Coimbra  24 de Fevereiro de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Da Coimbra social à fragmentação ideológica: a visão desconfortável de João Silva

4 de Fevereiro 2024 Jornal Campeão: Da Coimbra social à fragmentação ideológica: a visão desconfortável de João Silva

João Silva é uma figura amplamente reconhecida em Coimbra. Ao longo de vários anos, desempenhou papéis importantes como vereador, onde teve a seu cargo um vasto conjunto de pelouros. Além disso, foi técnico superior na Administração Regional de Saúde de Coimbra. Com uma perspectiva única e crítica da cidade, participou activamente nas tertúlias promovidas pelo Campeão das Províncias no Hotel D. Luís. Actualmente partilha a sua visão e análises como cronista no Jornal Diário de Coimbra. A sua presença e contribuições destacam-se no panorama local, reflectindo a sua dedicação ao desenvolvimento e compreensão da comunidade.

Campeão das Províncias [CP]: Coimbra está hoje menos social. Sente isso?

João Silva [JS]: Os tempos mudaram, a cidade cresceu e o desenvolvimento urbano trouxe outros desafios. O trabalho tornou-se mais exigente, ocupando o tempo antes dedicado ao lazer e ao contacto social. Mudanças nos espaços, como o encerramento do emblemático Samambaia no Norton de Matos, reflectem essas transformações. O bairro, outrora social, hoje é disputado e caro. As antigas ruas estreitas não antecipavam a presença de carros, agora símbolos de habitação luxuosa. Os bairros sociais na cidade promoviam relações pessoais e entreajuda, mas foram perdendo autonomia com o desenvolvimento da cidade. Essa mudança é sentida e lamentada.

[CP]: Faz-lhe falta essa Coimbra social?

[JS]: Faz a todos nós, hoje em dia, cada vez mais é defendida a necessidade de uma certa calma e proximidade nas relações, algo que fomos perdendo e que é difícil recuperar. Quando vim para Coimbra, o ambiente era muito atractivo. Destacava-se a Coimbra académica e a Coimbra dos “futricas”, dois espaços que, apesar de aparentemente antagónicos, se complementavam. Havia um contraponto interessante entre os que vinham temporariamente e os que já estavam cá, criando relações únicas. Na altura, qualquer pessoa que entrasse num café e não fosse conhecida passava, de imediato, a ser tratada por doutor ou engenheiro.

[CP] Coimbra hoje é muito diferente?

[JS]: É bastante diferente. Houve uma ruptura, sendo notório, por exemplo, que o saudável convívio entre pessoas de diferentes ideologias políticas que existia deu lugar a um confronto que se reflecte num afastamento no quotidiano das pessoas. As convicções ideológicas passaram a separar as pessoas mais do que antigamente, semelhante ao que acontece no futebol. Houve uma época em que Coimbra tinha um impacto relevante a nível nacional, com personalidades influentes, de diferentes áreas e campos ideológicos, e hoje esse reconhecimento praticamente não existe.

O Marquês de Pombal teve uma visão estratégica para o país, estabelecendo diferentes actividades económicas em cada região, sendo Coimbra o centro produtor, por excelência, do conhecimento e da inteligência. Hoje em dia, lamentavelmente, perdemos essa singularidade. A liberdade do 25 de Abril e a democracia abriram o país, expondo as fragilidades de Coimbra.

Coimbra não conseguiu impor-se e, em vez disso, lamenta-se perante o poder central, em vez de fortalecer as suas próprias forças internas. Lisboa, por sua vez, fez uma “OPA” sobre muitas cidades, incluindo Coimbra, retirando-lhes recursos e talentos.

[CP]: Coimbra perdeu influência?

[JS]: Coimbra lida com as suas angústias e preocupações de uma maneira que considero ridícula e caricata. Coimbra nunca conseguiu estender a sua influência de uma forma positiva. Miranda do Corvo, Figueira da Foz e Lousã, apenas como exemplos, não sentem que Coimbra os considere devidamente. Poderíamos questionar por que nunca conseguimos implementar a auto-estrada de Coimbra para Viseu. A verdade é que nunca houve uma vontade forte de fora para se conectar connosco. Mas também não vejo nenhum esforço inteligente da nossa para o conseguir. Queremos ser tudo e não queremos ser nada. Acredito que deveríamos abraçar a ideia do Marquês que nos definiu. Somos, por excelência, uma cidade universitária, mas em que subsistem sempre dificuldades de articulação entre a Universidade e a Câmara. Isso ainda persiste hoje. Frequentemente os autarcas são vistos como uns “bárbaros” por certos universitários e estes, por seu lado, são vistos por alguns autarcas como aqueles que só falam e não fazem nada. Esse ambiente tem sido prejudicial para a cidade ao longo dos anos e parece-me que as coisas não têm melhorado. Todo esse ambiente revela uma falta de relação humana, de contacto e de compreensão expressão, que não é positiva ao desenvolvimento da cidade. Não nos conhecemos, ou nos queremos conhecer, verdadeiramente.

