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José Adelino Maltez aborda a “falta de atitude política”

28 de Janeiro 2024 Jornal Campeão: José Adelino Maltez aborda a “falta de atitude política”

A caminho das eleições legislativas de 10 de Março, José Adelino Maltez antevê o que pode o País esperar da campanha que aí vem. Para o politólogo, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro vão agora ter a sua prova de fogo, dizendo ao que vêm, o que propõem e mostrando atitude. E não tem dúvidas: “o grande problema não está em convencer os abstencionistas, mas os hesitantes”.

Campeão das Províncias [CP]: Estamos a menos de dois meses das legislativas. As “casas” partidárias e as suas lideranças estão arrumadas e temos, nestas eleições, muitos rostos novos que vão a jogo. Que campanha, na sua opinião, vamos ter?

José Adelino Maltez [JAM]: As casas não estão alinhadas ainda. Falta atitude política. Temos André Ventura já com essa atitude, a do PCP e a do Bloco de Esquerda é a de sempre, que conhecemos, e aqui nada irá surpreender. Falta saber qual é a atitude política da Aliança Democrática (AD) e como é que ela se vai “vender” e comunicar, bem como saber que atitude ante o eleitorado terá o PS.

[CP]: Quando fala em atitude política refere-se a quê concretamente?

[JAM]: Portugal vive há muito tempo com dois fantasmas: o preconceito de esquerda e o fantasma de direita. E há certa esquerda que pensa que ela é que faz a direita. Alguns que dizem que a direita era ultraliberal e, de repente, aparece André Ventura com a direita social, com intervenção do Estado, mais do que os programas de esquerda. E todos eles estão a ver isto. Pedro Nuno Santos, que representa bem os dogmas do PS (europeísmo, atlantismo), e o PS é de esquerda, ainda é o partido de Jorge Sampaio e Mário Soares, e há traços identitários. E, a verdade, é que o actual líder do PS parte para a campanha onde não há sinais de que possa vir a ser derrotado. Basicamente, tudo vai depender daquilo que cada um fizer.

[CP] E no caso da AD, que atitude falta?

[JAM]: O problema da AD é que tem de ser rigorosamente ao centro e ter um programa que responda sociologicamente ao PS. A questão é: os principais líderes que vão a jogo para ficar nos três primeiros lugares – PS, AD e Chega – podem ficar muito próximos uns dos outros. E, nesta medida, todos eles têm de mobilizar tudo o que têm e de ter atitude política. E isto resume-se apenas a todos eles convencerem o Homem Comum Português, que não é de esquerda nem de direita, e que à segunda-feira vota no PS, à terça vota no PSD, à quarta-feira gosta de André Ventura, etc. Ganhará as eleições quem conseguir captar estes infiéis defrontados com esta criação artificial de direita e esquerda.

[CP] A ideologia está hoje mais esbatida que nunca?

[JAM]: Sim, qual é a diferença entre social-democracia e socialismo? O socialismo democrático é a social-democracia. Nem sequer há um problema ideológico, mas há um problema de tradição cultural.

[CP] E nesta medida, programaticamente, o que pode distinguir o PS da AD nestas eleições?

[JAM]: Que respondam à questão fundamental dos dias de hoje e dos próximos anos e que é: criamos um Estado social, o Estado de bem-estar (em inglês, Welfare state), que nas suas principais componentes, passou a ser, como dizem os espanhóis, um Estado de mal-estar. Ou seja, aquilo que dava conforto e prestígio ao Estado social (Saúde, Educação, Habitação, etc.) é exatamente o ponto. E as divergências irão aparecer aqui. E é aqui que irão surgir também as tais atitudes políticas de que falo. E terão de demonstrar que conseguem agir sobre os reais problemas do País que estão num estado de mal-estar. O problema hoje nem é muito político mas sim de gestão. Além disso, nenhum dos dois (Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro) foi testado ainda em termos políticos. Tem uma particularidade: são ambos homens do Norte e têm uma interpretação não tão política como em Lisboa.

[CP] Olhando para Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, para o historial político de ambos, estão “taco a taco”?

[JAM]: Sim, estão. Quem vai decidir as eleições são as autarquias, é a democracia local. E esta vai ser uma eleição não dependente de Lisboa.

