Coimbra  17 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Entrevista: Helena Igreja e a luta contra a pobreza

25 de Junho 2023 Jornal Campeão: Entrevista: Helena Igreja e a luta contra a pobreza

Helena Igreja, psicóloga de formação, coordenada actualmente o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo de Coimbra (CASA). A gestora de projectos, natural do Peso da Régua, abraçou esta causa como sua à qual se dedica a tempo inteiro. Acredita na generosidade das pessoas, mas não é ingénua e sabe que há muito trabalho a ser feito em prol daqueles que pouco ou nada têm.

 

Campeão das Províncias CP: O que é o CASA?

Helena Igreja HI: É uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos. Mudámos o nosso conceito nos últimos anos. Antes a nossa missão inicial era fornecer apoio às pessoas em situação de sem-abrigo em termos de alimentação e vestuário, realizando rondas pelas ruas. Hoje o conceito é muito mais amplo, pois o CASA tem outros projectos, também apoiamos famílias em situação de vulnerabilidade social, crianças e jovens, e também pessoas desempregadas que precisam da nossa assistência para elaborar um currículo ou interpretar uma oferta de trabalho. A nossa intervenção vai muito além de fornecer apenas uma refeição a uma pessoa necessitada.

 

CP: Em Coimbra existem muitas instituições desta natureza. É porque há muita disponibilidade ou porque há muita necessidade?

HI: Todas temos uma missão, mas nos sobrepomos. Trabalhamos em rede e não estamos de costas voltadas umas para as outras. No entanto, os destinatários acabam por ser os mesmos. Então, é necessário existir essa ponte entre os vários serviços, até para evitar sobreposições de serviços e subsídios. Por exemplo, o CASA apoia com cabazes de alimentos. É importante haver essa troca de informação, esse trabalho em rede, para que aquela família não esteja a receber duplicadamente. O trabalho em rede é de grande gratificação e sem ele não conseguiríamos dar uma resposta imediata a quem dela necessita.

 

CP: Que serviços é que o CASA disponibiliza?

HI: Temos várias valências. O Centro, neste momento, tem um projecto em parceria com a Câmara Municipal, que é o CLDS4G, do qual eu faço parte como coordenadora técnica. Esse projecto apoia as famílias em duas áreas, nomeadamente no emprego, formação e qualificação e na integração social. Ajudamos na procura de emprego e estabelecemos uma ponte com as entidades empregadoras. Para ajudarmos uma pessoa necessitada, precisamos de compreender quais são as suas necessidades, não nos baseando apenas em dar alimentação e vestuário. Temos que trabalhar com a pessoa individualmente para mudar a sua situação, abordando as suas necessidades primárias e também promovendo a sua recuperação enquanto indivíduo. Não podemos apenas satisfazer a necessidade imediata, que é fornecer uma refeição. Fazemos isso porque é uma necessidade básica. No entanto, precisamos conhecer e avaliar o indivíduo para ajudá-lo na sua integração profissional e na sociedade, porque muitas vezes a parte do emprego é muito importante, mas, acima de tudo, é fundamental a sua integração na sociedade. Ninguém vai arranjar emprego se não estiver integrado na sociedade, o que também é um problema para as pessoas em situação de sem abrigo, pois nem todos vêem a pessoa como um indivíduo com competências. O Eixo 2, outro projecto no qual trabalhamos, é a prevenção contra a pobreza, focado em famílias em situação de vulnerabilidade social. Realizamos sessões de sensibilização, mediação de conflitos familiares e visitas domiciliárias para ajudar as famílias. Também apoiamos a integração dos jovens e, na minha área académica, desenvolvo actividades de mediação de conflitos familiares. Essas mediações, na maioria das vezes, são famílias encaminhadas pelo Tribunal ou pela Segurança Social, onde trabalhamos não apenas com a família como um todo, mas também individualmente e, em seguida, com a família como um conjunto. Também trabalhamos com a criança e o jovem, porque muitas vezes o conflito familiar está relacionado com a falta de frequência escolar ou o não cumprimento de tarefas. Ajudamos a entender e acompanhar o jovem dentro do ambiente familiar.

 

CP: Mas também fornecem refeições a quem vos procura?

HI: Sim. O apoio alimentar é feito no Centro de Reforço Solidário de Coimbra, um espaço cedido pela Câmara Municipal de Coimbra. Diariamente, uma IPSS serve refeições às pessoas sinalizadas que necessitam, num trabalho em rede. O Casa tem o seu dia designado, que é quarta-feira, onde oferecemos um reforço. Durante a semana, os utentes têm a refeição principal nas cozinhas económicas e depois recebem um reforço por volta das 22h00, para consumirem durante a noite ou no pequeno-almoço. Procuramos incluir um iogurte, uma peça de fruta e um pão. Cada instituição tem o seu próprio dia para oferecer o reforço durante a semana. O Casa serve o jantar aos domingos e outra instituição fica responsável pelos sábados. Actualmente, estamos a servir uma média de 80 a 90 refeições. Antes de receberem a refeição, as pessoas passam por uma avaliação prévia por parte das entidades envolvidas.