[CP]: Há um descontentamento generalizado com o MetroBus?

[JS]: É uma história interessante que talvez mereça ser explorada um dia. Pode ser que haja algum trabalho académico ou tese sobre o Metro em Coimbra.

Há uma considerável quantidade de pessoas que vivem na cidade, amam-na e acreditam que poderia ter tido um destino diferente. A questão da identidade é complexa, especialmente quando se trata do Ramal da Lousã. Seria interessante compreender o histórico desse Ramal. A ideia inicial da CP era fechar a linha, como outras estavam a ser fechadas. A ideia do Metro foi uma tentativa de aproveitar uma infra-estrutura ainda existente, com a perspectiva de melhorar um pouco a rentabilidade. Isso levou a 20 anos de controvérsias em Coimbra. A resistência ao novo, somada aos anos de não exploração e às más decisões tornará desafiador alcançar rentabilidade do MetroBus. Para mais, os primeiros anos vão ser uma fonte de prejuízo.

[CP]: Como está o sector da saúde em Coimbra?

[JS]: Coimbra já foi uma grande referência nacional. Apesar das dificuldades de acesso, as pessoas tinham a certeza de encontrar aqui a solução que não encontrariam noutro lugar. Tínhamos os melhores cuidados médicos.

Coimbra tem a possibilidade, devido ao seu tamanho relativamente pequeno, de se destacar na investigação e nas novas tecnologias, mantendo-se no topo a nível nacional em termos de qualidade na área da saúde. No entanto, há questões que me deixam perplexo. Como é que em Coimbra, onde se realizam microcirurgias e procedimentos complexos, não se consegue resolver o problema de estacionamento nos hospitais? Por que não foi possível ligar a circular externa ao Hospital Pediátrico? Por que razão o IPO e outros hospitais se encontram todos no centro da cidade?

Essa falta de coordenação e estratégia em Coimbra é inaceitável. A Universidade, apesar de ser de excelência, enfrenta problemas de circulação, acessibilidade e estacionamento. A criação de um espaço de saúde de excelência não se coaduna com a envolvente e com as condições de espaço em que se insere. A localização dos HUC é um enorme problema.

Politicamente, o mal-estar em relação à margem esquerda persiste em Coimbra. Parece que tudo o que é feito na margem direita é bom e é concretizado, enquanto a margem esquerda fica esquecida.

[CP]: Saiu do Executivo da Câmara por discordância ou por cansaço?

[JS]: Eu disse publicamente em Janeiro de 2001 que não pretendia continuar na Câmara. Saí em 2002, no fim do mandato. Eu tive quase tudo na Câmara, desde a administração às finanças, o notariado, o pessoal, os bombeiros e as obras particulares. Foram anos muito difíceis, mas muito interessantes. Havia um certo cansaço, mas também a convicção de que havia que dar um salto naquele momento.

Eu achava que o próprio Partido Socialista, a que pertenço, precisava de um conjunto de pessoas novas. Com todo o respeito que tenho, admiração e consideração pelo doutor Manuel Machado, eu acho que tínhamos feito três mandatos muito bons e que era preciso pensar em coisas diferentes, dar lugar a ideias novas. Achei, por isso, que naquela altura era para mim o momento de sair.

[CP]: Identifica-se com o rumo político que Coimbra tomou?

[JS]: Tenho duas coisas que me desagradaram profundamente. Foi um erro o presidente da Câmara (na altura Carlos Encarnação) nomear o presidente da Académica como director municipal de urbanismo. Foi prejudicial para a Câmara e foi prejudicial para a Académica. A segunda questão, também com Carlos Encarnação, foi a mudança do nome da ponte Europa para outra coisa, porque foi a prova da pequenez com que se pensa. Tenho-o como uma pessoa com mundo, com conhecimento, mas que decidiu com provincianismo. E o desaproveitamento das competências e das capacidades da cidade, que tem sido óbvio, entristecem-me profundamente.

[CP]: Sente-se confortável com o modelo que está a ser seguido pela Câmara de Coimbra?

[JS]: Eu acredito que o presidente da Câmara que Coimbra necessitava deveria ser alguém capaz de unir, um agregador e alguém que conseguisse impulsionar a cidade para novos horizontes. O que tenho observado é que o actual presidente se alimenta da controvérsia. Não entendo por que é necessário invocar diariamente o que os outros não fizeram. Não me sinto confortável com esta solução. Não a aprecio politicamente. O PSD parece estar refém do presidente da Câmara. O actual presidente tem ambição, mas não tem mais nada, nem jeito político. E há algo adormecido na política local.

 

Entrevista: Lino Vinhal/ Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 1 de Fevereiro de 2024