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Entrevista: João Pedroso de Lima e a necessidade urgente de humanizar a Saúde

22 de Outubro 2023 Jornal Campeão: Entrevista: João Pedroso de Lima e a necessidade urgente de humanizar a Saúde

João Pedroso de Lima é médico especialista em Medicina Nuclear que se destaca não apenas pela sua competência técnica, mas também pela sua sensibilidade humana. Acredita que pequenas mudanças podem ter um grande impacto na humanização dos espaços hospitalares. Ao longo da sua carreira no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e na Faculdade de Medicina (FMUC), não apenas exerceu sua especialidade com excelência, mas também liderou serviços e unidades voltadas para a melhoria da experiência dos doentes.

 

Campeão das Províncias [CP]: O doutor sempre tentou colocar-se no lugar do doente?

João Pedroso de Lima [JPL]: O primeiro exame de Tomografia por Emissão de Positrões/Tomografia Computorizada (PET/CT) feito em Portugal foi realizado em mim mesmo. Ofereci-me voluntariamente para o fazer. Oferecia-me como voluntário para fazer o exame sempre que uma nova técnica era introduzida no Serviço de Medicina Nuclear. Queria compreender a perspectiva dos doentes, perceber como se sentiam ao fazer esses exames. Estar no Serviço como profissional, é uma coisa, estar como doente, é outra, completamente diferente. Posso até contar uma história, passada quando era director do Serviço de Medicina Nuclear. Entrava muito cedo, pelas 7h00, não estava quase ninguém no serviço. Lembro-me de ao chegar à porta de entrada, me deitar no chão (literalmente…) e fotografar essa porta com o meu telemóvel. À medida que avançava nos corredores e salas do Serviço, fotografava a perspectiva que cada doente teria se estivesse de maca. Era essa a visão que os doentes teriam do serviço. Foi simbólico, porque o que realmente importava ali era compreender a perspectiva do doente, que é necessariamente diferente da do profissional de saúde. Os doentes chegam numa situação de vulnerabilidade, muitas vezes deitados numa maca e toda a sua ansiedade e medos são evidentes à medida que entram num Serviço altamente tecnológico. Muitas vezes, os equipamentos são percebidos como ameaçadores pelos doentes, e há uma certa pedagogia a fazer antes de cada exame.

 

[CP]: O que motivou a constituição do Movimento Cívico Humanizar a Saúde em Coimbra?

[JPL]: A Coimbra Colectiva é uma notável iniciativa, conhecida por promover ideias inovadoras para transformar e enriquecer a cidade. Participei num concurso de ideias, organizado por eles, com uma ideia semelhante à do Projeto H2, que coordenei no CHUC. No processo de candidatura e para validar a necessidade (ou não) de mais humanização na Saúde em Coimbra, conduzi um inquérito online que obteve cerca de 500 respostas. A esmagadora maioria, 98%, concordou com a necessidade de haver mais humanização nos cuidados de saúde na cidade. 74% das respostas relataram más experiências em instituições de saúde em Coimbra, destacando a falta de empatia, compaixão, respeito e sensibilidade como principais problemas. A pergunta final sobre a oportunidade de existir um movimento cívico que promovesse mais humanização dos cuidados de saúde teve 96% de apoio. Estes dados reforçaram a convicção de que deveria avançar com o movimento, confirmando o seu potencial impacto público. Na realidade esta é uma questão que nos afecta a todos, seja directamente ou através de pessoas próximas e é corrigível com mais atenção, respeito e consideração pelo outro, o que, especialmente no contexto da saúde, é fundamental.

 

[CP]: O Movimento já tem muitas pessoas?

[JPL]: Estamos actualmente em processo de legalização da associação, contando com um forte apoio de pessoas interessadas em aderir. Planeamos estabelecer uma Assembleia de Colaboradores, semelhante à que existia no Projecto H2. É notável ver o entusiasmo das pessoas em contribuir como voluntárias. Após a conclusão da legalização, proporcionaremos oportunidades para todos os interessados colaborarem.

O movimento, de certa forma, assume o papel de “provedoria do doente”, recebendo o seu feedback negativo. Iremos abordar esses problemas de forma construtiva, em colaboração com as instituições de saúde. Iniciámos recentemente a nossa actividade com a iniciativa “Ao Encontro dos Bons Exemplos”, que contou com a presença da conhecida escritora Lídia Jorge. A ideia foi desafiar as instituições de saúde mais significativas em Coimbra a apresentar as suas práticas bem-sucedidas, servindo como exemplo inspirador para outras. Tivemos a honra de ter a participação de diversas instituições privadas e públicas, destacando-se os notáveis exemplos de cuidados paliativos no IPO e no Hospital Pediátrico e a iniciativa de hospitalização domiciliária no CHUC. Com 230 inscrições, ficou claro o interesse público neste movimento e na sua missão de promover a humanização nos cuidados de saúde.