 

CP: Como é que conseguem dar estas respostas aos utentes?

HI: Não tem sido fácil. O Casa costuma fazer recolhas de alimentos duas vezes no Pingo Doce. Não fazemos essas recolhas em todas as lojas Pingo Doce de Coimbra porque não temos voluntários suficientes. Muitas pessoas mostram interesse em fazer voluntariado, mas quando chega a hora de se exporem publicamente, essas pessoas nunca aparecem. Após as recolhas, temos de fazer a contagem e armazenar os alimentos no nosso armazém. Fazemos vários turnos quando temos essas recolhas. Normalmente são 3 a 4 turnos de 3 horas no máximo. Além dessas recolhas, que ocorrem apenas duas vezes por ano, também contamos com benfeitores que nos ajudam a fornecer cabazes de alimentos. Esses alimentos são distribuídos mensalmente às famílias. No momento, o Casa não tem um espaço para cozinhar e preparar as refeições aos domingos. Essas refeições que oferecemos durante o fim-de- semana são, por vezes, confeccionadas na empresa Blue Pharma, que nos empresta a cozinha uma vez por mês. Uma equipa vai confeccionar as refeições para as cozinhas da Blue Pharma no segundo domingo de cada mês e eles também disponibilizam colaboradores para nos ajudar nesse dia. A economia social é extremamente importante nos dias de hoje, é necessário que todos saibam o papel das diferentes pessoas na sociedade e como todos devem se ajudar mutuamente. Além disso, temos alguns voluntários que preparam as refeições nas suas próprias casas. Fizemos um protocolo com o CHUC para que confeccionam as refeições para nós no hospital. Temos um protocolo com eles porque se fôssemos comprar a um restaurante, as refeições seriam muito mais caras.

 

CP: Que ajudas é que vocês têm?

HI: Donativos de pessoas singulares e também de algumas empresas. Quando alguém faz uma doação, emitimos um recibo que pode ser utilizado para benefícios fiscais. Todos os donativos que recebemos são transferidos para uma conta bancária. Preferimos essa forma de doação em vez de receber dinheiro em mãos. Na verdade, sugerimos que as pessoas façam transferências bancárias para enfatizar a nossa postura e transparência.

 

CP: E o Estado?

HI: O Estado apenas ajuda nos projectos que executamos. Por exemplo, o projecto CLDS4G recebe 15% do Estado português e 85% da União Europeia, do Fundo Social Europeu. Temos um projecto que considero importante destacar aqui, chamado ‘Casa Solidária’, que consiste em apartamentos partilhados. Este projecto é financiado pela Segurança Social e foi uma candidatura que fizemos. Os nossos apartamentos têm capacidade para acolher pessoas e o Estado contribui, mas não financia o projecto na sua totalidade. Temos 3 apartamentos alugados, não são propriedade nossa. No âmbito deste projecto, o objectivo é promover a autonomia das pessoas, para que possam eventualmente ter a sua própria casa. Importa referir que trabalhamos com indivíduos, não com famílias. Aqueles que se candidatam ao projecto já devem ter alguma autonomia, pois não há técnicos disponíveis 24 horas por dia nos apartamentos. A partir das 17:00, há sempre um técnico de serviço de SOS, mas os utentes ficam sozinhos durante o restante do tempo. Durante um período de 6 a 8 meses, trabalhamos com eles no desenvolvimento de competências, como higiene pessoal, higiene habitacional, aprender a cozinhar e cuidar da roupa. Em seguida, ocorre a fase de integração no mercado de trabalho.

 

CP: Há mais pobreza hoje?

HI: Existe muita pobreza desconhecida que se manifesta em diferentes níveis. Quanto mais mexemos nela, mais situações emergem. Hoje, no CASA, apoiamos 403 famílias. No entanto, dessas 403 famílias, nem todas têm as mesmas necessidades. Algumas procuram emprego, outras precisam de qualquer tipo de alimentação, como mencionei anteriormente. Actualmente, o CASA apoia 16 famílias com cabazes de alimentos, porque é o que conseguimos fazer no momento, devido à falta de recursos. Se tivéssemos mais, certamente poderíamos ajudar muitas mais famílias. Todos enfrentamos a mesma situação, não temos recursos alimentares suficientes para atender a tantas famílias. Portanto, apoiamos apenas 16 famílias com cabazes, mas se avaliássemos correctamente, deveríamos apoiar cerca de 33 famílias. Há muitas pessoas que precisam de ajuda.

Lino Vinhal/ Joana Alvim

 [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 22/6/2023]