Coimbra  13 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Entrevista: José Manuel Silva – o caminho para o progresso em Coimbra

1 de Outubro 2023 Jornal Campeão: Entrevista: José Manuel Silva – o caminho para o progresso em Coimbra

José Manuel Silva é uma figura proeminente na área da medicina. Em 2011, assumiu a posição de bastonário da Ordem dos Médicos, cargo que ocupou até 2017. Em 2021, liderou a coligação “Juntos Somos Coimbra”, composta por sete partidos, e foi eleito presidente da Câmara Municipal de Coimbra, derrotando Manuel Machado por maioria absoluta. A sua tomada de posse teve lugar a 18 de Outubro. José Manuel Silva é reconhecido não apenas pela sua excelência na área da medicina, mas também pelo seu compromisso e contributo para a comunidade de Coimbra.

 

Campeão das Províncias [CP]: Que balanço faz destes dois anos de mandato?

José Manuel Silva [JMS]:  Embora esta seja uma entrevista a meio do mandato, é sempre conduzida em forma de balanço, mas iremos apresentar por volta do dia 18 de Outubro, tal como fizemos há 1 ano, o nosso relatório de actividades. Gostamos de deixar por escrito aquilo que fizemos para quem estiver verdadeiramente interessado nos assuntos de Coimbra, poder ler e tirar as suas conclusões, de forma independente. Temos uma boa equipa de trabalho e estamos motivados. Eu podia ser o líder mais extraordinário do mundo, mas se não tivesse uma boa equipa e se não contasse com os dirigentes e os funcionários a trabalhar pelos mesmos objectivos, não faria absolutamente nada. Ainda recentemente, numa conversa com uma funcionária, ela dizia que na Câmara, os gritos, as lágrimas e as portas a bater terminaram. A nossa abordagem é de facto ouvir as pessoas. É muito raro dar uma ordem directa, normalmente, através do diálogo, chegamos sempre à conclusão do que é melhor para o interesse público. Portanto, as coisas têm corrido bem entre todos. Claro que numa instituição com 2.500 funcionários, há sempre excepções, mas isso é o normal.

[CP]: Não mudava nada estando no Executivo, mas e se estivesse na oposição?

[JMS]: Sinceramente, nem mudaria a oposição. Acho que a oposição está a adoptar uma postura tão negativa e destrutiva que está a descredibilizar-se por si própria. Votaram contra a reformulação dos estatutos do iParque, algo que já estava a ser preparado pelo anterior Conselho de Administração, nomeado pelo executivo anterior.

É importante para Coimbra contar com uma empresa que promova o desenvolvimento empresarial e industrial do concelho, assim como Braga e Cantanhede têm. O Partido Socialista votar contra esta necessidade é votar contra Coimbra; não é votar contra o Executivo, porque simplesmente não há alternativa à reformulação dos estatutos.

Quando a oposição dá exemplos de outros concelhos, também deve ser capaz de fazer autocríticas. Por que é que Coimbra não consegue fazer o mesmo? Não é por falta de qualidade dos munícipes de Coimbra. Temos uma das melhores universidades do país e da Europa, um dos melhores centros hospitalares e universitários e uma das 10 melhores incubadoras de empresas do mundo. Portanto, as competências já existem em Coimbra. É por isso que estamos a atrair mais empresas e talentos para a cidade. Mas não podemos deixar de fornecer ao município os mecanismos e as estruturas necessárias para aproveitar essa qualidade e promover o desenvolvimento e o crescimento de Coimbra.

O voto do Partido Socialista foi profundamente chocante e acho que a maioria das pessoas sente e percebe isso. É um tipo de oposição que está a prejudicar-se a si mesma. Diria até que é a oposição “ideal” para quem está a governar, pois só se descredibiliza e destaca ainda mais o que estamos a tentar fazer por Coimbra.

[CP]: Quando estava na oposição também era bastante critico.

[JMS]: Não tínhamos a capacidade de bloquear as decisões porque estávamos em minoria, por isso podíamos criticar, mas nunca podíamos impedir. Nunca tivemos o poder de bloquear qualquer decisão do executivo anterior, por isso não nos podem acusar, como nos acusaram, de querer dificultar o processo. A nossa crítica sempre se centrou numa questão estratégica fundamental para Coimbra, que é promover o desenvolvimento da cidade, atrair empresas, gerar empregos e aumentar a população, pois todos os outros problemas derivavam disso. Se Coimbra não gera receita suficiente de forma saudável, não consegue resolver os seus problemas. Não adianta dizer “não se faz isto” ou “não se faz aquilo”, se não houver receita suficiente. E não temos receita suficiente exactamente por falta dessa visão estratégica de desenvolvimento da cidade, de atrair indústrias e empresas para criar empregos, fixar os nossos jovens e promover o crescimento populacional, tal como fez Braga, por exemplo. No entanto, é importante notar que cidades como Braga ou Figueira da Foz têm taxas de IMI superiores às de Coimbra, o que significa que geram mais receita através de impostos para investir no concelho e oferecer mais apoio às suas instituições.

