Coimbra  24 de Fevereiro de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Entrevista: Assunção Ataíde e os desafios de coesão e transformação na Baixa de Coimbra

3 de Dezembro 2023 Jornal Campeão: Entrevista: Assunção Ataíde e os desafios de coesão e transformação na Baixa de Coimbra

Assunção Ataíde é professora, empreendedora, psicóloga e presidente da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC).  A sua ligação à APBC, uma associação sem fins lucrativos, é um testemunho do seu compromisso com o desenvolvimento e modernização da Baixa de Coimbra. Fundada em Fevereiro de 2004, a APBC resulta de uma parceria estratégica entre alguns dos principais agentes envolvidos no progresso desta área. A associação tem como objectivo central a promoção e modernização da Alta e Baixa de Coimbra, tornando-se um catalisador essencial para a revitalização desta zona histórica da cidade. Sob a sua liderança, a APBC tem conquistado sucessos significativos, contribuindo para a preservação do património histórico e cultural da Alta e Baixa de Coimbra.

 

Campeão das Províncias [CP]: Como é que aconteceu presidir a APBC?

Assunção Ataíde [AA]: A minha vida tem sido repleta de desafios estimulantes. Nada se faz sozinho, é sempre fruto de uma interacção com muitas pessoas. Aprendi a ouvir e a valorizar a contribuição de todos, independentemente da área de actuação. A minha formação em psicologia e pedagogia permitiu-me ouvir gestores, pessoas ligadas ao direito, desporto e outros campos, contribuindo para o meu desenvolvimento ao longo dos anos. Acredito que o constante salto entre áreas e as interacções sociais proporcionaram-me a serenidade necessária para presidir a esta associação. Esta miscelânea de actividades ao longo da vida, que abrange pedagogia, psicologia, economia e interacção social, é o que me dá motivação para continuar a contribuir para a comunidade. Acredito que investir em actividades nas quais acreditamos, com dedicação e paixão, resulta em sucesso e realizações significativas.

 

[CP]: Coimbra dificulta a vida a quem quer fazer?

[AA]: Enquanto não dermos uma volta a Coimbra e conseguirmos fazer com que Coimbra acredite em si própria será muito difícil concretizar com sucesso muitos dos projectos que se gostaria de desenvolver. É necessário em primeiro lugar fazer com que Coimbra deixe de falar mal de si própria. Temos que ter orgulho em ser conimbricenses.

Sabia que, dos meus seis irmãos, sou a única que nasceu em Coimbra? Pois é, e os meus irmãos brincam comigo, dizendo que sou a verdadeira “Coimbrinha”. Eu só me apercebi disso durante a campanha do meu irmão João. Nasci em Coimbra e durante 12 anos, andámos por outras cidades. Voltei aos 12 anos, sempre em família. Aqui estudei e aqui sempre trabalhei, mesmo tendo tido projectos, de âmbito nacional, assim como a Intervenção Precoce e o Autismo.   Neste momento, sou a única que trabalha em Coimbra. Ainda sou professora no Dona Maria. Sou professora de educação especial, activa e, não há meio de me reformarem, pois já tenho mais do que tempo suficiente.  Bom, mas isto para dizer que sempre senti em Coimbra essa falta de orgulho. Sempre senti que Coimbra tem tudo para ser a cidade mais importante do país, com história, património, formação e mentes brilhantes. Deixamos que a indústria se vá embora, deixamos que as pessoas se vão embora. Vejo os jovens que aqui se formaram, já referências nacionais e internacionais, todos fora de Coimbra. Eu também falo contra, pois as minhas duas filhas já estão no Porto. Portanto, temos que encontrar maneiras de cativar as pessoas a ficarem em Coimbra. Todos têm muita nostalgia de Coimbra, porque é a época mais bonita das suas vidas, a época de estudantes. Passaram por Coimbra e ficaram apegados, mas é uma nostalgia de Coimbra. Não houve vontade política de segurar as pessoas e isto é problema que se arrasta há décadas. Temos que ir à génese da cidade e perceber por que perdemos tanto tempo. Acho que enquanto não trabalharmos nisso, não vale a pena delinearmos grandes planos estratégicos de estímulo, incentivo e mobilização, porque esbarram na falta de base trabalhada. Por isso, o bairrismo é essencial.

 

[CP]: Como é que surgiu “A Camponeza” na sua vida?

[AA]: Sempre estive envolvida em algumas associações, nomeadamente o clube de Jazz e foi, no fundo, esta associação que me levou para a Baixa.

Inicialmente, o Clube da Jazz esteve noutros locais, mas depois acabámos por ir para o Salão Brasil. Entretanto, surgiu ao lado a venda deste prédio. Eu e o meu cunhado avançámos, comprámos o prédio e abraçámos este desafio.

