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Estreia em Coimbra espectáculo de dança atravessado por espectros e fantasmas

13 de Abril 2024 Jornal Campeão: Estreia em Coimbra espectáculo de dança atravessado por espectros e fantasmas

A coreógrafa Catarina Miranda estreia em Coimbra o espectáculo de dança “ΛƬSUMOЯI”, inspirado numa peça de teatro japonesa do século XV e que apresenta em palco fantasmas e espectros, que cruzam linguagens do passado, do presente e do futuro.

O espectáculo estreia-se a 27 de Abril, em Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente, no âmbito do festival Abril Dança Coimbra, tendo depois duas apresentações no festival Dias da Dança (DDD), no Porto (30 de Abril e 1 de Maio), contando ainda com datas em Paris, Plovdiv (Bulgária) e Aveiro, neste ano, e, em 2025, em Lisboa.

Ao longo da peça, cinco bailarinos assumem-se como espectros ou fantasmas, afirmando-se, dobrando realidades, passando de um gesto com referências ao vocabulário e técnicas do teatro ancestral japonês ‘noh’ para posteriormente se inspirarem em “danças urbanas e contemporâneas, mais afirmativas”, disse à agência Lusa a coreógrafa.

“Todos [os bailarinos] questionam o corpo, se calhar em diferentes fases de aceitação de perceber que corpo é aquele, o que foi, como volta a remembrar um corpo já não é o que conhecia. Posteriormente, aceita a sua dimensão e então afirma-se e ocupa o espaço”, conta Catarina Miranda.

A entrada de danças mais afirmativas e alegres, urbanas e contemporâneas, dizem também respeito aos próprios “vocabulários” dos bailarinos em palco, explicou.

O novo espectáculo de Catarina Miranda, co-apresentado pelo Abril Dança Coimbra e DDD, surge de um fascínio e interesse da coreógrafa em estudar “como culturas diferentes criam sistemas de tradução que evocam a relação com o desconhecido, com a morte, com o sagrado”.

Foi no seguimento desse estudo, que surgiu o interesse pelo teatro ‘noh’, caracterizado “pela técnica essencial do gesto, a manipulação do objecto, uma temporalidade elástica”, aclarou a coreógrafa, que esteve no Japão para melhor compreender este teatro ancestral, cujo formato se mantém muito próximo do original.

No âmbito do curso, conheceu a peça de teatro ‘noh’ Atsumori, que tem como protagonista o fantasma de uma criança guerreira que volta à terra para se vingar da sua própria morte, mas que descobre que quem o matou, ficou “tão chocado que se converteu em monge budista e passou a rezar por ele”, disse.

No seu espectáculo, Catarina Miranda não se propõe a trabalhar aquela peça, mas parte de uma inspiração em torno daquela condição de fantasma, “da transparência, de se viver na sombra, da incomunicabilidade com os vivos”.

“É sobre a condição de se ser um espectro. Em palco, há memórias de construção social de quando se era vivo, construção de repetição, de gestos”, afirmou, salientando que, numa dimensão sonora, o espectáculo é acompanhado por sons de faíscas, palmas, sinos, sussurros e chamamentos.

Para além de convocar o passado e o presente, o espectáculo, sobretudo na sua proposta cenográfica, propõe também linguagens futuristas, com um “chão e tecto luminosos”, acrescentou.

Com produção da Material Diversos, o espectáculo é interpretado por Cacá Otto Reuss, Joãozinho da Costa, Lewis Seivwright, Maria Antunes e Mélanie Ferreira.

O desenho de luz é de Joana Mário e Leticia Skrycky e a composição sonora de Lechuga Zafiro.