Coimbra  28 de Fevereiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

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Estudo da UC mostra dinâmicas socio-culturais do meio rural na época pós-medieval

10 de Fevereiro 2021 Jornal Campeão: Estudo da UC mostra dinâmicas socio-culturais do meio rural na época pós-medieval

Um estudo desenvolvido por investigadores da Universidade de Coimbra (UC), do Instituto Universitário Egas Moniz e da Universidade Nova de Lisboa fornece novas pistas para a compreensão das dinâmicas sociais e culturais da época pós-medieval em Portugal.

A equipa, coordenada pelos antropólogos Francisco Curate, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e Nathalie Antunes-Ferreira, do Instituto Universitário Egas Moniz, estudou as consequências funcionais e sociais de várias lesões esqueléticas sofridas por um indivíduo do sexo masculino encontrado durante uma escavação arqueológica realizada em 2018 no adro da antiga capela do Espírito Santo de Bucelas, perto de Lisboa. Na altura, foi descoberto um cemitério com diversos esqueletos dos séculos XVII e XVIII tendo sido exumados 98 adultos e 59 não adultos. No entanto, um esqueleto chamou a atenção da equipa responsável pela escavação, por apresentar evidências de lesões múltiplas com sequelas importantes.

Este estudo focou-se apenas nos restos esqueléticos deste indivíduo que foram estudados. As análises realizadas permitiram concluir que o individuo sofreu traumatismos e lesões em diferentes momentos da sua vida, sendo assim um caso de lesões recorrentes, indicou Francisco Curate. A severidade dessas lesões prejudicou seriamente a qualidade de vida deste indivíduo limitando a sua capacidade motora e tornando-o inapto para realizar uma série de tarefas incluindo a alimentação, a higiene e o trabalho.

Segundo o antropólogo, os resultados deste estudo, que foi publicado no International Journal of Osteoarchaeology, sugerem a existência de uma associação entre a actividade ocupacional, provavelmente ligada à agricultura, e estas lesões graves e reiteradas.

Francisco Curate notou ainda que a quantidade de fracturas e a sua distribuição pelo esqueleto estudado “são ímpares, muito raras no registo arqueológico, fazendo um paralelismo com casos clínicos actuais, sugerem uma ligação a um mundo rural, de trabalhos agrícolas, e também a adição de substâncias, nomeadamente o alcoolismo”.

“Claro que são hipóteses de trabalho, não é possível reconstituir fielmente a história de vida deste indivíduo, mas são propostas lógicas e fundamentadas”, esclareceu.

Este estudo dá contribuições importantes para a interpretação de “contextos bioculturais no passado, abordando questões como violência interpessoal, desigualdade procedimentos cirúrgicos ou assistência médica e a prestação de cuidados”, conclui o investigador.