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Há um projecto onde “o amor nunca falha”

27 de Maio 2023 Jornal Campeão: Há um projecto onde “o amor nunca falha”

Em Santo António dos Cavaleiros, em Loures, fala-se e vive-se através do amor. Um sentimento que se traduz em respeito, acolhimento e cuidado para com aqueles que habitam esta vila portuguesa. É fruto desse sentir que, em 2010, nasce o projecto “Eu Amo SAC”, com o objectivo de reduzir lacunas que se faziam sentir na região no que diz respeito à integração social de centenas de crianças e jovens.

“Em 2010, candidatámo-nos ao programa Escolhas, ganhámos o financiamento e temos conseguido várias gerações desse financiamento. Estamos, assim, há 13 anos a amar a comunidade. O nosso grande objectivo passa não só pela inclusão e pelo reforço da coesão social, mas também pela prevenção e diminuição de comportamentos de risco em pessoas com idades compreendidas entre os 10 e os 25 anos”, explica a coordenadora do “Eu Amo SAC”, Raquel Correia, em declarações ao “Campeão das Províncias”.

O nome do projecto não poderia descrever de melhor forma o seu propósito: amar Santo António dos Cavaleiros. Um amor que, neste caso, é mais do que um sentimento: é uma decisão. “Às vezes, olhamos para o amor como se tivéssemos de sentir alguma coisa, mas a verdade é que este não precisa de ser sentido. Nós decidimos amar e amamos”, afirma Raquel Correia.

Uma segunda família

A escolha do “Eu Amo SAC” em ser colo e família permite que, por ano, cerca de 200 crianças e jovens se envolvam na iniciativa que, de segunda a sexta-feira, lhes abre os braços com actividades diversas. “Pretendemos promover o sucesso escolar, desenvolver competências pessoais, sociais, na área das tecnologias, artísticas, cidadania e promover hábitos e estilos de vida saudáveis. As actividades vão desde apoio escolar até formações na área das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)”, adianta a coordenadora da iniciativa.

Há também acções onde são trabalhados conteúdos escolares de forma mais lúdica, através de experiências científicas e Quizz. O projecto dispõe ainda de um gabinete onde é realizado um acompanhamento individual, de forma a encaminhar as crianças e jovens a terem um projecto de vida. “Eles têm muitos talentos e é preciso estimular isso. O nosso público é, maioritariamente, migrante. As famílias são, na sua maioria, monoparentais e a pessoa responsável por trazer sustento para a casa trabalha muito. Então eles [jovens] passam muito tempo sozinhos. Não há esse tempo para o estímulo e para perceberem do que é que gostam”, alerta Raquel Correia.

A coordenadora mostra-se, assim, satisfeita pelos resultados alcançados pelo “Eu Amo SAC” no que concerne à descoberta individual de cada um dos seus integrantes. “É interessante que muitos deles com insucesso escolar, ao encontrarem uma área na vida deles em que são bons e gostam, acabam por ver consequências ao nível escolar. Isso dá-lhes mais motivação para se aplicarem nessa área”, admite.

“O amor nunca falha”

A equipa do “Eu Amo SAC” é composta por pessoas que acreditam que a comunidade se deve mover pelo amor ao próximo. Uma crença notável já que, nesta iniciativa, mais importante do que olhar para um currículo é a relação entre pares. “É fundamental encontrar pessoas que estão disponíveis para amar, porque é quando amamos que damos tudo”, afirma Raquel Correia, frisando ainda que “mais do que um trabalho, nós encaramos aquilo que fazemos como uma missão de vida e como a construção de uma família alargada”.

O propósito parece estar a ser alcançado com o espírito de união a manter-se presente após o percurso destes jovens no projecto. Terminado esse ciclo, são muitos os que regressam para partilhar as suas novas vivências e há até quem queira ser voluntário na iniciativa. “É bom perceber que alguns jovens com quem passámos por situações complicadas agora têm um trabalho, têm o desejo de constituir família,… É realmente transformador. Podemos, de facto, transformar vidas e sermos transformados ao mesmo tempo. Ao dar, acabamos também por receber”, salienta a coordenadora.

Há 13 anos ao leme do “Eu Amo SAC”, Raquel Correia não tem dúvidas de que a sociedade precisa de criar mais espaços que permitam apoiar o público mais jovem. “Apesar das redes sociais nos darem a ilusão de que sabemos todas as coisas e de que temos muitos amigos, na realidade, as coisas não são assim. Espaços como o ‘Eu Amo SAC’ acabam por ajudar nas relações e é de extrema importância haver sítios onde os jovens podem experimentar, trazer cá para fora aquilo que são e envolverem-se na vida uns dos outros”, remata. Na opinião da coordenadora, o amor é a base de qualquer mudança, afinal, “o amor nunca falha”.

O projecto “Eu Amo SAC – E8G” é promovido pela Secretaria de Estado da Igualdade e Migrações e pelo Alto-Comissariado para as Migrações/Programa Escolhas e é cofinanciado pelo POR Lisboa, Portugal 2020 e União Europeia, através do Fundo Social Europeu.

Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Texto publicado na edição de quinta-feira, 25/05/2023