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Cultura do milho no Vale do Mondego tem um mês de avanço

27 de Maio 2023 Jornal Campeão: Cultura do milho no Vale do Mondego tem um mês de avanço

Ser presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra deve ser uma permanente dor de cabeça. Ficam na sua área as grandes extensões de milho do Vale Mondego e esta planta quer muitas vezes uma coisa e o seu contrário. Quer água e calor e nem sempre se conseguem reunir estas duas condições. Por exemplo este ano, têm calor mas não têm tido água. Outros anos tiveram água a mais e calor a menos. Os produtores andam por isso com o coração na boca, tantas vezes de olhos no horizonte na busca de sinais meteorológicos que os tranquilizem. O “Campeão” pediu ao presidente da Cooperativa, Eng.º Pedro Pimenta, que nos fizesse um breve retrato da situação de momento da cultura do milho na nossa zona. Fê-lo com simpatia e é essa conversa que a seguir reproduzimos:

Campeão das Províncias [CP]: Como está a correr a cultura do milho este ano?

Pedro Pimenta [PP]: A instalação da cultura do milho este ano está a bom ritmo, o facto de termos tido um Abril seco permitiu que as sementeiras se realizassem mais cedo que o normal.

[CP]: Qual a área para a produção de milho este ano?

[PP]: A área de milho não altera muito significativamente de ano para ano na região, sendo cerca de 6.000 hectares desta cultura no Vale Mondego.

[CP]: A falta de água é uma preocupação?

[PP]: Será sempre uma preocupação junto dos agricultores. As alterações climáticas são uma evidência e este ano em particular que nos permitiu antecipar as sementeiras praticamente um mês. Necessariamente vamos ter que nos adaptar a novas épocas de sementeira e colheita, novas técnicas agronómicas, variedades melhor adaptadas, sermos mais eficientes no uso da água e utilizar técnicas de rega mais ajustadas a esta preocupação em torno da utilização da água.

Mas do lado do poder político terá necessariamente de haver uma estratégia de investimentos em torno da armazenagem deste recurso (água), vital á sobrevivência humana, que nos permita armazenar no Inverno para poder utilizar no Verão, sem esta visão estratégica/política, não haverá certamente sustentabilidade económica, social e ambiental dos territórios rurais.

[CP]: Quantos produtores há na região?

[PP]: Na Cooperativa Agrícola de Coimbra cerca de 300 produtores de milho

[CP]: A produção do milho é uma actividade lucrativa?

[PP]: Ser Agricultor é uma forma de estar na vida muito diferente das demais actividades, e a prova disso mesmo é o que se tem vindo a constatar desde 2022, que sofreu o maior aumento de custos de produção deste século, desde fertilizantes, combustíveis, energia, equipamentos, com subidas que foram vertiginosas. Foi o caso de alguns fertilizantes com aumentos na ordem dos 80%. E as razões são por demais conhecidas, iniciaram em 2020 e 2021 com a instalação a nível global da pandemia Covid-19 e que culminou com a guerra instalada na Europa a 24 de Fevereiro de 2022, entre as maiores potências (Ucrânia/Rússia) de produção de cereais e fertilizantes do Continente Europeu. Apesar de todos estes constrangimentos de aumentos de custos de produção, que no caso do milho grão, representou investir na instalação da cultura (Abril/Maio) mais cerca de 1.000 euros/ha que os anos anteriores, ultrapassando os 2.500 euros/ha de custo de instalação. No entanto sem qualquer certeza de que quais serão os preços de venda dessa cultura, onde inevitavelmente a ansiedade reina e a pergunta mais comum é, “e se o preço do milho não cobre os nossos custos?”. Apesar destas dificuldades os agricultores não se inibem da sua função mais nobre que é produzir alimento para uma sociedade em constante crescimento, num ato de grande coragem e risco, mas também de confiança nas Organizações de Agricultores que os apoiam.

[CP]: O Estado dá apoios compensadores?

[PP]: Os apoios são essencialmente da PAC (Política Agrícola Comum), transversais a todos os agricultores europeus, que visam fundamentalmente obter uma alimentação segura, com os mais altos padrões de qualidade, em abundancia e a preços condignos para os cerca de 500 milhões de cidadãos do nosso Continente Europeu.

Imagem: Revista Agricultura e Mar

Entrevista publicada na edição de quinta-feira do “Campeão” (25/05/2023)