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Docente da ESTeSC defende tratamento personalizado em casos de cancro

26 de Junho 2017 Jornal Campeão: Docente da ESTeSC defende tratamento personalizado em casos de cancro

O estudo realizado por Fernando Mendes, docente e investigador da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC), revela que uma personalização do tratamento do doente em casos de cancro poderá levar a uma maior eficácia do mesmo.

O também director do Departamento de Ciências Biomédicas Laboratoriais da ESTeSC defende que “o tratamento do doente deve ser personalizado, adequando a dose de radiação ionizante às características celulares e moleculares dos tumores”, que poderão contribuir para uma maior eficácia no tratamento do cancro e, consequentemente, numa maior taxa de sobrevivência dos doentes.

O estudo foi apresentado em livro e segundo o autor, “a radioterapia é uma das modalidades de tratamento comummente utilizada para o tratamento do cancro, tanto de tumores sólidos como de tumores com origem hematopoiética”. Assim, “este projecto surgiu com o principal propósito de caracterizar e avaliar a importância de marcadores celulares e moleculares envolvidos na radioterapia, ou seja, saber qual o impacto da radiação ionizante nos dois tipos de tumor e quais as principais diferenças”, refere o investigador, explicando que, para este propósito, foram determinados os efeitos da tradiação ionizante na viabilidade, na proliferação, na sobrevivência e nos mecanismos de morte celular.

Neste processo, é preponderante o papel da ‘P53’, uma proteína determinante na defesa do DNA contra as agressões produzidas pela radiação.

Para a realização deste estudo foram escolhidos dois tipos diferentes de cancro, cujo tratamento integra o uso de radioterapia, e que “são exemplos representativos de tumores sólidos e hematopoiéticos”.

O cancro do pulmão é um tumor sólido, com uma das taxas de incidência e de mortalidade mais elevadas em todo mundo, enquanto que o linfoma difuso de grandes células B é um tumor hematopoiético e o tipo mais comum de linfoma-não Hodgkin. O estudo foi desenvolvido em linhas celulares (laboratório) e em patologia humana (doentes).

Proteína ‘P53´é essencial

O que se veio a verificar foi que a “radiação ionizante induziu diminuição da proliferação, da viabilidade e da sobrevivência celular em todas as linhas celulares. No entanto, a sobrevivência ajustou-se a modelos de agressão celular distintos”, adianta, sublinhando que “após exposição à radiação ionizante, o tipo de morte celular preferencial foi dependente da dose e do perfil de expressão de ‘P53’”.

Assim, para Fernando Mendes, “uma das proteínas importantes na regulação do ciclo celular é a ‘P53’, já que é a ‘guardiã’ do DNA, na medida em que apresenta um papel fundamental na manutenção da integridade do DNA, regulação do ciclo e indução de morte celular”.

Os resultados demonstram que “devem ser utilizados diferentes modelos de ajuste às linhas celulares, dependendo do tipo de tumor e do seu perfil molecular”, salientando ainda a importância da “integração na rotina do tratamento do perfil de expressão de ‘P53’”, contribuindo para uma personalização do tratamento.

Na sequência dos resultados obtidos in vitro, o estudo estendeu-se também a doentes com os dois tipos de cancro, oito doentes com cancro do pulmão e nove doentes com linfoma, onde foi analisado o reflexo periférico da radioterapia no sistema imune dos doentes. “De uma forma geral, apesar do limitado número de doentes envolvidos neste estudo, foi possível concluir que o estado do sistema imunitário no início do tratamento, bem como o tipo de tumor (sólido ou hematopoiético), contribuem para diferenças na resposta ao tratamento com radioterapia”, salienta, em comunicado, a instituição.

Nesse sentido, a conclusão do estudo é de que “a resposta à radioterapia é dependente das caraterísticas celulares e moleculares das células tumorais”, e que “o melhor conhecimento e compreensão das caraterísticas moleculares do tumor e dos mecanismos de resposta ao tratamento constituem uma mais-valia na decisão terapêutica e na avaliação do prognóstico”.

No futuro, esta abordagem, poderá vir a contribuir “para combinar novas estratégias terapêuticas com melhoria da resposta à radioterapia e, consequentemente, da sobrevivência.

O trabalho experimental deste estudo foi desenvolvido no Instituto de Biofísica, no Laboratório de Oncobiologia e Hematologia da Unidade de Biologia Molecular Aplicada e Clínica Universitária de Hematologia e no Instituto de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), com a colaboração do Serviço de Radioterapia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra CHUC.

Os resultados desta investigação, intitulada “Caracterização celular e molecular dos efeitos da radiação em Neoplasias – estudo experimental em Linfoma e Carcinoma do pulmão de pequenas células” e financiada pela ESTeSC, FMUC e Delta, agora publicados em livro, foram incluídos na tese de doutoramento, do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde, ramo de Tecnologias da Saúde.