Coimbra  7 de Julho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cheias: Estudo conclui que normas na Aguieira não foram cumpridas

17 de Janeiro 2017 Jornal Campeão: Cheias: Estudo conclui que normas na Aguieira não foram cumpridas

(Na foto: Nuno Lacasta, Manuel Machado, Carlos Martins e Armando da Silva Afonso)

Um estudo realizado pela Ordem dos Engenheiros, em parceria com a Universidade de Coimbra (UC) e a Universidade do Minho (UM), encomendado pelo Ministério do Ambiente, conclui que as inundações ocorridas nas margens do rio Mondego, em Janeiro de 2016, foram consequência do incumprimento das normas de exploração da barragem da Aguieira.

O relatório, hoje apresentado no salão nobre da Câmara Municipal de Coimbra, realça que no período em que ocorreu a cheia (09 e 11 de Janeiro), “os valores máximos diários de precipitação são muito menores do que o valor máximo diário de pluviosidade registado na série que compreende a totalidade de registos de cada uma das estações [metereológicas da bacia do rio]” – Alagoa, Maçainhas, Pombal, Santa Comba Dão, Sátão e Soure.

Neste caso referente às normas de exploração do sistema Aguieira – Raiva – Fronhas, o relatório revela que “verificando-se caudal médio afluente superior a 100 metros cúbicos por segundo, dever-se-ia ter garantido o nível de água na albufeira da Aguieira à cota (117) no início do evento de cheia, situação que não se verificou”.

Os especialistas hidráulicos adiantam, ainda, que caso as normas de operação tivessem sido aplicadas “haveria sido possível limitar a descarga da Aguieira a 450 metros cúbicos por segundo, bastante inferior ao valor máximo verificado de 1100 metros cúbicos”, o que leva a concluir que “a cheia ocorrida em Janeiro de 2016 poderia ter sido evitada/minimizada, caso se tivesse adoptado outro esquema operativo do sistema”.

Este estudo, intitulado “Caracterização das condições de escoamento do rio Mondego que deram origem às inundações em Coimbra em Janeiro de 2016”, analisou, também, a exploração do açude-ponte, tendo aferido que a operação das comportas foi “adequada para o controlo da hidrodinâmica do rio Mondego”.

A análise das cheias na zona ribeirinha de Coimbra, quer a montante como a jusante da ponte de Santa Clara, revela que “as inundações ocorridas (…) são influenciadas pela acumulação de sedimentos no leito do rio”. Já em relação à inundação no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, os especialistas explicam que “a porta de defesa instalada nas passagens inferiores do monumento, devidamente fechada, não permitiria a circulação franca de água através dela e poderia ter tido um efeito de minimização”.

A Ordem dos Engenheiros apresentou, depois, uma série de recomendações para as várias conclusões do relatório, que Nuno Lacasta, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) disse “compreender” e rever-se “naquilo que é essencial”. O responsável deixou a certeza de que “a APA tem o dever e a tradição de aprender com as lições e ajustar em conformidade”, sendo este um trabalho “que está a ser feito em todo o país”.

Presente na apresentação do estudo esteve o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, que destacou a preocupação que todos devem ter, cada vez mais, com as alterações climáticas e o “trabalho integrado ao nível do Governo central e regional, bem como de todos os actores neste processo, que trabalham em parceria para alcançar importantes obras para melhorar a vida das pessoas”.

Carlos Martins deixou, ainda, a certeza de que o Governo vai “implementar um conjunto de acções que possam responder a estes desafios [fenómenos climáticos extremos] e aliar o conhecimento tecnológico à capacidade organizacional”, mostrando que o executivo está “apostado em reforçar a capacidade para lidar com estes fenómenos extremos”.

O governante aproveitou a ocasião para anunciar um projecto de investimento para o rio Ceira, de cerca de dois milhões de euros de fundos noruegueses, para “conhecer melhor o regime hidráulico”, além de permitir recuperar alguns moinhos e fazer a reflorestação das encostas.

Manuel Machado, presidente da Câmara conimbricense, referiu que o importante era “avaliar as consequências das cheias” e que o estudo, não trazendo “dados novos”, foi elaborado por uma entidade independente e “vem confirmar aquilo que são as preocupações sobre o rio Mondego e também a estratégia defendida para a sua intervenção”.