[CP]: E porque é que Coimbra não aumenta esses impostos?

[JMS]: Não existem condições políticas para aumentar as taxas. Se Coimbra não gerar mais receita, não conseguirá oferecer mais apoios, nem investir mais no concelho. Para termos um concelho mais arrumado, mais agradável, com melhor qualidade de vida, sem buracos e limpo, é preciso melhorar a situação financeira. Existem duas formas de o fazer: ou aumentando os impostos para as pessoas que cá estão, o que não é uma forma saudável, ou promovendo o desenvolvimento, atraindo mais pessoas e estimulando a actividade económica. Isso implica um aumento da população, criação de empregos e mais actividade na construção, o que gera mais receita. Esta é a forma saudável. Porque temos mais pessoas a contribuir e, no final, o bolo é maior. Agora estamos a cumprir a estratégia que não foi desenvolvida durante os 8 anos do executivo anterior, que é atrair empresas e criar condições para que estas se estabeleçam em Coimbra.

[CP]: Que empresas conseguiram trazer até agora?

[JMS]: Além da Airbus, a Deloitte e a PWC já estão em processo de instalação. Estão a contratar activamente, estão a expandir-se e estão a criar centenas de novos empregos no concelho de Coimbra. Coimbra nunca teve uma estratégia para atrair empresas e criar espaços para a sua instalação. Estamos a iniciar esse processo, inclusive no Estádio Municipal, que é um excelente local para instalação de empresas.

É importante frisar que o último edifício de escritórios foi construído em Coimbra há 43 anos, a Torre Arnado. Desde então, não foram construídos mais edifícios deste tipo. Estamos a trabalhar nisso, pois precisamos que as empresas, ao chegarem à Câmara, sejam bem recebidas e tenham o espaço que necessitam para se estabelecer.

Precisamos de um novo Parque Industrial, de mais áreas industriais, pois estamos a perder a criação de milhares de empregos em Coimbra por falta dessas áreas. O desenvolvimento da cidade está a ser limitado pela ausência de espaços para a instalação de grandes empresas e indústrias. Um exemplo é o PT 2020 em Arganil, que criou mais de 60 hectares de área industrial, enquanto Coimbra não fez nada.

[CP]: Está satisfeito com o que conseguiram nestes dois anos?

[JMS]: Eu acredito, por uma questão de filosofia, que podemos sempre alcançar mais e melhor. No entanto, considero que, dadas as condições destes últimos dois anos, conseguimos trazer um número significativo de novas empresas e criar uma quantidade considerável de novos postos de trabalho.

Agora, ao promovermos Coimbra e ao valorizarmos a sua marca, podemos orgulhosamente afirmar que a Airbus, a Delloite, a Pricewater e até os Coldplay escolheram Coimbra como seu destino. Os quatro concertos realizados aqui foram um sucesso e a organização foi primorosa. Além disso, Coimbra acolheu o primeiro centro TUMO da Península Ibérica. Este é um marco de que nos podemos orgulhar, pois mostra que Coimbra está a liderar o caminho em Portugal.

[CP]: Os concertos dos Coldplay geraram um rombo na carteira da Câmara?

[JMS]: Não e as contas serão apresentadas em breve. Redireccionamos o investimento da Super Especial do Rally para os Coldplay. Foi uma questão de opção e, na minha opinião, foi uma escolha extremamente proveitosa para Coimbra.

Quando a oposição, de forma demagógica, critica o investimento nos Coldplay, é a mesma oposição que antes defendia que gastássemos esse dinheiro na Super Especial. Parece agora que o dinheiro investido nos Coldplay seria suficiente para resolver todos os problemas de Coimbra. Para clarificar, em termos financeiros, investimos 440.000 euros nos Coldplay. Se fosse possível resolver todos os problemas com esse montante, já o teríamos feito.

[CP]: Houve alguma coisa que tenha ficado pelo caminho, nestes dois anos de mandato?

