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“É UM RESTAURANTE” e são os sem-abrigo que servem

16 de Dezembro 2023 Jornal Campeão: “É UM RESTAURANTE” e são os sem-abrigo que servem

Com a voz serena de quem começa, lentamente, a reencontrar-se, Jonas Socorro não se nega a descrever o percurso duro e atravancado dos últimos quatro anos. Deixou o Brasil depois de uma depressão o ter levado a ponderar o suicídio e escolheu Portugal para, como confessa em lágrimas, procurar “o fim da vida”. A sentir que “nunca tive uma vida minha”, Jonas Socorro conta, em declarações ao “Campeão”, que pensou “quando acabar, acabou” e voou até ao território português com uma reduzida esperança dentro de si.

Aterrou cerca de sete meses antes da pandemia se ter instalado no país. Com um percurso de 25 anos na área das vendas, no Brasil, procurou um trabalho no ramo, mas sem sucesso. Tudo porque, em Portugal, lhe foi exigido um diploma para exercer essa profissão. Com as poucas energias que ainda tinha dentro de si, não desistiu e acabou por encontrar emprego como lojista. No entanto, até isso lhe foi levado quando a covid-19 chegou. Por conta da situação originada pela doença, Jonas Socorro ficou um ano sem trabalhar. O dinheiro que tinha guardado terminou e começaram as dificuldades.

Dormiu na rua onde, segundo o próprio, aprendeu “a dar valor às pequenas coisas”. Com a voz embargada, explica: “quando estás na rua, o grande problema é que ou estás a querer morrer ou numa situação que não consegues resolver”. No seu caso, “estar na rua era o fim. Como já tinha tido duas tentativas de suicídio no Brasil, eu esperava que a terceira desse certo. Simplesmente, abandonei-me”, confidencia. Nesta altura, o que Jonas não sabia é que a sua vida iria dar uma volta e, aos 58 anos, iria ter a oportunidade de começar de novo.

(Re)encontrar a vida

Depois de cerca de um ano a viver na rua, Jonas Socorro foi resgatado pela Comunidade Vida e Paz. Aqui, foi-lhe dada a possibilidade de trabalhar na cozinha. Função que Jonas abraçou e que descobriu gostar. Este foi apenas o começo da sua reinserção social. Mais tarde, – e com a ajuda de uma assistente social -, começou a procura por um curso que o pudesse ajudar a conquistar um emprego. Foi nesta fase que descobriu a Associação CRESCER e a iniciativa que o faria reencontrar-se na vida: o “É UM RESTAURANTE”.

O projecto, iniciado em 2019, nasce de uma sugestão por parte da Câmara Municipal de Lisboa para reaproveitar um espaço, usando-o como refeitório para dar comida a pessoas em situação de sem abrigo. Contudo, a Associação CRESCER optou por colocar as próprias pessoas a trabalhar lá, originando, assim, um restaurante onde o serviço é assegurado por pessoas que estão ou estiveram em situação de sem abrigo. “Começou como um desafio para quebrar o estigma que ainda existe para com estas pessoas de que, por estarem a passar por uma situação difícil, não têm capacidade. Isso não é verdade. Eles só precisam de uma oportunidade para voltar a agarrar-se à vida e seguir em frente”, explica Florencia Salvia, coordenadora da iniciativa, também em declarações ao “Campeão”.

Ao longo de cada ano, são integradas 75 pessoas em situação de vulnerabilidade, dando-lhes as ferramentas necessárias para a inclusão no mercado de trabalho. Assim que chegam ao projecto, é realizada uma formação adaptada ao público em questão. “Algumas destas pessoas já não trabalham há muito tempo. É necessário trabalhar com elas coisas como o respeitar um horário, trabalho em grupo e o respeito pelas regras”, adianta a responsável. Além disso, há ainda espaço para um módulo mais técnico em parceria com a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. “Ajudam-nos com as receitas e preparações”, afirma Florencia Salvia. Por fim, passa-se à prática e, durante cerca de 6 meses, os formandos exercem todas as funções no “É UM RESTAURANTE”. “A última fase passa por arranjarmos parcerias para que eles possam ir estagiar num restaurante. A vantagem é conseguirmos colocar pessoas no mercado de trabalho e integrar outras na formação”, revela a coordenadora.

De repente, a oportunidade apareceu”

Jonas Socorro é um dos formandos do “É UM RESTAURANTE”. Já terminou a formação técnica e, actualmente, trabalha num dos espaços deste projecto. Garante preferir estar na cantina, porque há sempre muito para fazer, o que lhe permite manter a cabeça ocupada. Sobre a chegada desta iniciativa à sua vida, sublinha que “de repente, a oportunidade apareceu e eu agarrei-a”. Não podia estar mais satisfeito e, entre sorrisos, assume que mostra que é isto que gosta de fazer, trabalhando arduamente. “Eu gosto de trabalhar e, aqui, descobri-me. É aqui que me sinto feliz”, salienta, acrescentando que, hoje, tem mais força para viver.

Estas palavras vêm juntar-se ao feedback de muitas outras pessoas que estiveram em situação de sem abrigo e que, de acordo com Florencia Salvia, estão felizes. “O que nos deixa orgulhosos é ver a evolução deles. É muito satisfatório e mostra o impacto que o projecto tem. As pessoas ficam contentes por ter um trabalho, voltar a recuperar a sua vida e sentirem-se novamente úteis”, frisa. O entusiasmo é também sentido pelos clientes do “É UM RESTAURANTE” que, segundo a coordenadora, fazem “avaliações super positivas” e têm acolhido “muito bem” a iniciativa.

Quero chegar a chefe de cozinha”

Com 180 pessoas, no momento, integradas no projecto, o “É UM RESTAURANTE” tem uma taxa de integração no mercado de trabalho de 40%. Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, do Chef Nuno Bergonse e do The Hotel, o balanço da sua actividade não podia ser mais risonho. “A prova disso é que começámos com um restaurante e já temos quatro. Temos restaurantes abertos ao público, mas também empresas que confiam em nós e que nos disponibilizam as suas cantinas, como é o caso da AGEAS e da Cofidis”, evidencia Florencia Salvia. Assim, a coordenadora não descarta a possibilidade de crescimento. “O projecto vai continuar e esperamos abrir outros restaurantes no futuro”, ambiciona.

Com a abertura de novas portas, abrem-se também novos sonhos. Sonhos esses que trazem conforto a pessoas como Jonas Socorro que, aos 58 anos, voltou a ter esperança no futuro. “Amanhã, se acordar, vou dar o meu melhor como sempre. Faço o melhor a cada dia com a certeza de que assim vai resultar”, acredita. Apesar do novo brilho que lhe surge no olhar, Jonas não tem dúvidas de que é ainda é cedo para se sentir realizado. “Não sou chefe ainda”, diz, entre risos. “Não penso baixo. Agora, voltei a ser o Jonas de 25 anos que quer melhorar e chegar longe. Quero chegar a chefe de cozinha. Agora é que vêm as coisas boas”, remata.

Texto: Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Fotografia: Associação CRESCER

Publicado na edição em papel do “Campeão” em 14 de Dezembro de 2023