[CP] E o CDS-PP, que renasce e garante de novo um grupo parlamentar, que contributo pode dar a esta AD?

[JAM]: O CDS-PP é rigorosamente ao centro. E todas as forças políticas acham justo este regresso, porque apesar de tudo manteve um certo aparelho autárquico e militância. E, nas últimas eleições, teve mais votos que os outros partidos, mas com o método d’Hondt não elegeu deputados. Além disso, o CDS-PP mantém um espaço comunicacional e mostra instinto de sobrevivência. Conseguir dois deputados é uma vitória. E, por tudo isto, o PSD sabe que capitaliza fazendo esta AD.

[CP] E o Chega de André Ventura, que expectativas tem?

[JAM]: Não sei o que ele pensa quanto aos resultados. Mas sei que a maior parte das democracias europeias ocidentais são governos de conjunção e de negociação. No dia a seguir às eleições e depois. E, neste momento, maiorias absolutas é algo que em Portugal implodiu por dentro, depois de António Costa. E também é preciso lembrar que não há necessariamente instabilidade com maioria relativa.

[CP] E acredita que Luís Montenegro não irá (mesmo) dar a mão ao Chega, depois das eleições, caso necessite dele para governar?

[JAM]: Apesar de tudo acho que os políticos têm palavra e não duvido nada que manterá o que tem dito.

Chega representa o risco de rebentar com o sistema”

[CP] Porque é que o Chega assusta tanto?

[JAM] Não sei se assusta. Na minha opinião, o Chega representa o risco de rebentar com o sistema.

[CP] Acha que é um perigo para a democracia?

[JAM] O que eu digo é que convém que olhem para André Ventura como um político porque é exatamente isso que ele é, igual aos outros. Quanto ao populismo que tantos por aí o acusam, eu apenas digo: todos os políticos o usam, não é exclusivo de André Ventura.

[CP] Falando do PCP e do Bloco de Esquerda, com dois novos líderes também ao leme, em que ponto partem para este combate?

[JAM] Não vão abaixo. Vão manter-se na mesma linha de sempre. Paulo Raimundo não está mal na sua liderança, mas o PCP é o colectivo, e nesta perspectiva não está mal em termos de resistência, tal como no Bloco que não acho que a liderança seja um desastre.

[CP] Espera alguma surpresa nos resultados a nível de algum círculo eleitoral específico?

[JAM] Os grandes círculos podem sofrer alteração talvez no voto jovem, mas não tenho dados científicos que me permitam ter segurança para o afirmar. O essencial vai ser a comunicação de Pedro Nuno Santos, tal como de Luís Montenegro que também tem de surpreender. Tem ambos experiência política, por isso, resta-lhes dizerem ao que vêm.

[CP] Quanto à abstenção, vai ser mais do mesmo, com elevada percentagem ou tem esperança que possamos ter um cenário diferente?

[JAM] Vai ser igual. O grande problema não está em convencer os abstencionistas, mas os hesitantes.

UM FILHO DE COIMBRA

Natural de Coimbra, filho e neto de agricultores, moleiros e marceneiro de Cernache, José Adelino Maltez nasceu a 18 de Dezembro de 1951. Frequentou a escola primária e secundária públicas do concelho e licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

Doutor na especialidade de Ciência Política pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), começou a escrever artigos de jornal no velho Diário da Rua da Sofia. Foi durante quatro décadas e meia docente universitário público em Lisboa. Catedrático jubilado, José Adelino Maltez é pai de três filhos e quatro netas e considera-se um emigrante na capital, porque ainda aceita que o tratem como o “Zé de Coimbra”, da Escola do Arco de Almedina.

Entre as suas obras, para além do “Ensaio sobre o problema do Estado”, editado em 1990, e de cinco volumes de poesia, publicou várias obras com cruzamento histórico com o Portugal pós-liberal, como “Nas encruzilhadas do país político”, 1987; “A estratégia do PCP na reforma agrária”, 1990; “Sobre a estratégia cultural portuguesa”, 1991; “Tradição e revolução”, 2004-2005; “Biografia do pensamento político”, 2009 e 2014; “Abecedário simbiótico”, 2011; “Do império por cumprir”, 2016; e a cronologia “Portugal político”, 3 volumes, 2020.

Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)

Entrevista publicada na edição em papel do “Campeão das Províncias” de 25 de Janeiro de 2024