Coimbra  28 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Museu para explorar o mundo do ZX Spectrum nasce em Cantanhede

2 de Outubro 2020 Jornal Campeão: Museu para explorar o mundo do ZX Spectrum nasce em Cantanhede

Vai nascer em Cantanhede o Museu Load ZX Spectrum. O espaço é uma espécie de exercício de nostalgia, mas, também uma homenagem ao criador daqueles computadores que apareceram nos anos 1980 e à sua ligação “desconhecida” a Portugal.

Aquele que será “o primeiro museu do mundo dedicado ao Spectrum” vai abrir portas no dia 17, numa parceria entre o coleccionador João Ramos e o Município de Cantanhede.

Dentro do museu, os sons agudos de arranque dos jogos remete, de imediato, para o universo dos Spectrum, os computadores que chegaram à casa dos portugueses nos anos 80 e que marcaram o primeiro contacto para muitos com videojogos ou com a programação.

João Ramos foi um desses jovens que cresceu com o Spectrum tendo, até, aprendido as primeiras palavras em inglês a partir daqueles pequenos computadores, que se ligavam a um televisor e a um gravador de cassetes.

Para além dos jogos como ‘Chuckie Egg’, ‘School Daze’, ‘High Noon’ ou ‘Pyjamarama’, João Ramos, hoje com 42 anos, teve no Spectrum as suas primeiras lições de código.

Aquele pequeno computador acabou por definir o seu percurso de vida, tendo-se formado em engenharia informática e é hoje o responsável de uma ‘spin-off’ lançada pelo grupo Critical Software, em Coimbra.

Nos últimos dez anos, começou uma colecção, não apenas de computadores Spectrum, mas de tudo o que gira à volta do seu universo, de periféricos, interfaces, cassetes de jogos, revistas, manuais e livros.

Ao mesmo tempo, procurou também coleccionar muitas das invenções do britânico Clive Sinclair, pai do computador ZX Spectrum, cujas criações eram marcadas pela obsessão pelo baixo preço e pela miniaturização: calculadoras eletrónicas de bolso, uma calculadora de pulso, rádios do tamanho de uma caixa de fósforos, televisões minúsculas ou até um veículo eléctrico (que chegou a ser usado pelo piloto Ayrton Senna).

Com uma colecção tão grande, João Ramos, que é natural de Cantanhede, decidiu desafiar o Município a fazer uma exposição, que foi inaugurada, em 2019, no Museu da Pedra.

O sucesso foi tal que a autarquia e o coleccionador decidiram dar o próximo passo e criar um museu na antiga escola primária de Cantanhede.

“O que vamos encontrar aqui? Este é um espaço dedicado à revolução tecnológica simbolizada pelo ZX Spectrum, o primeiro computador de muitos portugueses e de muitos europeus e um computador com uma história muito forte ligada a Portugal, que muitos portugueses não sabem”, contou à agência Lusa João Ramos.

O objectivo não é ser a maior colecção do mundo, mas antes convidar a conhecer aquele universo que disse tanto a tantos jovens nos anos 80 e que também é uma marca numa revolução tecnológica que continua nos dias de hoje, explicou.

Apoiado por vídeos e guias de visita, o público pode ver como funcionavam os primeiros ZX Spectrum, mas também vão ter a oportunidade de experimentar ou revisitar os rudimentares jogos feitos na altura.

Para além disso, o museu também explica a história da ligação dos Spectrum a Portugal, a partir da empresa Timex, que colaborou na montagem e desenvolvimento dos computadores.

“A Timex começa a trabalhar com a Sinclair a partir de Aberdeen [na Escócia], mas a fábrica em Portugal acaba por converter a linha de produção de montagem de relógios mecânicos em electrónica e cria um centro de engenharia”, explicou, salientando que há computadores Spectrum montados e desenvolvidos em Portugal.

Mas para João Ramos, para além da contextualização histórica, o museu é também uma forma de brincar às memórias.

“A coisa com mais piada nisto não são os computadores em si. É recordar a infância e o que os marcou, seja o lanche enquanto o jogo carregava ou levar-se uma cassete para a casa dos amigos para passar uma tarde”, notou.

Numa das salas, essa espécie de exercício de nostalgia é mais evidente: um Spectrum está ligado a uma televisão antiga, naquilo que seria um cenário de uma sala portuguesa dos anos 1980, com um aparador, um cadeirão velho e um quadro do “Menino da Lágrima” a compor o ramalhete.

“É qualquer coisa diferenciadora”, observou a presidente da Câmara de Cantanhede, Helena Teodósio, salientando que o museu é “uma viagem no tempo”.

A autarca, que tem um filho que também cresceu com o Spectrum, salienta que a primeira experiência da exposição no Museu da Pedra foi tão positiva (houve até visitantes estrangeiros) que admite já uma expansão do espaço, mesmo antes de abrir as portas do Museu Load ZX Spectrum.

“Vai ser um grande sucesso. Acho que vai atrair tanta gente, que vamos ter que começar a pensar noutra solução”, afiançou.