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Equipa da UC descobre proteína associada ao envelhecimento vascular

17 de Agosto 2020 Jornal Campeão: Equipa da UC descobre proteína associada ao envelhecimento vascular

Uma equipa internacional coordenada pelo cientista Lino Ferreira, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC-UC), descobriu uma enzima (proteína) que está envolvida em doenças relacionadas com o envelhecimento vascular.

Os resultados da investigação, iniciada em 2012, foram hoje publicados na revista científica “Nature Communications” e podem contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos para combater doenças associadas ao envelhecimento prematuro e ao envelhecimento fisiológico.

“No projecto, foram usadas células de indivíduos com Síndrome Hutchinson-Gilford ou Progeria, uma doença muito rara, caracterizada pelo envelhecimento precoce e morte prematura, normalmente por doenças cardiovasculares, por volta dos 14 anos de idade” explicou a Universidade de Coimbra.

Esta doença, explicou Patrícia Pitrez, primeira autora do artigo científico agora publicado, “é provocada por uma mutação genética rara no gene LMNA, que resulta na acumulação de uma proteína anormal no interior das células, denominada progerina. Esta proteína é também observada no envelhecimento normal, ainda que em menor escala”.

“Estando este projecto relacionado com o envelhecimento vascular patológico (progeria), o conhecimento gerado tem também grande importância no envelhecimento vascular fisiológico”, sublinhou.

O estudo incidiu nas células do músculo liso (células que se encontram nos vasos sanguíneos), uma vez que são as células “mais afectadas na progeria, existindo uma diminuição do seu número nas artérias envelhecidas. Mas a razão para esta perda não era ainda conhecida. Recolhemos células da pele (fibroblastos) de indivíduos com e sem progeria, reprogramámos em células estaminais e depois diferenciámos em células do músculo liso”, clarificou a investigadora do CNC.

Depois, para avaliar os mecanismos envolvidos na biologia vascular, a equipa desenvolveu dois ‘microchips’ vasculares – um saudável e outro envelhecido (progeria). Nestes dispositivos foi possível manter as células em condições de fluxo arterial, muito semelhantes às condições existentes nas artérias, e isso permitiu-nos estudar a susceptibilidade destas células de progeria no laboratório. Após alguns dias verificámos a diminuição do número de células do músculo liso de progeria, mas não das saudáveis. E através deste sistema, foi possível analisar as diferenças entre os dois ‘microchip’s, ou seja, comparar os dois tipos de células e perceber o porquê da diminuição do número de células no caso da progeria”.

Foi, justamente, no processo de análise das diferenças entre as células saudáveis e de progeria que os investigadores descobriram “uma enzima, a metaloproteinase 13 (MMP13), cuja concentração está cerca de 30 vezes aumentada nas células de músculo liso de progeria em comparação com as saudáveis”, salienta.

Na tentativa de inibir a acção desta enzima, os investigadores testaram ainda um fármaco, tendo conseguido desenvolver uma terapia específica para contrariar a diminuição do número de células nas artérias que ocorre com o envelhecimento vascular.

Face aos resultados obtidos, os autores do estudo acreditam “que a administração do fármaco em estágios iniciais da doença, combinado com outros fármacos já testados e que reduzam a quantidade de progerina, pode ser de valor acrescentado para melhorar a qualidade e esperança média de vida destes indivíduos”.

Por outro lado, concluem, o ‘microchip’ desenvolvido no âmbito desta investigação “abre, também, novas perspectivas para o desenvolvimento de outros tratamentos, não só para indivíduos com progeria, mas também para o envelhecimento vascular fisiológico”.

O projecto foi cofinanciado por fundos europeus – FEDER, através do Programa COMPETE, e ERAatUC – e portugueses, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Além da UC, participaram na investigação cientistas do Instituto de Medicina Molecular (Universidade de Lisboa) e de universidades e centros de investigação da Alemanha, de Espanha, de França e do Reino Unido.