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Entrevista: Débora Amorim eleva a ginástica acrobática ao mais alto nível

23 de Julho 2023 Jornal Campeão: Entrevista: Débora Amorim eleva a ginástica acrobática ao mais alto nível

Débora Amorim foi ginasta e é treinadora e a coordenadora da Secção de Ginástica Acrobática do Vigor da Mocidade, clube de Fala, S. Martinho do Bispo, em Coimbra. É a mulher por trás da ida de oito atletas conimbricenses à Bulgária, em Outubro, para o Campeonato Europeu.

Campeão das Províncias [CP]: Quem é a Débora Amorim e como é que entrou na modalidade desportiva de Ginástica Acrobática?

Débora Amorim [DA]: Sou treinadora e coordenadora da Ginástica do Vigor, sonhadora e ambiciosa. Entrei na ginástica acrobática com 8 anos porque depois de ter espreitado uma aula de ginástica (na altura fazia ballet). Esse foi o meu primeiro contacto com a ginástica acrobática, aqui em Coimbra, na Associação Cristã da Mocidade. Neste momento é aquilo que faço e mais gosto de fazer. Pratiquei até aos 17 anos. Saí porque deixei de ter um par com idade para poder competir comigo. Isto porque a ginástica acrobática faz-se com bases e volantes. As bases são quem pegam nas volantes, que são as que voam lá em cima, e existem idades específicas. Quando abandonei já era monitora, cheguei mesmo a ser ginasta e treinadora em simultâneo para preparar a passagem de um para outro.

[CP]: Há algum curso específico para treinadora?

[DA]: Sim, a Federação oferece cursos que nos dão a cédula de treinadores profissionais de desporto pelo IPDJ. Existem vários graus, ao longo dos quais vamos abordando as diferentes áreas que a ginástica necessita. Para terem uma ideia, apenas na parte física são necessárias muitas coisas, desde a condição física, à flexibilidade, agilidade, saltos, dança, coreografia… A ginástica acrobática exige um bocadinho de cada área, bem como a saúde mental. São crianças. Dificulta o facto de ser uma mobilidade de contacto, o que requer equilíbrio tanto físico como psicológico. São pessoas que trabalham juntas durante várias horas por dia, é importante que sejam amigos e trabalhem bem entre si.

[CP]: Quantas crianças e jovens tem a secção ao longo dos seus escalões?

[DA]: Estou há quatro anos no Vigor e neste momento temos 128 ginastas filiados pela Federação de Ginástica no Vigor e trabalhos com sete classes distintas. Desde os kids, dos três aos cinco anos, até à competição Pro, para ginastas que competem em alto nível. O atleta mais novo tem três anos e o mais velho tem dezoito. Continua a ser um desafio para a ginástica acrobática, abranger mais rapazes, especialmente em Coimbra. Esta modalidade é feita para todas as pessoas, existem pares masculinos, femininos, mistos, trios femininos e quadras masculinas. Todas as pessoas são diferentes nos seus pontos fortes e fracos: uns têm mais força, outros mais altura, flexibilidade… Cada um tem uma área mais trabalhada por natureza, o nosso foco está em trabalhar cada vez mais as outras, os pontos menos fortes.

[CP]: Quais os resultados que já obtiveram em competição?

[DA]: Os últimos quatro anos têm sido de superação e surpresa com o que atingimos. Desde campeões distritais, nacionais até pódios internacionais. Participámos na maior competição internacional do mundo, o Maia International Acro Cup e aí já conseguimos sair com pódios e medalhados, apesar da dificuldade. No campeonato da Europa, o nosso primeiro apuramento foi com um par misto, há duas épocas, e conquistámos o bronze – foi um momento de auge muito bom. Logo a seguir fizemos o apuramento para o campeonato do mundo, também com o par misto, e classificamo-nos com o quarto lugar, a apenas 0,1 do bronze. Na presente época propusemo-nos com estes pares-grupos a conseguir apurar oito ginastas para o campeonato da Europa. Passámos de dois para oito, é um crescimento enorme. É muito bom ver que os nossos objectivos são cumpridos. Neste caso é mais do que um objectivo, é um sonho poder representar Portugal, já que apenas dois pares, dois trios ou duas quadras são apurados para os campeonatos da Europa e do Mundo. É espectacular estarmos entre os melhores e isto faz do Vigor o segundo clube do país com mais representação no exterior.

[CP]: Que atributos têm os jovens de possuir para a prática da ginástica acrobática?

