Coimbra  23 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Entrevista a Santos Cabral: “Concerto pela Terra” mobiliza Coimbra em prol do bem comum

22 de Junho 2024 Jornal Campeão: Entrevista a Santos Cabral: “Concerto pela Terra” mobiliza Coimbra em prol do bem comum

O Movimento Justiça e Paz e o Movimento Rotário, ambos comprometidos com a procura do bem comum e a solidariedade entre pessoas e povos, juntaram forças para organizar o “Concerto pela Terra”. Este evento, que acontece na próxima terça-feira, dia 25, no Convento São Francisco, às 21h30, visa despertar a consciência colectiva para uma questão global essencial: a defesa da nossa Casa comum, o planeta Terra, através de um espectáculo de elevado nível artístico e cultural.

Com a intenção de associar entidades focadas no interesse público e no bem comum, a iniciativa conta com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra e empresas locais. Esta ajuda é vital para a organização e sucesso do evento, podendo manifestar-se através de logística, patrocínios financeiros e participação activa na organização.

A Rádio Regional do Centro e o Campeão das Províncias conversaram com José Santos Cabral, presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra, uma das entidades organizadoras. Segundo José Santos Cabral, qualquer esforço despendido nesta causa será um sinal de esperança para a sociedade, alinhando-se com os valores culturais e integradores de Coimbra, reconhecida como uma cidade da cultura.

Além do objectivo de sensibilização ambiental, o “Concerto pela Terra” tem um propósito solidário, com os resultados do evento a reverterem a favor da UNICEF, uma instituição que luta por uma Humanidade mais justa.

 

Campeão das Províncias [CP]: Qual é o objectivo do Concerto pela Terra?

José Santos Cabral [JSC]: O concerto tem o propósito de conseguir mobilizar, de uma forma lúdica, para a preocupação com o estado em que se encontra o nosso planeta e o cuidado que merece a nossa Casa Comum. Pensamos que, neste momento, mais do que nunca, olhar para o estado em que se encontra a Terra é uma tarefa de todos nós. Uma tarefa que nos é imposta em termos  intergeracionais e pelo respeito pela dignidade de uma grande parte da Humanidade que já sofre duramente as consequências das alterações climáticas.

 

Homenagem e apelo ao futuro

O Concerto pela Terra recorda os devastadores incêndios de 2017, que tiraram a vida a 116 pessoas e consumiram milhares de hectares de floresta, fauna, povoações e casas. Este evento pretende lembrar-nos que esses incêndios foram possivelmente a primeira grande manifestação das alterações climáticas que testemunhámos colectivamente.

Os Verões de 2022 e 2023 reforçaram esta dura realidade, com baixa pluviosidade, seca severa na Europa e um aumento na frequência, intensidade, duração e violência dos incêndios. Este concerto pretende ser um alerta para a difícil realidade que as gerações presentes e futuras terão de enfrentar.

 

[CP]: Está comprovado cientificamente que a acção humana está a pôr em risco a vida na Terra?

[JSC]: Já no início do século passado, havia previsões sobre o estado actual do nosso planeta. Estas previsões baseavam-se em modelos e cálculos científicos. Curiosamente, no início do século XX, um cientista sueco-Aherrenius previu que a acumulação de dióxido de carbono na atmosfera provocaria o aquecimento global. Em 1958 a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de cerca de 316 partes por milhão, e hoje é de 410, o que significa um aumento telúrico, que nos conduz para a catástrofe.

Tal aumento provoca o efeito de estufa, que, por sua vez, tem consequências dramáticas nas alterações climáticas, nomeadamente no aquecimento global. Actualmente, observamos sinais claros dessas alterações por todo o lado: calor extremo, chuvas intensas e inundações no Extremo Oriente, França e Alemanha, desertificação, incêndios no Pantanal e na América do Norte e Austrália, onde 18 milhões de hectares de floresta arderam no ano passado.

Se tivermos uma perspectiva global, vemos que a nossa casa comum, o planeta Terra, está a tornar-se pobre e desprotegido. Não falamos de meras hipóteses ou conjunturas, mas de factos que são monitorizados por entidades respeitáveis, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

Dentro da inação global dos líderes políticos importa acentuar o papel de duas figuras que se têm destacado na defesa do planeta: o Papa Francisco, com a sua encíclica “Laudato Si'”, apontando para a ecologia integral, e António Guterres, que, numa luta titânica, acentua que já não estamos na fase das alterações climáticas, mas sim na fase de “ebulição climática”.

As previsões indicam que, até 2100, o aumento da temperatura será muito superior ao proposto no Acordo de Paris, que previa um aumento máximo de 1,5 graus.

