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“Coimbra tem dormido à sombra da fama”

16 de Junho 2018

Perfil publicado na edição de 12 de Abril do “Campeão das Províncias”

Nome: JORGE Manuel dos Santos CONDE
Naturalidade: Coimbra
Idade: 55 anos
Profissão: Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, Investigador e Técnico de Cardiopneumologia
Passatempos: Organização de ralis e viajar
Signo: Peixes

 

“Escolhe um trabalho que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”. A frase remonta a 500 anos
a.C. e foi eternizada pelo filósofo e pensador chinês, Confúcio, mas é relembrada por Jorge Conde como espelho do seu trajecto de vida. Num discurso de paixão transparente pelo que faz actualmente, o Cardiopneumologista não desvirtua, no entanto, o caminho que trilhou até chegar aí.

Nasceu e estudou em Coimbra até aos quatro anos, altura em que acompanhou os pais até Angola onde o seu
progenitor prestou serviços de enfermagem. Regressou à terra natal sete anos depois e terminou o ensino
secundário e ingressou na, denominada hoje, Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTESC) para tirar um curso que começou por se chamar Cardiopneumografia, mais tarde, Cardiopneumologia, e hoje, Fisiologia
Clínica. Os genes e ambiente familiar tiveram influência na escolha do curso superior: “o meu pai era enfermeiro e
a minha mãe trabalhava no Hospital dos Covões e, naturalmente, eu fui incutido desde jovem a ser médico. Há
sempre aquela vontade de levar os filhos para a nossa área profissional e para um patamar o mais alto possível.
Mas cedo percebi que não queria ser médico. Era preciso estudar demasiado, ter pouca vida própria e eu não
queria nada disso. Queria ter uma vida suficientemente feliz e descontraída que não me obrigasse a trabalhar para
uma determinada média só com o objetivo de ser médico”. E foi com este pensamento e também por força das
circunstâncias que Jorge Conde acaba por ingressar no curso de Cardiopneumologia. “Em 1980 abre a Escola
Técnica dos Serviços de Saúde, hoje com o nome de Escola Superior de Tecnologia da Saúde, e era a 100
metros de minha casa. Fui lá perceber que cursos tinham e gostei. Decidi escolher aquele que me dizia mais
qualquer coisa, na altura mais ligado à área da Cardiologia, provavelmente porque, mais ou menos na altura
em que escolho o curso – agora não posso precisar exatamente, mas penso que uns meses antes – a minha avó
tinha falecido com um enfarte de miocárdio e talvez isso tenha influenciado a minha escolha.”

Em 1984 terminou o curso de Cardiopneumologia mas, dado que a ESTESC apenas é convertida em instituição de
ensino superior em 1993, só dois anos após esta alteração, Jorge Conde consegue a equivalência para curso
superior tirando, posteriormente, a licenciatura. Em 2015 termina o Doutoramento em Ciências do Desporto no
Ramo de Actividade Física e Saúde, um tema escolhido com fundamento familiar: “os meus filhos desde muito
jovens que praticam natação de competição e, a determinada altura, vi-me na eminência de me levantar às 6h00
para os ir pôr na natação às 7h00. Quando terminavam as aulas voltavam para a piscina e eu esperava por eles na
piscina às 21h30. Uma das coisas que começou a fazer-me confusão enquanto profissional ligado à área da
Cardiopneumologia, foi o facto de eles saírem da água às 21h30, irem para casa jantar, estudar, dormir e voltarem
no dia seguinte para a água às 7h00. ‘Há aqui qualquer coisa que não pode bater certo do ponto de vista da
recuperação do sono’, pensei. E resolvi fazer uma tese de Doutoramento onde tentasse perceber se este intervalo
de tempo era suficiente para eles recuperarem”, esclarece.

Começou a trabalhar com 21 anos no Centro de Saúde de Coimbra (a Extensão de Saúde Sá da Bandeira)
onde esteve durante dois anos, indo depois para os Hospitais da Universidade de Coimbra ocupando o cargo
de Técnico de Cardiopneumologia durante cerca de 14 anos. A partir de 1986, a este cargo acumulou o de docente na ESTESC, a tempo parcial. E é no ano 2000 que surge a possibilidade de desempenhar a função de docente a tempo inteiro. Um desafio que, na altura, se afigurava “arriscado pela época de mudanças extremas que atravessava a escola e o ensino na generalidade” mas o qual foi aceite por Jorge Conde, ajustando o tempo de docência com a sua própria formação. A 2 de Janeiro de 2008 toma posse como Presidente da ESTESC ficando com esse cargo durante nove anos. A determinada altura começa a almejar vir a ser presidente do Politécnico. Em Julho de 2017 o desejo concretiza-se não abandonando, ainda assim, a área de saúde: “continuo a fazer alguma coisa na área da saúde. Faço investigação e continuo, de alguma forma, ligado aos pacientes. Ainda há umas semanas atrás tirei um sábado para fazer recolha de amostra para uma investigação.”