[DA]: Para além dos atributos técnicos ou físicos, que já falámos, não há grandes filtros. A ginástica precisa de todos. A ginástica joga com o melhor da pessoa, independentemente da altura e peso, enquanto se trabalha as suas fraquezas. Importante é a resiliência, dedicação e força de vontade. Começa-se a carreira com dois treinos de 45 minutos por semana, com o progresso pode vir-se a treinar até seis vezes por semana com sessões de três a seis horas.

[CP]: Como se realizam os treinos?

[DA]: Os treinos variam de acordo com a classe. Na alta competição os treinos para a época são planeados logo em setembro e flutuam de acordo com os calendários competitivos. Os treinos não são iguais todas as semanas ou meses, tampouco na semana da competição – estamos sempre a actualizar o planeamento para o que consideramos ser o melhor para os ginastas. O planeamento é o grande truque, é um dos pontos que mais contribui para um sucesso mais rápido. Existem vários modelos de treino que diferem ao longo do ano. Passa sempre por um bom aquecimento (com mobilidade articular, cardio, resistência e depois a flexibilidade e postura), muita condição física e preparação para o exercícios acrobáticos com exercícios específicos para bases e para volantes. Na parte central do treino faz-se, nos grupos que competem, as posições que têm de atingir no esquema e até as coreografias. Como vemos três horas é pouco para tudo isto, para uma prova pode durar até dois minutos e meio.

[CP]: Nos treinos mais aéreos os atletas caem muitas vezes?

[DA]: No passado. Actualmente a ginástica acrobática tem equipamentos que garantem a segurança ao longo da evolução dos treinos: trampolins, colchões de quedas, os cintos de segurança que são uma grande ajuda para qualquer treinador de ginástica acrobática. Com eles, o treinador manipula e ajuda a criança através das cordas evitando qualquer queda ou acidente. À medida que o tempo avança vão-se retirando estes apoios.

[CP]: Os atletas treinam num pavilhão alugado e parece que o equipamento fica aquém dos resultados que apresentam…

[DA]: Neste momento alugamos não apenas um, mas dois pavilhões em Antanhol, mas nenhum tem áreas suficientes para albergar um praticável oficial de competição que ocupa 14 por 14 metros (e tem um custo de cerca de 50 mil euros), restando espaço para colocar trampolins e outros equipamentos. A altura também é uma preocupação, no mínimo são necessários seis a sete metros de altura.

[CP]: Como é que se consegue ter oito jovens no Campeonato da Europa?

[DA]: Vão um par e um grupo femininos do escalão dos 11-16, ou juvenil, a camada mais jovem da ginástica internacional, e outro grupo feminino do escalão 12-18, ou júnior. Uma das grande preocupações nossas é o rendimento nos estudos, apesar da exigência dos treinos é importante manter o rigor e resultados na escola. A gestão de tempo é também importante para conciliar disponibilidade entre grupos, já que muitos têm idades, horários escolares e cargas de estudo diferentes. Temos, nesta região, dificuldade de encontrar escolas que trabalhem com estatuto de apoio de alto rendimento, o que dificulta ainda mais os treinos de alta competição, apesar da relação com os professores e a sua compreensão em provas internacionais ser muito positiva. Quero ressalvar que sem o apoio dos pais, que é excelente, era impossível trabalhar. Muitas vezes antes do espaço abrir já está presente a nossa claque, Green Team, a marcar posição e a apoiar-nos. Os pais são realmente fundamentais e têm um grande esforço de tempo e financeiro. Este Verão será também sacrificado para alguns, já que os treinos até Outubro serão intensivos porque não basta ser qualificado, queremos dignificar a imagem de Portugal que já é um dos melhores países no mundo nesta modalidade.

[CP]: Para levar as jovens ginastas a Varna (Bulgária) são precisos 16 mil euros. É muito dinheiro e como vão conseguir apoios?

[DA]: A Federação não tem orçamento para estas competições de camadas jovens. Estes dois mil euros por atleta vão ser muito difíceis de conseguir e terão de ser liquidados até Setembro. Incluem a inscrição, o transporte, o alojamento e alimentação. Precisamos de angariar esse valor para não serem apenas os pais, que já tanto se sacrificam ao longo do ano, a suportar todos estes valores. O clube tem trabalhado muito na organização de eventos e espectáculos e na venda de merchandising para viabilizar este passo. Ainda assim é muito importante estarmos abertos para todos os patrocínios, donativos, apoios que a sociedade e empresas possam estar disponíveis para fazer.

Entrevista: Luís Santos

Publicada na edição em papel do “Campeão” de 20 de Julho de 2023