Coimbra  23 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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Médico de Briosa ao peito

5 de Maio 2018 Jornal Campeão: Médico de Briosa ao peito

Perfil publicado a 22 de Março de 2018, na edição n.º 918

 

Nome: MÁRIO Alberto Domingos CAMPOS
Naturalidade: Torres Vedras
Idade: 70 anos
Profissão: Médico Nefrologista aposentado e ex-jogador da Académica de Coimbra
Passatempos: Golfe
Signo: Carneiro
Foi dos primeiros Nefrologistas em Portugal e um dos últimos a alternar a bata de médico com o equipamento da Académica de Coimbra. Mário Campos abraçou desde a adolescência esta união que na altura era vista de forma natural mas, com o passar dos anos, foi desaparecendo. Uma “dupla” que, no seu discurso, assim como na sua vida, se entrelaça e acaba por completar de forma genuína.
Aos 17 anos foi convidado por Mário Wilson para jogar na Académica. A ambientação à cidade de Coimbra, ao futebol e à vida de estudante foi facilitada pelo irmão mais velho, Vítor Campos, que já jogava no clube e terminava por essa altura o primeiro ano do curso de Medicina. E assim, os dois irmãos, seguiram um percurso semelhante: “ambos fizemos o mesmo trajecto, a Medicina e o futebol. Foram centenas de jogos pela Académica, alguns como internacionais A e licenciamo-nos em medicina”, reitera o nefrologista.

Até aos 30 anos Mário Campos manteve a estreita ligação entre as duas áreas mas não esconde ter dado sempre primazia à licenciatura, gerindo a vida boémia da academia de forma regrada. Um dia, conta divertido, chegou mesmo a recusar um convite que, à partida, seria irrecusável: “Eu tinha vinte e poucos anos e fui seleccionado para jogar na Madeira um Portugal – Inglaterra nos sub-23. Andava no segundo ou terceiro ano de medicina e tinha uma cadeira difícil para fazer que me permitia passar de ano. Dez dias antes do jogo comuniquei ao selecionador que não podia ir. E não fui. De facto era assim naquele tempo…primeiro éramos estudantes, e depois atletas.”
Para o nefrologista com coração de atleta, a definição de prioridades era difícil dado o elevado nível de futebol praticado pela Académica daquele tempo. “O Benfica nos anos 60 ganhou duas vezes a taça dos campeões europeus e participou em três finais. O Sporting também ganhou uma taça europeia em 1964 … e a Académica chegou, em 1967, a ficar em 2.º lugar no campeonato e alcançou vários resultados entre os cinco primeiros lugares. Participou nas competições europeias e vários jogadores foram internacionais. É de realçar a célebre final da Taça de Portugal de 1969 onde a Académica perdeu no segundo prolongamento contra o Benfica por 2-1. Nessa altura a equipa era constituída por nove universitários e oito internacionais A. Uma coisa extraordinária!”, frisa.
Mário Campos não fala da Nefrologia sem, de vez em quando, “dar um pulo aos relvados” para recordar os tempos difíceis vividos pela equipa dos estudantes: “Há mais de 30 anos que a Académica vive com dificuldades. Após a revolução do 25 de Abril de 1974, a secção de futebol, em assembleia geral de estudantes, foi extinta. Os estudantes não perceberam ou ignoravam a importância que a equipa da Académica tivera na crise académica de 1969. O futebol da Académica solidarizou-se com a luta estudantil e permitiu a visibilidade a nível nacional deste movimento, até então desconhecido”.
Retomando o percurso da vida profissional, após 5 anos como policlínico, surgiu a questão da escolha da Nefrologia como especialidade. A decisão foi motivada pelo facto de ser uma especialidade médica a iniciar-se em Portugal que lhe oferecia alguma garantia de permanecer em Coimbra: “Sobre o rim, na altura, falava-se pouco ou nada e portanto era também uma aventura e um desafio. E na altura, assim como hoje, eu mantenho-me atento à cidade. Esta é uma cidade histórica, que marca bastante. É das cidades do país com maior acessibilidade a nível da educação desde a primária até ao ensino superior. E tem uma área de saúde fortíssima. Praticamente em todo o país não há listas de espera nesta área, nem podia haver caso contrário os pacientes morreriam. É talvez a especialidade, de entre todas as que há (são cerca de 40), melhor estruturada a nível nacional. Há cerca de 16 000 doentes em terapêutica substitutiva, mais de 13 000 em hemodiálise e diálise peritoneal e cerca 3 mil transplantados, e estes são dados muito positivos”, frisa o nefrologista.
Licenciou-se em 1973 e desde então a carreira de médico de Mário Campos preenche-se, maioritariamente, com cargos de chefia. Foi chefe de serviço durante 30 anos e director dos Serviços de Nefrologia entre 2001 e 2016 no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC). Nos primeiros dez anos de nefrologia era, concomitantemente, assistente na área da Nefrologia tendo contribuído, portanto, para o desenvolver desta especialidade logo a partir do seu surgimento.
Hoje, aposentado há cerca de dois anos, mantém responsabilidades médicas e de administração em dois Centros de Hemodiálise extra-hospitalares, Mangualde e Pombal. Foi homenageado pelo CHUC, distinguido como Membro Honorário da Sociedade Portuguesa de Nefrologia e, recentemente, homenageado pelo Núcleo de Veteranos da Académica e como profissional do ano pelo Rotary Club de Coimbra, depois de já ter recebido a Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos em 2014. Distinções várias que são motivo de orgulho para Mário Campos: “Eu não digo ‘já me chega’ mas acho que a parte final da minha carreira foi cheia. E o meu sentimento, quanto à minha vida num todo, é que esta dupla entre o futebol e a medicina foi, realmente, muito bonita.”