Na minha família sempre tive pessoas com grande gosto para o vinho. O meu pai era uma pessoa do direito, mas sempre gostou de fazer uns vinhos. Um dos meus irmãos, também do Direito, é um Produtor de Vinho do Alentejo e eu pensei porque não? Surgiu assim “A Camponeza”.

Claro que, nesta fase, não tem nada a ver com o que era antigamente. É um local de encontro de amigos. É um local onde se fazem degustações de vários petiscos, onde se fazem degustações de vinhos, transformámos o prédio em galeria de arte e fazemos lá alguns festivais. Quem me alavancou a entrar na Baixa foi o clube de jazz, a Camponeza vem como consequência e a APBC é consequência destas primeiras duas etapas.

 

[CP]: Quais são os principais desafios da APBC?

[AA]: O primeiro ponto é desenvolver a coesão para as pessoas se sentirem unidas e perceberem que tudo o que está a ser feito é em benefício de todos. E depois é incluir outras actividades de modo a que a Alta e Baixa se transforme. Este exercício de coesão e de transformação é essencial para conseguirmos vencer. Por isso, a APBC tem investido acima de tudo, no desenvolvimento da coesão. Nós temos que ver a APBC no fundo como um núcleo agregador entre as diferentes instituições e os variados espaços da Alta à Baixa de Coimbra. Por isso, eu não me imagino a pôr de parte a Sé Velha e só incluir a Baixa. Outra luta que tenho diariamente é contra a rotina. A maior parte dos comerciantes estão habituados a rotinas de horários e rotinas da interacção com os clientes. Temos que estimular as pessoas a ultrapassar a rotina e a serem criativas, porque lá está, estou sempre a ligar a arte à dinâmica do comércio. É um desafio grande, mas eu acho que já tenho pessoas que começam a acreditar que vale a pena ultrapassar a rotina e agregar.

 

[CP]: Que motivos identifica para a Baixa ter perdido tanta gente?

[AA]: Foi essencialmente por uma opção. Não deixaram fazer o Forum na Baixa, como deixou Viseu, como deixou Aveiro. Foi claramente a ausência de uma unidade de venda que fosse âncora. Basta olhar para as coisas, pois contra factos não há argumentos. Uma pessoa vai a Aveiro e eu vivi em Aveiro e sempre vi Aveiro a crescer e realmente aquele fórum encaixou-se ali no centro e revitalizou aquela zona. A oferta cultural em Coimbra é superior ao somatório de Aveiro, Viseu, Guarda, Figueira, tudo junto e, no entanto, as pessoas continuam a dizer que as outras cidades é que têm e Coimbra não tem. E neste momento, Coimbra é a segunda cidade a nível nacional, com mais eventos culturais. Temos que combater este estigma e continuo a defender a estratégia acima de tudo é unirmo-nos e planificarmos em conjunto.

 

[CP]: A Baixa tem visto a população residente a diminuir? Continua a existir muita habitação degradada?

[AA]: Neste momento já não estamos assim, há mais gente na Alta e na Baixa, mas são essencialmente estrangeiros, não turistas, estrangeiros que vieram viver para cá, fazer doutoramentos, pós-doutoramentos, um bocadinho da elite académica, mas que vem e que fica. Relativamente à habitação tem havido algum investimento agora, mas a Câmara tem que agilizar esses procedimentos e é uma luta que nós temos tido. As câmaras são acusadas de que emperram os processos de aprovação, mas se queremos investidores, também temos que ajudar a que eles se sintam acarinhados e isso passa pela agilização.

 

[CP] Afinal a Baixa sempre vai ter Natal. Como é que vai ser?

[AA]: É verdade! Vamos ter o Mercado de Natal que, ao contrário do que dizem, não é uma organização da APBC. A ARA, Associação Redescobrir a Arte, decidiu avançar e a APBC, tal como a União das Freguesias de Coimbra e a própria Câmara apoiam. Vai ter cerca de 30 expositores. Em relação à animação, a União de Freguesias vai organizar uma iniciativa em parceria com as escolas locais, que resultará num concurso de árvores de Natal feitas a partir de materiais reciclados. Estas árvores serão expostas em vários pontos estratégicos da Baixa, adicionando um toque criativo e sustentável à decoração natalícia. Vai haver animação musical, aulas de zumba, exposições, teatro e a 17 de Dezembro vai realizar-se o “Pai Natal sobre Rodas Clássicas” que é uma iniciativa solidária de recolha de bens.

Entrevista: Lino Vinhal/ Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 30 de Novembro de 2023