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Joaquim de Sousa: o declínio da Figueira da Foz e o drama das Misericórdias

10 de Junho 2023 Jornal Campeão: Joaquim de Sousa: o declínio da Figueira da Foz e o drama das Misericórdias

Joaquim de Sousa é um homem cuja história de vida se entrelaça com a cidade da Figueira da Foz, embora tenha nascido na cidade de Coimbra. Licenciado em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, Joaquim de Sousa encontrou o seu verdadeiro lar na Figueira da Foz, onde já deixou uma marca indelével na comunidade. Iniciou a sua carreira política como deputado na Assembleia da República onde assumiu o cargo de Secretário de Estado da Juventude e do Desporto entre os anos de 1976 e 1978. No entanto, foi como presidente da Câmara da Figueira da Foz, pelo Partido Socialista, que Joaquim de Sousa exerceu um papel fundamental no desenvolvimento da Figueira da Foz, durante o mandato de 1980 a 1982. Hoje, Joaquim de Sousa é provedor da Misericórdia – Obra da Figueira, onde todos os dias reforça o compromisso contínuo com o bem-estar e a assistência social da comunidade. Em Entrevista concedida à Rádio Regional do Centro e ao Campeão das Províncias chamou a atenção para a situação actual da cidade, afirmando que a Figueira da Foz está há muitos anos numa fase de “decadência”.

 

 

Campeão das Províncias CP: Como é que está?

Joaquim de Sousa (JS): Vou andando, com os achaques próprios da idade. Mas vou tentando resistir.

 

CP: Sempre foi um homem de resistência?

JS: Fui sempre! Uma parte daquilo que, antes do 25 de Abril, era conhecido como reviralho. Vivíamos tempos complicados e depois fui convidado pelo doutor Mário Sottomayor Cardia para estar presente no primeiro e segundo governo constitucional. Infelizmente, o país não reconheceu nem agradeceu a essa grande personalidade que foi um excelente ministro da Educação. As pessoas hoje em dia não têm noção e isso é preocupante, pois ninguém imagina o quão desafiador foi viajar sem rede durante 2 ou 3 anos, até ao 25 de Novembro. Após essa data, testemunhámos a abertura de um novo momento político: a transição entre o processo revolucionário, que marcou os anos de 1974-1975, e a institucionalização da democracia.

 

CP: Nessa altura era responsável pela Secretaria do desporto?

JS: Comecei com a Juventude e Desporto, um nome com o qual sempre embirrei e esforcei-me para tentar dar outro nome à Secretaria de Estado. Porque a Juventude é uma questão que atravessa todas as secretarias. Os problemas da Juventude são transversais a todos os sectores do Estado. Fui Secretário de Estado da Juventude e do Desporto e depois também assumi a responsabilidade pela acção social escolar. Comecei com duas direcções e acabei com cinco.

CP: Tendo iniciado a sua vida profissional como professor, como é que olha para o actual estado da Educação?

JS: Eu não seria capaz de ser professor nos dias de hoje. Os professores perderam toda a autoridade. Nas escolas não há disciplina, ninguém manda em ninguém. E isso aconteceu porque o país permitiu. A culpa é do próprio país. Era necessário restaurar a autoridade dos professores. Eles foram completamente desautorizados ao longo de todos estes anos, atribuindo-lhes apenas uma função técnica e negligenciando a parte educativa, mesmo que confiemos os filhos a eles e os entreguemos muito mais cedo do que no passado. Quando regressei ao ensino nos anos 80, já se percebia que o ambiente estava a mudar, estava a caminhar para o que é hoje. O professor é maltratado por todos, por todos os elementos do sistema educativo, e, portanto, é pouco apreciado pelos pais e não respeitado pelos alunos. E os pais, também, o país não reconhece o seu papel. Estão envolvidos numa luta entre a Fenprof e hoje o STOP, ou seja, é o caos, a educação está um caos. E todos os dias eu testemunho um espectáculo que eu considero indecoroso, que é a saída dos alunos, ao meio-dia, na hora do almoço das escolas. É algo impressionante. Os carros têm que ir buscar os alunos à porta da escola, não há controlo. É uma coisa impressionante. Eu passo pela escola número um, a Escola Bernardino Machado, aliás, foi a escola onde eu terminei como efectivo, e também pela Escola Infante Dom Pedro, em Buarcos e é verdadeiramente impressionante, não conseguem andar 50 metros, precisam de ir de carro até à porta para buscar os filhos. Eu chamo a isso um espectáculo indecoroso que ilustra, de certa forma, o que acontece nas escolas.

 

CP: Foi professor, passou pelo Governo mas também foi presidente da Câmara na Figueira da Foz. O papel do autarca é importante?

