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Incêndios: Cobertura noticiosa pode ter efeito promotor de fogos postos

15 de Setembro 2017

Uma cobertura noticiosa dos incêndios que banaliza o acontecimento, assim como o recurso ao sensacionalismo, pode ter um efeito promotor de fogos postos por parte de grupos mais vulneráveis, advertem especialistas.

“Há uma banalização da gravidade dos actos”, disse à Agência Lusa uma psicóloga da Polícia Judiciária, Cristina Soeiro, que há muito estuda o assunto.

Para aquela especialista, a simples referência a “época de incêndios” ou mostrar o mapa de Portugal a laranja e vermelho é uma forma de “normativizar e banalizar a informação”, sendo que a cobertura (longos minutos na televisão com imagens de floresta a arder) é “excessiva e pode ter um efeito de empolgar a situação”.

“Não se pode dizer só que está a arder, isso não é produtivo, mas em vez de se focarem nas imagens do fogo, deviam focar-se na entrevista das pessoas responsáveis em tomar decisões, no que poderá estar errado, nas consequências do incêndio para as pessoas pensarem um bocadinho que qualquer coisa que faça na floresta é sua responsabilidade”, defende Cristina Soeiro.

Desde 1997 que a PJ monitoriza os incendiários detidos. Neste momento, tem cerca de 600 indivíduos estudados, permitindo dividir os incendiários em “três grandes padrões”.

Cristina Soeiro realça que o grupo mais frequente (55 por cento) está normalmente associado a três factores: défice cognitivo, alcoolismo e outros problemas de saúde mental, como o autismo.

O segundo grupo mais frequente (40 a 44 por cento) é o das pessoas que usam o fogo como instrumento “de vingança ou retaliação”, seja para “chamar a atenção dos outros ou resolver problemas de divisão de terras”, sendo que este perfil tem vindo “a diminuir progressivamente nos últimos anos”.

O terceiro grupo – o menos expressivo (não passa dos seis por cento) – é constituído por “pessoas que retiram algum benefício de um incêndio”, nomeadamente pegar fogo para limpar terrenos.

Há, também, quem receba “montantes pequenos para incendiar uma zona qualquer”, não sendo identificado nesse terceiro grupo “a presença de um perfil de um crime organizado”, realçou.

Por se estar a falar de um perfil de incendiário que, na sua maioria, está associado a um grupo de pessoas vulneráveis, Cristina Soeiro vincou que o tratamento noticioso pode ter consequências positivas, caso seja moderado e procure dar “a notícia completa – não apenas a floresta a arder, mas as consequências, de tudo o que se perde, da ausência dos animais”.

No entanto, a psicóloga da PJ referiu que “não há qualquer estudo estruturado para permitir dizer que as imagens da floresta a arder possam ter um efeito de activação em indivíduos, principalmente no grupo de risco maior”.

“Na minha perspectiva, como psiquiatra, há um exagero manifesto na exibição de imagens de incêndios”, declarou à Agência Lusa Carlos Braz Saraiva, que enquanto especialista forense estudou incendiários nos grandes fogos de 2003 e 2005.

O psiquiatra sublinhou que a maioria dos incendiários têm “personalidades mais vulneráveis”, sendo que “os minutos e minutos consecutivos” de imagens podem ter um impacto negativo, recordando o caso de um jovem na Serra do Açor que lhe confessou a alegria de ver os aviões e os helicópteros a sobrevoar a sua terra. “É um espectáculo e devia haver uma auto-regulação da cobertura dos fogos”, defendeu.

O coordenador do Centro de Prevenção e Tratamento do Trauma Psicológico de Coimbra, João Redondo, sublinha que os media podem ter um efeito benéfico junto das populações.

Nesse sentido, recorda o projecto internacional eFIRECOM, que traça algumas recomendações que os jornalistas deveriam seguir: “melhorar a compreensão social em relação à gestão de riscos de incêndios; promover uma melhor compreensão da fragilidade e da vulnerabilidade do meio ambiente; reduzir o ‘show’ nas notícias sobre os incêndios florestais a fim de não motivar atitudes propensas à indução de fogos; evitar a instrumentalização política e mediática do fenómeno dos incêndios florestais e o tratamento sensacionalista do evento catastrófico”.

 

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