Coimbra  20 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Investigadores da UC apresentam estudo sobre perturbações no pós-parto

4 de Setembro 2019

Um estudo do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, divulgado hoje (04), concluiu que 15 por cento das mulheres portuguesas apresenta “sintomas clinicamente relevantes” de perturbação obsessivo-compulsiva (POC) no período pós-parto.

O estudo decorreu no âmbito do projecto “Screening, prevention and early intervention in perinatal psychological distress – effectiveness of a new program in primary healthcare”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Ana Telma Pereira, investigadora do Instituto de Psicologia Médica e primeira autora do trabalho “Postpartum obsessive-compulsive phenomena: a psychometric and epidemiologic study in a Portuguese sample”, destacou a “elevada percentagem” de mulheres com “sintomas clinicamente relevantes” de POC.

O estudo, premiado com o ‘Best Poster Award’ no ‘World Congress on Women’s Mental Health’, promovido pela Associação Internacional para a Saúde Mental das Mulheres, envolveu 212 participantes, recrutadas maioritariamente na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, e entrevistadas no sexto mês de pós-parto.

No total, 74,1 por cento das inquiridas registaram pelo menos uma obsessão, relacionado com o receio de deixar cair o seu bebé, e 41,5 por cento apontaram, pelo menos, uma compulsão, como verificar repetidamente o bebé enquanto ele está a dormir.

Apenas 24,1 por cento das mulheres inquiridas não reportaram quaiquer obsessões ou compulsões.

“Estas obsessões ou compulsões não significam, por si só, que as inquiridas sofram de perturbação obsessiva-compulsiva – só 2,4 por cento foram diagnosticadas como tal. O que distingue quem sofre de quem não sofre da doença não é o conteúdo dos pensamentos e comportamentos, mas sim o seu carácter repetitivo, intrusivo e perturbador da vida quotidiana”, referem os investigadores.

“É importante avaliar e detectar o mais atempadamente possível a presença de sintomas e os factores de risco em várias esferas da perturbação psicológica perinatal (como Perturbação Obsessivo-Compulsiva, depressão e ansiedade), até porque as consequências negativas não são apenas para a mulher, mas, também, para a descendência, podendo afectar o desenvolvimento dos filhos”, sublinha Ana Telma Pereira.

Segundo uma nota da Universidade de Coimbra (UC), o trabalho conduzido pela equipa do Instituto de Psicologia Médica foi o primeiro a propor e aplicar uma versão portuguesa da ‘Perinatal Obsessive-Compulsive Scale, o único instrumento utilizado a nível internacional para avaliar os sintomas da POC tendo em conta o contexto específico do período perinatal.

António Ferreira de Macedo, director do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da UC e co-autor do trabalho, diz que o novo instrumento de avaliação “assume particular importância tendo em conta que, entre as doenças mentais comuns a POC é a menos bem diagnosticada e a que leva mais tempo entre o primeiro sintoma e o pedido de ajuda”.

Os investigadores têm, ainda, em curso um novo ensaio clínico que testa a eficácia de um programa de intervenção em grupo, baseado em terapias cognitivo-comportamentais, com exercícios de ‘mindfullness’ e autocompaixão – que é coordenado por Mariana Marques, supervisora clínica do projecto.

Para o futuro fica, também, a intenção de incluir os progenitores do sexo masculino na investigação. “É errado ficar com a ideia de que isto são coisas só das mulheres”, conclui Ana Telma Pereira.

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