Coimbra  22 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Estudo da UC sobre novos fármacos para o cancro distinguido na Europa

10 de Maio 2019

Os investigadores Luís Batista Carvalho, Adriana Mamede, Ana Batista de Carvalho e Maria Paula Marques

 

O laboratório “ISIS Neutron and Muon Source”, do Reino Unido, distinguiu um estudo desenvolvido na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), que visa desenvolver novos fármacos para o tratamento do cancro.

A investigação, liderada por Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho, da Unidade de I & D “Química-Física Molecular” da FCTUC, recebeu o prémio “Society Impact Award 2019”, atribuído por aquele centro de investigação, detentor de um dos mais potentes feixes de neutrões e muões do mundo.

O estudo da UC avaliou, pela primeira vez, “o impacto de fármacos anticancerígenos na água do interior das células” e pretende chegar “ao desenvolvimento de novos fármacos antitumorais com múltiplos locais de acção, a designada quimioterapia multialvo, que permite aumentar a eficácia do

tratamento de doentes com cancro, principalmente em casos de prognóstico muito baixo”, explica a Universidade.

Geralmente, explicam os investigadores, “os medicamentos de combate ao cancro têm um único alvo (uma molécula receptora, que pode ser o ADN, uma proteína específica, a membrana da célula, etc.). Mas se conseguirmos um fármaco que actue simultaneamente em vários locais da célula, a eficácia do tratamento será maior, e terá menos efeitos tóxicos para o paciente”.

Assim, sabendo-se que a água, a substância mais abundante dentro da célula, é essencial para o seu bom funcionamento, estes investigadores decidiram estudar o comportamento dos diferentes tipos de água intracelular na presença de fármacos anticancerígenos.

“Só conhecendo todas as mudanças que os medicamentos desencadeiam na estrutura da água no interior da célula é possível avaliar de que forma esta água pode ser usada como um alvo terapêutico. É a primeira vez que se tenta perceber o efeito de fármacos na água intracelular”, afirmam os cientistas que já trabalham nesta área há cerca de duas décadas.

Segundo a Universidade, a equipa inovou também na realização das experiências, já que foi “a primeira vez que se colocaram células cancerígenas humanas sob a acção de um feixe de neutrões”. Para tal, foi necessário “cultivar e incubar com o fármaco um número extremamente elevado de células cancerígenas humanas imediatamente antes da aquisição dos dados”, adianta.

“São experiências muito complexas, que exigem a utilização de milhões de células vivas, contam Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho.

Nesta investigação foram testados dois fármacos, em dois tipos de cancro muito agressivos: carcinoma de mama metastático (triplo-negativo) e osteossarcoma (cancro de osso, que afecta particularmente crianças e adolescentes).

Em primeiro lugar foi avaliado o efeito de um medicamento conhecido – a cisplatina – e, numa segunda fase, foi testado um fármaco desenvolvido por estes investigadores da UC. Ambos os compostos têm como alvo principal o ADN da célula.

Os resultados foram bastante promissores, já que “no seu conjunto, verificou-se que os dois fármacos afectam a água intracelular nos tipos de cancro agora estudados. Mais, observaram-se diferenças significativas no modo de acção dos dois medicamentos, dependentes ainda do tipo de cancro”.

Os cientistas realçam, ainda, que se observou “um duplo efeito dos fármacos na dinâmica da água intracelular. A água do citoplasma tornou-se mais rígida enquanto a água de hidratação das biomoléculas que se encontram no interior da célula (que funciona como uma capa protectora) tornou-se mais flexível”, pelo que, este efeito duplo é “muito positivo porque significa que provavelmente as biomoléculas não irão funcionar normalmente, levando à morte celular, que é o que se pretende numa célula doente”.

Ainda sobre o prémio recebido, Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho afirmam que foi com “surpresa e satisfação” que o receberam, uma vez que concorreram com centenas de cientistas de todo o mundo. “É uma honra muito grande ver reconhecida a qualidade do trabalho desenvolvido na nossa unidade de investigação”.

O “ISIS Impact Award” reconhece o impacto científico, social e económico do trabalho desenvolvido pela comunidade de utilizadores das instalações do centro – cerca de um milhar de cientistas de todo o mundo por ano.