Passados cerca de nove meses na qualidade de Presidente do Politécnico, Jorge Conde reitera a teoria de Confúcio
e quando a palavra-chave se pronuncia – Politécnico – é exíguo o espaço desta página para transmitir o que lhe vai
na alma e o sentimento inerente ao discurso fácil de quem, claramente, faz o que gosta. “Levanto-me todos os dias
com a missão de criar a imagem do Politécnico capaz de motivar os estudantes e faço-o com muito gosto. Denoto
que continua a confundir-se a missão do Politécnico e da Universidade. Mas há lugar para os dois tipos de ensino.
No dia em que o Politécnico for igual à Universidade, ele morre. E morre porque, dificilmente, a cópia é igual ao
original. E tendo nós uma Universidade de excelência aqui ao lado a última coisa que nos interessa é ser a cópia de
um bom produto. Porque é que gostaríamos de ser tratados por Universidade? Especialmente no ensino é
inequívoco que Coimbra tem dormido à sombra da fama porque nós não temos falta de alunos e por isso não nos
preocupamos verdadeiramente. Temos de criar a nossa marca. Coimbra está adormecida e precisa de acordar.”

E AINDA…

“Eu desde pequeno queria, de alguma forma, seguir a área da saúde, provavelmente, muito por influência dos meus Pais e do que eles faziam, não que eles me tivessem encaminhado nesse sentido. Se me perguntasse hoje,
olhando para trás, o que é que eu teria feito se voltasse atrás…teria feito, provavelmente, um curso ligado à Gestão e
às Ciências Empresariais, que foi aquilo que cabei por fazer a maior parte da minha vida. Mas, na altura, a opção de
um miúdo de 17 anos era a saúde…”
“Tudo o que fiz até esta altura fiz na margem esquerda de Coimbra. É uma coincidência engraçada: nasci na margem esquerda, o que estudei em Portugal estudei na margem esquerda e licenciei-me na margem esquerda. Em 2004 termino o Mestrado e isso foi a única coisa que fiz na margem direita. Também porque, à época, não havia
opções. Os politécnicos ainda não tinham mestrados e, na altura, fiz o mestrado no Instituto Superior Miguel Torga
mas volto à margem esquerda para a Faculdade de Ciências do Desporto fazer o Doutoramento.”
“Conheci a minha esposa quase quando nasci. Fomos fazendo percursos muito semelhantes, ela também tirou um curso ligado à saúde na mesma escola que eu. Trabalharmos ambos na área de saúde não influenciou a nossa vida pessoal. Tudo na vida são opções. A minha mulher optou pela carreira hospitalar e eu, a determinada altura abandonei a carreira hospitalar, para me dedicar à carreira docente.”
“Toda a gente acha que o Politécnico copia a Universidade. Na realidade foi ao contrário. Foram as
universidades que, a determinada altura, começaram a dar cursos que eram puramente politécnicos. O de Turismo e
as Artes são exemplos, mas há uma série de cursos que começaram por ser lecionados nos politécnicos e que a
determinada altura as universidades foram buscar porque tinham muita procura. Quem quiser ser Fisioterapeuta
tem de escolher o Politécnico. Quem quiser ser Médico tem de escolher a Universidade. É aqui que está a separação
das missões. Se me perguntar ‘e quem quiser ser Gestor o que é que deve escolher? Eu vou deixar a resposta no ar…”

“Acho que tem de haver uma diferenciação plena da missão e acho que aquilo que temos de fazer no Politécnico é aquilo que já fazemos. Cursos profissionalizantes que demonstrem que a pessoa sai preparada para fazer em vez de cursos de índole completamente teórica. O Politécnico, por exemplo, não deve fazer Filosofia, ou Inglês-Alemão. Mas faz Gestão como faz a Universidade e tenho dúvidas que deva fazer Economia porque já tem uma componente mais teórica.”
“O pai comum continua a achar que o filho, quando for para o ensino superior, deve ir para um curso na Universidade mesmo que seja para um curso que não garante empregabilidade num futuro imediato. Do ponto de vista de imagem exterior o apelidarmo-nos de Universidade seria uma questão de marketing. Porque aquilo que fazemos, temos de continuar a fazer. Temos de preparar pessoas para a vida e de que nos adianta formar pessoas que sabem muito mas que depois não vão aplicar grande parte do seu conhecimento?”

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