[JMS]: Nos últimos tempos, surgiram imprevistos. Os custos de materiais aumentaram até 50% devido à inflação e à guerra, o que impactou significativamente as despesas da Câmara. Isso acabou por condicionar outros projectos que gostaríamos de ter avançado mais rapidamente. Além disso, este ano enfrentamos um atraso no apoio às associações culturais devido ao aumento de 1% nos salários dos funcionários públicos, uma despesa não prevista no orçamento.

Apesar desses desafios, conseguimos aumentar os apoios globais às associações culturais. No entanto, é importante frisar que estamos a gerir os recursos de forma muito rigorosa para atender a todas as necessidades importantes. As associações, sejam desportivas, culturais ou outras, desempenham um papel vital em Coimbra, reflectindo a qualidade e o espírito associativo da cidade.

Estamos a cumprir à risca o nosso programa, que inclui o aumento das transferências para as freguesias até 10% do orçamento. Esta transferência é acompanhada da delegação de competências e responsabilidades. É fundamental esclarecer que não se trata simplesmente de distribuir dinheiro, mas de proporcionar os recursos necessários para que as freguesias possam assumir mais responsabilidades.

As freguesias estão a receber mais financiamento do que nunca e a percentagem do orçamento dedicada a elas vai aumentando progressivamente. Elas desempenham funções cruciais e têm uma proximidade que as torna fundamentais para a cidade.

Quanto à descentralização, enfrentamos desafios significativos. Os custos indirectos associados não foram contabilizados, afectando negativamente o orçamento da Câmara. A criação de uma equipa para gerir 18 estruturas de saúde, por exemplo, representa uma despesa anual considerável.

Esta descentralização foi malconduzida e não foram feitos os cálculos necessários. Os municípios acabaram por ser penalizados, tendo que suportar custos adicionais sem um retorno adequado. É essencial que os vereadores, independentemente da filiação partidária, defendam os interesses de Coimbra, exigindo apoio adequado do Governo para compensar os custos extras que enfrentamos. Quando nós gastámos mais de 2.000.000 de euros de gasóleo só para os SMTUC, 1 milhão foi para os cofres do Governo porque é carga fiscal.

[CP]: A margem esquerda tem sido esquecida?

[JMS]: Compreendo a preocupação com a margem esquerda, mas é importante destacar que estamos a trabalhar para alterar o modelo de organização da Câmara, tornando-o mais inclusivo. Eventos de grande envergadura, como a Feira Popular, são de natureza supramunicipal e merecem uma abordagem conjunta com a Câmara e a Junta.

Quanto à divisão entre margem esquerda e direita, é uma distinção artificial que, actualmente, não reflecte a forma como investimos. De facto, o maior investimento cultural da Câmara é na margem esquerda, exemplificado pelo recente investimento de 450.000 euros no Parque Verde.

Reconhecemos que ambas as margens têm características e recursos únicos e não devem ser comparadas de forma desqualificante. Esta divisão foi criada por motivos políticos, mas em termos de investimento real, a margem esquerda é uma prioridade, sobretudo na área cultural, que abriga o Convento São Francisco e um estacionamento coberto de 500 lugares, gratuito.

[CP]: O problema dos transportes está resolvido?

[JMS]: Não está completamente resolvido, mas houve melhorias significativas. Ainda existem desafios, como lacunas nos horários e falta de autocarros, especialmente na zona suburbana. Ainda existem desafios na gestão e na renovação da frota, bem como na contratação de mecânicos e motoristas. A situação dos transportes é complexa. Enfrentamos desafios na contratação de mecânicos devido aos baixos salários na função pública, o que é lamentável. Também há dificuldades no fornecimento de peças, devido à guerra na Ucrânia. Estamos a trabalhar para renovar a frota, com a chegada prevista de 22 autocarros eléctricos. Apesar das falhas actuais, estamos empenhados em resolver o problema dos transportes. Estamos também a lidar com a escassez de motoristas e a procurar soluções junto ao Governo. Reconhecemos as falhas actuais e garantimos o compromisso de melhorar a situação.

[CP]: Amanhã vai inaugurar o TUMO. Que escola é esta?

