca vida têm além da actividade profissional. Eu quando falo de mim o centro é (e tem sido) a profissão. A nível de passatempos quando era novo praticava natação, basquetebol, ténis….cheguei a ser atleta federado. Mas claro, como acontece com quase toda a gente, manter a profissão e ao mesmo tempo o nível de prestação no desporto não dá, é quase incompatível. A minha vida pessoal como a maior parte das pessoas neste tipo da actividade é profundamente prejudicada não só pela carga de trabalho mas pela imprevisibilidade deste trabalho”.

“Esta área nunca foi suficientemente reconhecida em Portugal e os problemas que existiram tiveram a ver com isso e corre-se o risco de voltar a acontecer. Aliás, a nossa cultura é um bocadinho assim, o trabalho dos outros nunca vale nada, o nosso é que é sempre o difícil e complicado e foi o que conduziu aquela catástrofe…inadmissível até. Uma parte do que aconteceu teve a ver com a desvalorização deste trabalho”.

“Portugal, nos cuidados de saúde e nas questões da prevenção rodoviária e serviços de atendimento de urgência fora do hospital melhorou muito. A actividade de transplantação, quando é baseada em dadores cadáveres, a disponibilidade dos órgãos não pode aumentar continua e numericamente porque os dadores deixaram de ser os jovens de vinte anos que tinham acidente de mota ou automóvel para passarem a ser as pessoas mais idosas vítimas de AVC. E isto diminui o número de dadores jovens e, consequentemente, a qualidade dos órgãos e portanto pode haver mais colheita mas os órgãos podem não se utilizar porque não têm qualidade. E isso é excelente para o país, é o sinal de uma evolução positiva extraordinária.”

 

 

 

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