Coimbra  11 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Equipa da UC desenvolve instrumento para avaliar ganhos em saúde

18 de Novembro 2019

O investigador Pedro Lopes Ferreira liderou a equipa de investigadores do CEISUC que desenvolveu esta ferramenta

 

Uma equipa de investigadores do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (CEISUC) desenvolveu um instrumento de medição de resultados em saúde baseado em preferências da população portuguesa, que foi entretanto adoptado pelo Ministério da Saúde.

O Governo pretende, com esta nova ferramenta, “avaliar a qualidade de vida relacionada com a saúde, no âmbito de medição e valoração dos efeitos em saúde”, revela a Universidade de Coimbra.

Na prática, este instrumento – designado EQ-5D-5L em português -, referido (ponto 9) na Portaria nº 391/2019, de 30 de Outubro, que define os princípios e a caracterização das Orientações Metodológicas para Estudos de Avaliação Económica de Tecnologias de Saúde, “apoia a tomada de decisão nos processos de financiamento pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), designadamente nos processos de comparticipação, avaliação e reavaliação de tecnologias de saúde”, adianta a UC.

Segundo a Universidade, a equipa do CEISUC, liderada por Pedro Lopes Ferreira, “desenvolveu um modelo econométrico que permite obter um sistema de valores para a realidade portuguesa a partir do EQ-5D-5L, um instrumento genérico de avaliação da qualidade de vida relacionada com a saúde, com regras definidas pelo Grupo EuroQol”. Trata-se, por isso, “de uma metodologia construída com base nos chamados PROs (Patient-reported outcomes), isto é, resultados reportados directamente pelos doentes, que tem vindo a ganhar terreno na investigação em saúde, considerada útil para apoiar decisões clínicas e de políticas de saúde”.

Este instrumento permite, assim, “conhecer o valor que os cidadãos atribuem a determinados estados de saúde. Assenta num sistema de classificação que descreve a saúde em cinco dimensões: mobilidade, cuidados pessoais, actividades habituais, dor e ansiedade/depressão”. Para produzir e validar o instrumento implementado pelo Ministério da Saúde, a equipa do CEISUC realizou um estudo junto de uma amostra representativa da população geral de Portugal continental e ilhas, constituída por 1 451 pessoas, de ambos os sexos e de várias faixas etárias (18 a 29; 30 a 49; 50 a 69; ≥ 70), abrangendo áreas urbanas e rurais.

Os dados foram recolhidos através de entrevistas individuais efectuadas nas residências dos entrevistados, assistidas por computador, seguindo o rigoroso protocolo “EuroQol Valuation Technology”, por forma a garantir a fiabilidade dos dados. Cada entrevista compreendeu a avaliação de 10 estados de saúde, descritos com base nas cinco dimensões do EQ-5D-5L.

Segundo o coordenador do projecto, Pedro Lopes Ferreira, “estes instrumentos de medição de resultados em saúde baseados em preferências são essenciais para a gestão adequada dos dinheiros públicos, promovendo uma gestão mais equitativa e justa em termos sociais”.

“O EQ-5D-5L é útil, por exemplo, para a avaliação de novos medicamentos ou de novos dispositivos médicos. No âmbito da portaria nº 391/2019, qualquer novo medicamento ou dispositivo médico tem, entre outros, de passar pelo crivo deste instrumento, para ser reconhecido pelo Estado português e poder ser comercializado em território nacional”, ilustra.

O também docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) salienta que “as medidas baseadas em preferências são cada vez mais usadas nas avaliações económicas em saúde e fornecem uma solução válida para alcançar a maximização da saúde e reduzir as desigualdades”, mas, prossegue, para isso “é necessário que cada país tenha o seu sistema de valores, uma vez que as características demográficas e os valores sócio-culturais de cada país influenciam a avaliação dos estados de saúde. O nosso trabalho consistiu precisamente em adaptar para a população geral portuguesa o valor definido pelo EQ-5D-5L”.

Os resultados deste estudo evidenciam que, ao contrário do que se verifica noutros países, “a dor, o desconforto físico e a mobilidade são as dimensões mais relevantes do EQ-5D-5L, de acordo com as preferências da população portuguesa em geral. Actividades habituais e ansiedade/depressão são as dimensões menos relevantes”, refere Pedro Lopes Ferreira.

O estudo, que contou com a colaboração de investigadores de Espanha, Alemanha e Holanda, fez parte de um projecto internacional do “EuroQoL” que visa obter conjuntos de valores EQ-5D-5L específicos de cada país e foi publicado na revista “Quality of Life Research”.

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