[JMS]: É uma escola inovadora e revolucionária que proporciona, aos jovens, acesso à mais recente tecnologia para explorarem tanto a ciência como a cultura. A aprendizagem é orientada por pares e apoiada por mentores, promovendo a descoberta pessoal e o trabalho em equipa. Este conceito está a expandir-se em diversos países, incluindo Estados Unidos, França e Alemanha. Em Coimbra, temos a honra de ter o primeiro centro TUMO na Península Ibérica, resultado de uma colaboração público-privada, eu diria que perfeita. Porque a Câmara acompanhou o ritmo que era necessário para a escola abrir rapidamente. Temos ali um projecto de 7 milhões de euros durante 4 anos e em que o sector público, a Câmara, “só” colocou 1 milhão. Vai começar com cerca de 1.050 alunos, no entanto o objectivo é chegar aos 1.500. É uma zona central, extraordinariamente bem servida por transportes públicos e vai dar vida a um edifício que estava quase abandonado.  Vamos ter ali todas as semanas 1.050 famílias, duas vezes por semana, e, portanto, vão contribuir para revivificar aquela zona da Baixa e vai ter um impacto positivo também no Mercado Municipal D. Pedro V. Esta iniciativa contribui não só para o desenvolvimento educacional dos jovens, mas também para a revitalização da zona da baixa da cidade.

[CP]: Também vai realizar-se o Coimbra Invest Summit.

[JMS]: Sim, trata-se de uma iniciativa que reforça o compromisso de Coimbra com o investimento e o desenvolvimento. Já ultrapassámos os 500 inscritos, o que demonstra o interesse e a relevância deste evento. A Câmara Municipal de Coimbra nunca tinha promovido algo desta magnitude. Estamos a realizar a 1.ª jornada de atracção de investimento em Coimbra, com o objectivo de destacar o que a cidade tem para oferecer a potenciais investidores e entidades. Teremos 22 conferências, com a participação do presidente da IBM Portugal, bem como do António Saraiva, uma figura proeminente no mundo empresarial. Além disso, serão realizadas duas conferências Master, debates e apresentações tecnológicas. Estes elementos são fundamentais para criar uma nova percepção de Coimbra junto dos empresários e investidores, estimulando um renovado interesse em investir na cidade. Estamos empenhados em proporcionar um ambiente favorável aos empresários, resolvendo as suas preocupações e agilizando os procedimentos para facilitar a sua instalação em Coimbra e promover a criação de empregos, que é uma das nossas principais prioridades estratégicas. Este evento é também um reflexo positivo da reestruturação que implementámos na Câmara, garantindo assim as condições organizacionais e os recursos humanos necessários para impulsionar estes projectos.

[CP]: O que vão fazer da Estação Nova?

[JMS]: Após a cedência pela IP, a Estação Nova passará a estar sob responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra. Agora, é questão de dar-lhe um propósito. Existem diversas ideias em cima da mesa, mas estamos empenhados em promover um debate aberto para ouvir a opinião das pessoas. Certamente, surgirão ideias extraordinárias e estamos determinados a aproveitar as melhores sugestões. Para mim, há algo bastante claro: a Estação Nova deve ser aproveitada não apenas para uma relação de fruição com o Rio, mas também para outros fins que beneficiem a comunidade. Relativamente aos terrenos pertencentes à Infraestruturas de Portugal, não serão simplesmente entregues a qualquer destino. Estão a ser desenvolvidos projectos em colaboração com a Câmara Municipal, incluindo na área imobiliária. É algo que me preocupa, ouvir certas pessoas insinuarem, de forma maliciosa, que estes terrenos serão alvo de especulação. Estamos a falar de uma empresa pública, a IP, que não tem como objectivo especular e mantém uma relação excelente com a Câmara. Assim, iremos ter um desenvolvimento imobiliário de alta qualidade, sem qualquer tipo de especulação, o que será benéfico para o centro histórico. Esta zona vai transformar-se substancialmente. Temos uma vereadora de urbanismo com uma competência que, na minha opinião, é notável.

[CP]: O que é que lhe tira o sono?

[JMS]: Há algo que me preocupa profundamente, o trabalho. Não tenho tempo suficiente para descansar, mas desempenho esta função com gosto e acredito que estamos a conseguir transformar Coimbra para melhor. Estamos a colocar Coimbra no mapa, a impulsionar o seu progresso. Estamos a fazer com que Coimbra esteja presente em todo o lado. As pessoas dizem que Coimbra é um óptimo lugar para estar, para regressar. Estamos a alterar e a rejuvenescer a forma como as pessoas olham para Coimbra, o que é essencial para o processo de desenvolvimento sustentável que almejamos.

Coimbra já tem um ensino e um sistema de saúde de excelência, mas ainda há muito trabalho a ser feito.

 

Entrevista: Lino Vinhal / Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 28 de Setembro de 2023