Coimbra  24 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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Ex-candidato a Coimbra e eurodeputado do PAN sai por “divergências políticas”

16 de Junho 2020 Jornal Campeão: Ex-candidato a Coimbra e eurodeputado do PAN sai por “divergências políticas”

O eurodeputado Francisco Guerreiro, candidato à Câmara Municipal de Coimbra nas autárquicas de 2013, anunciou, hoje, que sai do PAN por “divergências políticas” com a Direcção.

Francisco Guerreiro foi cabeça de lista nas europeias do ano passado, mas vai manter-se no Parlamento Europeu.

“O eurodeputado Francisco Guerreiro sai do partido Pessoas-Animais-Natureza por divergências políticas com a Direcção e garante que continuará a defender no Parlamento Europeu os ideais pelos quais foi eleito e se rege”, refere um comunicado enviado à Lusa.

O documento acrescenta que “as divergências que justificam o seu afastamento do PAN assentam na falta de identificação política com várias posições relevantes tomadas pelo partido no parlamento nacional, bem como com a linha política global que tem caracterizado a actuação do PAN nos últimos meses”, considerando que esta tem “limitado a independência política do eurodeputado em Bruxelas”.

“Tem existido um constante afastamento de alguns princípios fundadores do partido que fazem com que, em consciência, não me reveja em várias das decisões tomadas”, afirma Francisco Guerreiro.

O eurodeputado aponta, por exemplo, “a crescente e vincada colagem do PAN à esquerda”, considerando que tal “quebra uma das bases filosóficas do partido que não se revê nas dicotomias políticas tradicionais”.

Francisco Guerreiro refere, ainda, uma “recente apologia ao incentivo para a entrada de jovens no serviço militar (contra a base pacifista do partido), a passividade perante as acções geopolíticas da China na Europa ou o aumento da agressividade discursiva” do PAN como razões para a sua saída. Considera, também, que existiu um “bloqueio da divulgação do trabalho europeu” que desenvolveu, em áreas como o Rendimento Básico Incondicional (RBI).

“Enquanto eurodeputado independente continuarei a defender as linhas programáticas com as quais fui eleito, como é o caso do estudo da implementação de um projecto piloto de RBI na Europa tão importante, particularmente, no actual contexto de pandemia”, assegura o eurodeputado. Francisco Guerreiro indica que continuará a integrar, na condição de deputado independente, Os Verdes Europeus/Aliança Livre Europeia.

“Continuarei a respeitar o mandato que me foi concedido, tal como os ideais do programa das eleições europeias de 2019 votado por mais de 168 000 cidadãos”, garante.

Francisco Guerreiro tornou-se militante do partido Pessoas-Animais-Natureza em 2012, entrando na Comissão Política Nacional do partido em 2013 e na Comissão Política Permanente no ano seguinte.

No Parlamento Europeu, destaca o comunicado, conseguiu a 1.ª vice-presidência da Comissão de Agricultura e do Desenvolvimento Rural, o lugar como efectivo nas comissões das Pescas e dos Orçamentos, a vice-presidência do intergrupo pela conservação e protecção do bem-estar animal, bem como a integração na aliança da FAO contra a fome e a má-nutrição no Parlamento Europeu.

“Tem-se destacado pela participação activa quer no plenário em Bruxelas e Estrasburgo, quer enquanto relator e relator sombra de importantes relatórios como é o caso do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP)”, destaca a nota enviada à Lusa.

Francisco Guerreiro, de 35 anos, foi o cabeça de lista do PAN e único eleito desta força política nas europeias de Maio de 2019, as primeiras em que o partido obteve representação em Bruxelas (com cerca de cinco por cento dos votos).

Nasceu em Santiago do Cacém, a 12 de Setembro de 1984, licenciou-se em Comunicação Social pelo Instituto Superior de Educação de Coimbra e trabalhou como analista de estudos de mercado, e ‘project leader’ para a Comissão Europeia, até 2014.

Nas últimas legislativas, em Outubro do ano passado, o PAN passou de um deputado único – o porta-voz André Silva – para um grupo parlamentar de quatro, correspondentes a 3,3 por cento dos votos.

PAN acusa eurodeputado de ter enveredado pelo “caminho da individualização”

“É com profunda desilusão que constatamos a saída do Francisco Guerreiro do PAN e o início do seu processo de independência como eurodeputado”. É desta forma que o partido se pronuncia sobre a saída do seu primeiro e único eurodeputado até à data.

“Este é de facto o culminar de um caminho de individualização do mandato que o eurodeputado já vinha adoptando, e que foi discutido em sede própria pelas estruturas do Partido, nomeadamente na Comissão Política Nacional”, revela o PAN, adiantando que “esta postura não se adequa e está em contra-ciclo em relação aos princípios de actuação e valores do PAN, enquanto partido fundado na base da cooperação e da construção de pontes e que privilegia a promoção de um diálogo interno constante”.

Segundo o partido, durante este primeiro ano “foram várias as tentativas de diálogo por parte das estruturas do PAN junto do eurodeputado”, sobre diversas matérias e que se revelaram “infrutíferas e resultaram numa falta de vontade por parte do eurodeputado em construir a sua acção com base nos princípios e valores do partido pelo qual foi eleito”.

Para o PAN, “a saída do eurodeputado vem defraudar compromissos assumidos perante os eleitores que, em 2019, se mobilizaram em torno dos objectivos propostos e do projecto do partido, não por vontade própria do partido mas pela conduta adoptada pelo eurodeputado”.

“Aproveitamos ainda para esclarecer que relativamente aos motivos que foram apontados pelo eurodeputado para a sua saída, que desde logo assenta numa premissa errada, não se pode confundir a independência política que qualquer eleito tem. O que está em causa é a adopção de uma postura de ausência de articulação das decisões e estratégias políticas europeias com os órgãos internos do partido, numa atitude total de individualização do mandato”, revela.

O PAN considera, ainda, que a atitude mais correcta de Francisco Guerreiro teria sido a cedência do lugar de eurodeputado ao partido pelo qual foi eleito, “numa linha de coerência e de respeito pelo eleitorado, que se reviu na visão do PAN” e até porque a sua eleição “resulta de uma proposta e do trabalho colectivo do partido”.