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Escritores exortam jornalistas a desvendar mentiras

19 de Março 2018

Os escritores de língua espanhola Javier Cercas e Daniel Alarcón defenderam, anteontem, no Funchal, que o jornalismo possui a função fundamental de narrar verdades e de desvendar mentiras.

Neste contexto, Cercas e Alarcón alertaram para a necessidade de desvendar as mais perigosas, que, frequentemente, são mescladas de verdade.

O escritor António Aleixo, falecido em 1949, advertiu, um dia, que “para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.

Na sessão de encerramento do Festival Literário da Madeira, subordinado ao tema “O jornalismo é literatura com pressa”, Javier Cercas destacou o “poder extraordinário” dos meios de comunicação social, que “não só reflectem a realidade, mas criam-na, o que significa possuírem os jornalistas, hoje em dia, mais responsabilidade do que alguma vez tiveram”. “Não basta contar a verdade, há que desvendar mentiras – e as piores não são as puras, são as mentiras mescladas com a verdade, com sabor de verdade”, opinou o escritor espanhol.

Daniel Alarcón, peruano, concordou e salientou que “a mentira vende-se e difunde-se mais rapidamente”.

“Como professor e profissional, dá-me esperança poder fiscalizar os poderosos”, indicou.

Javier Cercas pegou na última frase de Daniel Alarcón para lhe acrescentar que, “graças ao poder dos meios de comunicação”, a realidade está a ser cada vez mais escrutinada.

Para o escritor espanhol, o bom jornalismo é, hoje em dia, mais necessário do que nunca, para “lutar contra o desastre” da difusão de mentiras fomentada pelas redes sociais.

“Não sou jornalista e fujo das redes sociais como quem foge da peste; acredito que tenham coisas boas, mas sou incapaz de vê-las”, vincou.

O problema do jornalismo, na opinião de Cercas, é que se vive a ilusão de o presente ser só agora, porque “para os meios de comunicação o que aconteceu na semana passada é pré-História”.

“Isto é falsificação da realidade, porque o passado, sobretudo o que tem testemunhos e memória, não se passou, é uma dimensão do presente, sem a qual o presente está mutilado”, defendeu o autor de “O impostor”, citando, de seguida, o escritor norte-americano William Faulkner, em cujo ponto de vista “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”.

Daniel Alarcón corroborou e acrescentou, citado pela Agência Lusa, que a alguns políticos interessa uma versão do passado agarrada aos seus próprios interesses.

Antes de passar especificamente para o tema do poder do jornalismo, o debate começou com a comparação entre jornalismo e literatura, na frase do poeta e crítico britânico Matthew Arnold, segundo a qual “jornalismo é literatura com pressa”.

Javier Cercas disse não concordar com tal frase, por não escrever com pressa, por um lado, e, por outro, porque não se considera verdadeiramente um jornalista; de resto, entende ser “mais importante escrever a verdade do que ser o primeiro a dar a notícia”, sendo a afirmação uma crítica a notícias divulgadas sem a devida confirmação ou contraditório.

“Sinto-me um pouco impostor ou fora do sítio, porque não sou jornalista; nunca estive numa Redacção de Jornal e não sei o que é jornalismo”, admitiu Cercas, contando que, quando as pessoas lêem os seus livros, abordam-no para lhe dizer que escreveu crónicas ou que redigiu um livro de História ou de ficção filosófica”.

 

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