 

Convocatória para a realidade climática

 

O Concerto pela Terra é uma iniciativa dedicada ao planeta que todos habitamos, visando chamar a atenção para a realidade das mudanças climáticas. Propõe uma abordagem diferente, mais testemunhal, com a participação dos “actores” locais, os primeiros a sentir na pele o impacto violento destas transformações, como nascentes que secam, colheitas que se perdem e biodiversidade que se queima.

 

 

[CP]: Este concerto pretende chamar todos à acção?

[JSC]: É importante convocar as pessoas para que enfrentem  o grande desafio destes tempos e daqueles que virão. Não existe a noção de que um aumento de 2°C ou superior na temperatura média da Terra implicará mudanças drásticas na vida de grande parte da Humanidade com o cortejo de catástrofes inerentes .À nossa escala Portugal corre o risco de desertificação e de se transformar em algo de profundamente diferente com uma enorme carga de sofrimento para toda a população.

Estamos a falar de um modelo de sociedade sustentado por um capitalismo selvagem que não tem futuro assente na exploração da Terra até à exaustão. A ausência de regras, de organismos globais eficazes e de lideranças políticas fortes é evidente.

A falta de informação, quando não a omissão deliberada ou a deturpação sobre este tema candente, tem, também, na sua génese, também, as regras impostas pelas grandes empresas produtoras de combustíveis fósseis

 

 

Em Fevereiro de 2024 as temperaturas na Europa foram 3,30°C acima da média de Fevereiro de 1991-2020, com temperaturas especialmente altas na Europa Central e Oriental. Fora da Europa, temperaturas acima da média foram registadas no norte da Sibéria, no centro e noroeste da América do Norte, na maior parte da América do Sul, em toda a África e no oeste da Austrália. Apesar do enfraquecimento do El Niño no Pacífico equatorial, as temperaturas do ar marinho permaneceram invulgarmente altas.

 

[CP]: O que é que o público vai poder ver neste concerto?

[JSC]: Teremos diversos intervenientes, como Cuca Roseta, Cordis, Leonor Barbosa de Melo (soprano), Guilherme Perez Marques (tenor), assim como o Coro dos Antigos Orfeonistas, Coro Sinfónico Inês de Castro, Coro Infantil Coimbra Cantat, da Orquestra Inês de Castro e da Escola de Dança Rita Grade / Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra (EACMC). Dividido em quatro momentos – Terra, Fogo, Mar e Água – o concerto alia intervenções musicais e visuais para criar uma narrativa forte, em que o objectivo é apenas um: transmitir uma mensagem.

Este evento conta com o apoio essencial da Associação Mutualista a Previdência Portuguesa bem como da Câmara Municipal de Coimbra,  evidenciando um grande sentido de colaboração e capacidade organizativa. Além disso, a direcção artística de Artur Pinho Maria e a direcção executiva de Bruno Vale, aliadas à excelente equipa do Convento de São Francisco, são o aval da qualidade do concerto

Em suma, este não é um concerto comum, mas sim um instrumento para transmitir uma mensagem fundamental sobre o nosso planeta, utilizando a arte como uma poderosa voz dessa mensagem.

 

[CP]: Porque é que duas instituições como a Comissão Diocesana Justiça e Paz e o Rotary Club de Coimbra – Olivais se juntam para organizar este concerto?

[JSC]: O conceito do bem comum é central para as duas instituições, promovendo valores como a dignidade humana e a fraternidade. Para a Comissão Diocesana de Justiça e Paz, este princípio, enraizado na doutrina social da Igreja, procura beneficiar toda a comunidade, sem interesses individuais, de forma a aumentar a dignidade e a fraternidade na sociedade. Da mesma forma, o Rotary, um movimento global, reúne profissionais de diversas áreas para contribuir com seus conhecimentos e recursos para o bem colectivo. Deve-se muito a esta instituição nomeadamente a erradicação da poliomielite, um esforço global significativo que demonstra o seu compromisso num futuro melhor para todos.

 

Comissão Diocesana Justiça e Paz e o Rotary Club de Coimbra – Olivais juntas pelo bem comum

A colaboração entre a Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra e o Rotary Club de Coimbra – Olivais exemplifica um esforço conjunto significativo em prol do bem-estar global. Enquanto a Comissão promove valores essenciais como liberdade, igualdade e dignidade humana através da educação e acção social, o Rotary, com a sua vasta rede de líderes comunitários, concentra-se na promoção da paz, saúde e protecção ambiental ao nível global. Juntos, reforçam a importância da solidariedade e da responsabilidade colectiva frente aos desafios ambientais e sociais, demonstrando como a união de esforços pode catalisar mudanças positivas e sustentáveis no mundo.

Entrevista: Lino Vinhal/Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 20 de Junho de 2024