 

[CP]: O voluntariado tem um papel importante na humanização da saúde?

[JPL]: Sou voluntário da Liga Portuguesa Contra o Cancro no IPO e trabalho directamente com os doentes às segundas-feiras, juntamente com outros colegas voluntários da Liga. O voluntariado hospitalar, mesmo em acções simples como acompanhar a pessoa doente ou oferecer-lhe um café ou uma água, pode fazer uma grande diferença. É muito gratificante ver o agradecimento e a valorização das pessoas, assim como da própria instituição, que reconhece a importância da humanização.

Projectos e programas de voluntariado bem estruturados, como o da Liga Portuguesa Contra o Cancro, são fundamentais.

 

[CP]: Que acções pretendem desenvolver?

[JPL]: Planeamos intervir nas escolas e já recebemos uma manifestação de apoio da Escola Secundária José Falcão. Vamos começar por aí, concentrando os nossos esforços nos alunos do ensino secundário, bem como nos das outras escolas de medicina, enfermagem e tecnologias da saúde.

Basicamente, iremos tentar mostrar aos jovens a importância fundamental de se respeitar para se ser respeitado.

Muitas vezes, estamos mais focados em nós mesmos do que nos outros. No entanto, é necessário valorizar e incentivar o olhar para fora. Por isso, é muito importante falar sobre esse assunto. Um dos objectivos deste Movimento é trazer este tema, qua a todos diz respeito, para a discussão publica.

Outra iniciativa que deverá começar no próximo mês é chamada “Humanizar com Arte”. Nesta acção, convidaremos pessoas ligadas às artes para realizar apresentações e intervenções relacionadas com a saúde, de uma forma integrada. A primeira apresentação será realizada pelo grupo “Ligados às Máquinas”, composto por verdadeiros artistas com paralisia cerebral. Esses artistas têm um elevado grau de deficiência, mas, orientados por um maestro excepcional, conseguem criar música de forma impressionante. Além disso, teremos outras acções, com frequência mensal, que oportunamente divulgaremos. Estamos também a trabalhar activamente em diversas outras iniciativas relacionadas com a deficiência intelectual. A professora Helena Albuquerque, directora da APPACDM tem desempenhado um papel fundamental nesse aspecto. Ela manifestou uma preocupação em relação à dificuldade enfrentada por pessoas com deficiência intelectual ao procurar cuidados de saúde no serviço de urgência. Em colaboração com o Serviço de Urgência do CHUC , instituímos um cartão que os potenciais utentes com deficiência intelectual podem usar. Esse cartão chama a atenção para a necessidade de uma assistência mais personalizada e permite uma ligação directa ao registo electrónico de saúde, facilitando a compreensão pelo médico assistente da situação especial daquela pessoa.

 

[CP]: O que é a outra metade da medicina?

[JPL]: Eu estou nesta luta por causa disso mesmo: a “outra metade da medicina”, um conceito que vi referido pelo professor Rui Mota Cardoso, da Faculdade de Medicina do Porto. Esta outra metade é a arte de praticar a medicina de forma inteira, não se limitando apenas à técnica. Trata-se de pensar no doente antes da doença, no sofrimento antes dos sintomas, no cuidador antes da prescrição. É a metade que envolve a relação de ajuda.

Frequentemente falamos da medicina como uma técnica de cura, sem dar a devida importância à arte do cuidar. Ambas as metades são cruciais. Aos estudantes de medicina direi: ser licenciado em medicina é uma coisa, ser médico é outra. É fundamental não apenas ter o conhecimento técnico, mas também possuir a arte de saber cuidar. Isso implica ter sensibilidade, saber ouvir, ter tempo e respeitar.

É interessante notar que estudos demonstram que os médicos interrompem os doentes em consultas, em média, após apenas 18 segundos de eles começarem a falar. Ouvir é crucial para o diagnóstico. Como disse William Osler, “Ouve o teu doente e terás o diagnóstico”.

Esta é a outra metade da medicina, a metade de saber ouvir, respeitar e cuidar do doente. É isso que estamos a notar que está a faltar e é por isso que o nosso Movimento se empenha em lutar por mais humanização da saúde em Coimbra, pois reconhecemos a necessidade de redescobrir e revalorizar essa metade essencial da prática médica.

Entrevista: Luís Santos/ Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 19 de Outubro de 2023