Coimbra  16 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Estudo da UC: Discurso político privilegiado nas notícias sobre o clima

2 de Dezembro 2019

Neide Areia foi a autora do estudo

 

As notícias sobre as alterações climáticas em Portugal e Espanha privilegiam “o discurso político ou técnico em detrimento da sociedade civil”, concluiu uma investigação do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC).

O estudo teve como objectivo “analisar a cobertura mediática ibérica sobre mudanças climáticas para discutir melhor a sua influência no envolvimento do público com o tema”.

Foram examinadas perto de meio milhar de notícias ‘online’ – 217 em Portugal e 232 em Espanha –, publicadas em 2017 e 2018 em vários órgãos de comunicação social de âmbito nacional.

As notícias foram recolhidas através da base de dados do Google News, adianta a UC, indicando que foram “seleccionadas por ordem de relevâncias dos meios, em quatro períodos temporais”: Fevereiro a Março, Junho a Julho e Outubro a Novembro de 2017 e Fevereiro a Março de 2018.

De um modo geral, nos dois países, as notícias “dão destaque aos discursos políticos ou técnicos, sobretudo às discussões entre os vários partidos políticos, negligenciando os discursos e comportamentos dos indivíduos”, relata Neide Areia, autora do estudo, já publicado na revista científica Science of The Total Environment.

“No caso de Portugal, por exemplo, das 217 notícias avaliadas, apenas 12 favorecem a sociedade civil”, destaca Neide Areia. Além disso, na sua grande maioria, as notícias “salientam ‘framings’ alarmistas, por exemplo, o número de mortes ou a extinção em massa de espécies”, acrescenta.

“Os jornalistas tendem a enquadrar os assuntos relacionados com o meio ambiente colocando excessivo foco nos problemas, sejam eles os efeitos das alterações climáticas ou o fracasso das instituições políticas no combate às mesmas”, salienta a investigadora do CES.

Em relação aos fenómenos climáticos mais noticiados, a seca – e o seu impacto na agricultura – surge em primeiro lugar em ambos os países (157 notícias), seguindo-se, em Portugal, notícias relacionadas com fogos florestais.

Os resultados do estudo mostram que “os media devem democratizar a comunicação das alterações climáticas, aproximando a realidade do problema à realidade do indivíduo comum”, sustenta a investigadora.

“Ao invés da significativa projecção dada a notícias relacionadas com discussões político-científicas do foro internacional ou de catástrofes ambientais ocorridas num outro ponto do mundo, os jornalistas devem enquadrar o assunto das alterações climáticas ao nível das comunidades locais e ao nível individual”, afirma.

Considerando a influência dos media na formação da opinião pública, Neide Areia defende que “um discurso mais pró-activo sobre as alterações climáticas pode fazer toda a diferença, influenciando na adopção de comportamentos sustentáveis (público em geral) e na implementação de políticas e leis ambientais (responsáveis políticos)”.

De facto, sublinha Neide Areia, “uma comunicação democrática sobre assuntos ambientais – focada em mais notícias pró-climáticas, por exemplo, acções das comunidades para lidar com as mudanças climáticas, e não apenas nas falhas dos governos em relação à política ambiental ou desastres relacionados com o clima – melhoraria o papel activo dos media no envolvimento dos indivíduos e ajudaria a promover respostas activas da sociedade às mudanças climáticas”.

A investigadora vai agora alargar o estudo a França, Irlanda e Reino Unido, estando já a analisar 1 600 notícias publicadas em 2017 e 2018, prosseguindo o seu trabalho com o estudo do “tipo de discurso político privilegiado nas notícias”, refere a UC.

A investigação foi realizada no âmbito do projecto europeu RiskAquaSoil: Plano Atlântico de Gestão de Riscos no Solo e na Água, centrado na detecção dos impactos das alterações climáticas nos espaços rurais, contribuindo para a gestão do risco, o uso dos recursos hídricos e do solo, a reabilitação de áreas agrícolas e o desenvolvimento de novas práticas.

Liderado por Alexandre Tavares, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, o RiskAquaSoil (iniciado em 2016) tem a participação de cerca de quatro dezenas de investigadores de Espanha, França, Irlanda, Portugal e Reino Unido.

 

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