JS: Eu tenho uma péssima ideia em relação à generalidade das autarquias, porque foram transformadas em comissões de espectáculos, estão a absorver aquilo que a sociedade civil fazia. As câmaras absorveram essas funções. Depois fazem remodelações urbanísticas que acabam por piorar a situação, como aconteceu na Figueira. Há dois casos desses, de milhões. Como é que uma autarquia pode disponibilizar 300.000 euros para ter meia hora ou três quartos de hora de automobilismo, uma prova que condicionou todo o trânsito? Já dias antes estava a condicionar com as experiências que foram feitas. Eu sou muito céptico em gastar o dinheiro que foi gasto aqui com os Coldplay. Vou contra o sentido da maré, mas vou à vontade. Coimbra não tem necessidades? A cada esquina tem uma necessidade! Eu considero que o papel do autarca é melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e mexer na substância dos assuntos públicos. É o abastecimento de água, electricidade, gás, o estado dos passeios, das estradas, a mobilidade interna, um conjunto de coisas. E aí é que deve estar o foco, é para isso que os dinheiros públicos devem ser destinados, para aplicar em benefício de todos. Já quando estava no Governo, mas depois também na Câmara da Figueira da Foz, sempre fui aos locais, todas as quintas-feiras, ou sextas-feiras, passava o dia nas freguesias. Muita coisa foi resolvida. E muita coisa foi feita. Só em estradas, foram construídos 200 km em três anos de mandato. O que dava satisfação era ver as coisas que beneficiavam a vida das pessoas no dia-a-dia.

 

 

 

 

CP: A sua relação com Pedro Santana Lopes como está?

JS: A relação com o Dr. Santana Lopes e com a Câmara é institucional. Começou com a remodelação do pátio de Santo António, largo Silva Soares, em frente à igreja, onde ocorre a festa de Santo António. Apresentámos um projecto há muitos anos para remodelar aquele muro e torná-lo condizente com a fachada que está por trás, repondo a antiga condição com uma grade igual à da igreja, tal como fizemos na misericórdia. O projecto foi contestado, mas a Câmara avançou com a arte nova. Há 20 anos que estamos a tentar corrigir o que foi feito no muro. Já repusemos a nossa parte atrás e fizemos as laterais da misericórdia. Temos lutado por isso. O Dr. Santana Lopes quis ir lá ver e havia um projecto fantasioso, ainda pior do que está. Ele foi lá e percebeu a nossa preocupação. Ainda por cima a nossa proposta é muito mais barata. Depois disso, falamos duas ou três vezes. Agora visitou a casa dos pescadores. Serviu para quebrar algum gelo, mas a nossa relação é estritamente institucional.

 

[CP]: A Figueira da Foz está hoje melhor do que estava?

[JS]: Continua em declínio.  Actualmente, a população do Concelho da Figueira mantém-se no mesmo patamar de 1981, e as projecções da Pordata são alarmantes. Estima-se que, em 2030, a Figueira da Foz tenha uma população equivalente àquela de 1950. Um retrocesso de 80 anos! A prioridade máxima é atrair investimento, adaptado às necessidades actuais. É urgente criar empregos. É uma situação que vai demorar muito a inverter-se. Era necessário outro tipo de política.

 

[CP]: O país atravessa hoje tempos difíceis. As Misericórdias como estão?

[JS]: As Misericórdias estão a passar mal, muito mal. A maior parte, entre 80% a 90%, da responsabilidade pela assistência social no país recai sobre as Misericórdias. O Estado assumiu encargos com os aumentos consecutivos do salário mínimo, aos quais não tenho objecções, mas a realidade é que as comparticipações do Estado, através dos Acordos de Cooperação, não acompanharam o mesmo ritmo de crescimento das despesas. As Misericórdias já estavam sobrecarregadas com os custos decorrentes da pandemia. No caso específico da Misericórdia da Figueira, os custos extraordinários foram estimados em 250 mil euros. Para alcançar o valor de referência estabelecido pelo Estado para a estadia dos utentes, são necessárias cada vez maiores contribuições por parte desses utentes, dos seus familiares e das Misericórdias. Infelizmente a maioria das pessoas também não tem como cobrir a totalidade das contribuições, o que é que vamos fazer? Fechar a porta a essas pessoas? Não o fazemos!

 

[CP]: Quantos utentes tem a Misericórdia da Figueira?

[JS]: Tem 148 utentes, a nível de idosos, 50 no Lar Silva Soares e 98 no Lar de Santo António. Depois tem a Creche e o Jardim de Infância, com 160 crianças e o Lar Costa Ramos onde residem 30 raparigas. Isto fora o apoio domiciliário e o armazém solidário. São cerca de 500 pessoas apoiadas directamente pela Misericórdia. Conseguimos equilibrar as coisas, mas temos recorrido à venda de património.

 

Lino Vinhal/ Joana Alvim

 [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 8/6/2023]