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Médicos criticam na ARSC o “desnorte, desorientação e desorganização” que se vive

30 de Outubro 2020 Jornal Campeão: Médicos criticam na ARSC o “desnorte, desorientação e desorganização” que se vive

José Carlos Almeida, secretário Regional do Sindicato Independente dos Médicos; Carlos Cortes, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos; e Noel Carrilho, presidente do Sindicato Médicos Zona Centro / FNAM

 

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), o Sindicato Independente dos Médicos do Centro e o Sindicato dos Médicos da Zona Centro estiveram, hoje, na Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro a demonstrar a sua preocupação face ao “desnorte, desorientação e desorganização que está a acontecer da parte do Ministério, com impacto directo sobre a capacidade de resposta do SNS nesta fase da pandemia”.

A reunião com a ARS, que teve carácter de urgência, revestiu-se de outros assuntos que não apenas os ligados à pandemia, como seja a não nomeação dos conselho de Administração de unidades locais de saúde (ULS) da Guarda e de Castelo Branco, a descoordenação entre unidades de saúde ou a falta de eficácia de programas informáticos, para além de outras questões já criticadas pela SRCOM como a “ineficiência do encaminhamento da linha SNS24, que está a criar constrangimentos muito graves nas urgências” ou o atendimento a doentes que chegam aos hospitais já “extremamente descompensados como não acontecia antes”.

“A ministra da Saúde e a Direcção-Geral da Saúde erraram quando a pandemia chegou a Portugal. Errar é humano, mas repetir o erro é desumano”, nota Carlos Cortes, presidente da SRCOM, sublinhando que é preciso “uma resposta integrada que não existe porque os hospitais têm alguma dificuldade nesta ligação em rede – têm autonomia própria – ,mas neste momento pandémico é preciso mais do que autonomia, é preciso uma voz de comando. E efectivamente a ministra da Saúde não é essa voz de comando”.

As preocupações da SRCOM e das estruturas sindicais são reflexo das reuniões que têm tido com hospitais de toda a região Centro e dos respectivos serviços e equipas que estão na linha da frente no combate à covid-19.

“A situação que se vive na região Centro – e que não é diferente do que está a acontecer no país – traduz-se numa impreparação das medidas que já deviam ter sido adoptadas e concretizadas, em particular, a franca descoordenação que existe entre todos os hospitais”, realça o responsável.

“Viemos sensibilizar a ARS para transmitir à DGS e à ministra da Saúde que o país e a região Centro não estão preparados e perdeu-se uma grande oportunidade. Obviamente, ainda está a tempo de ajudar os hospitais e os profissionais de saúde que estão no terreno, a dar uma resposta mais eficaz para que isto não se torne verdadeiramente no caos que toda a gente já percebeu que se está a iniciar”, remata, apelando ainda ao Ministério que não trate os hospitais do Interior como “unidades de segunda”.

Tememos que a mensagem não chegue aos destinatários”

O secretário regional do Centro do Sindicato Independente dos Médicos, José Carlos Almeida, corroborou Carlos cortes, referindo que há “uma total descoordenação na assistência inter-hospitalar”.

Para o delegado sindical, a falta de recursos humanos também o preocupa, considerando que cada vez mais utentes “se queixam que têm consultas adiadas e menos acesso à saúde”, o que poderá levar a um aumento da violência contra os profissionais de saúde, face à “falsa percepção da população de que os médicos de família estão nos centros de saúde e não estão a trabalhar”.

Noel Carrilho, do Sindicato dos Médicos da Zona Centro, considerou que a ARSC continua com a “ilusão da capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde” ao negar que haja atrasos nas consultas nos centros de saúde.

“Os médicos de família nunca tiveram tanto volume de trabalho como agora. […] Não consigo perceber esta ilusão criada dentro do Ministério e das ARS, que com os mesmos recursos é possível dar assistência a doentes covid e não covid”, alertou.

“Tememos que a mensagem não chegue aos destinatários, até porque temos maus destinatários com moucos ouvidos e já estamos habituados a isso dentro da tutela Central. Esperemos, dentro daquilo que sejam estas administrações [ARS] ter melhores resultados, já que deveriam conhecer melhor aquilo que se passa no terreno. Não é isso efectivamente que se passa mas não iremos deixar de lutar como médicos e como estatutariamente defensores do SNS e dos doentes”, concluiu Noel Carrilho.