E ainda….

“O destino destina mas o resto é comigo.‘ A frase é de Miguel Torga mas eu costumo dizer que se aplica bem ao meu caso. Eu acho que o destino destinou que eu viesse para Coimbra jogar na Académica e destinou a medicina e a nefrologia…mas o resto eu fiz por isso.”
“As praxes académicas do meu tempo eram diferentes. Como jogador da Académica nunca sofri essas práticas porque os atletas da Académica estavam protegidos pelo código da praxe. Quando iam na rua, aparecia uma trupe e perguntava ‘o que é pela praxe’ ao que respondíamos o que estudávamos e acrescentávamos ‘mas eu sou jogador da Académica’. A resposta era ‘siga’”.
“No meu tempo, a Medicina estava muito presente na Académica, pois vários atletas seguiram este curso”.
“Naturalmente, senti-me um estudante de Coimbra. Quando viajávamos com a equipa, vestíamos a capa e a batina. Participei em todas as festas académicas – latadas e queima das fitas salvaguardando sempre o equilíbrio pessoal e desportivo”.
“Naquele tempo conseguia fazer tudo e mais alguma coisa…era um gosto e quem corre por gosto não cansa. Foram várias actividades que desempenhei em simultâneo. Se não corria bem o futebol num dia, o trabalho de estudante ou de médico compensava…”
“A família sacrificou-se sempre em prol da minha actividade médico-desportiva. As minhas ausências ao fim de semana foram compensadas pelo entusiasmo académico que se prolonga até hoje.”
“A Académica distinguiu-se das outras equipas porque a formação dos seus jogadores foi sempre uma prioridade.”
“Quando, em 1986, o Clube Académico de Coimbra, herdeiro desportivo da Secção de Futebol da AAC que tinha sido extinta em 1974, regressou à AAC como organismo autónomo de futebol (OAF), o futebol tinha mudado. Estes 12 anos afastaram a academia do futebol. Felizmente, hoje em dia, nota-se uma crescente aproximação da academia à OAF embora a sua identidade seja diferente da antiga secção de futebol da AAC.”
“As doenças do rim aumentaram desde que surgiu a Nefrologia porque muitos doentes morriam sem saber que era por causa do rim. Hoje em dia há um equilíbrio entre os doentes que entram em diálise, os que vão falecendo (com idade mais avançada cuja média em tratamento em diálise é superior a 70 anos) e os transplantes que se fazem hoje em dia.”
“Acho que, hoje em dia, o ensino da Nefrologia é muito forte não só em Coimbra mas a nível nacional”.