Coimbra  20 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

“Coimbra precisa de actores, não de figurantes”

23 de Dezembro 2018

Perfil publicado a 29 de Novembro, na edição n.º 952

 

Nome: ANTÓNIO Casa Nova Tavares TRAVASSOS
Naturalidade: Carreiras – Portalegre
Idade: 68 anos
Profissão: Oftalmologista e presidente do Conselho de Administração do Centro Cirúrgico de Coimbra
Passatempos: Ler; jardinagem; cerâmica
Signo: Leão
Na gíria popular chamar-lhe-iam um “homem dos sete ofícios”, mas, citando-o, é tão somente “alguém que precisa de estar sempre a aprender.” Nascido no ‘Monte das Oliveiras’, no Alto Alentejo, é um de dois irmãos criados no seio de uma família unida onde o bom senso preponderava e onde as artes da serralharia, mecânica, carpintaria, entre outras, faziam parte do quotidiano, criando em António Travassos a mesma preocupação que hoje confirma manter: construir ele próprio aquilo que idealiza.
Foi na terra natal que concluiu a escola primária terminando depois em Mouriscas (“porque lá havia um colégio que apresentava melhores resultados”) o primeiro e segundo ciclos. O ponto de viragem aconteceu quando chegou a Portalegre para a etapa escolar seguinte. “No monte toda a actividade tinha sido preparada para eu ser engenheiro mecânico só que, no meu sexto ano, após dissecar um animal numa aula de ciências naturais, o meu professor perguntou-me se eu tinha alguém na família médico e eu respondi que não. Perguntou-me se eu queria fazer avaliação da vocação profissional em Lisboa e eu disse que ia se houvesse essa oportunidade. Os meus pais deixaram e passados
oito dias estava no Instituto de Orientação Profissional a fazer testes.” Lá, os denominados, testes psicotécnicos, orientaram-no para a área de Medicina surpreendendo toda a família e alterando as ferramentas de trabalho dos tempos livres, das relacionadas com a mecânica para o kit de ciências naturais que utilizava com os animais.
Autodidacta por natureza, tanto no campo das artes como na anatomia, o que o levou a ter um conhecimento acima da média nesta área apenas com 17 anos, percebe que a cirurgia era mais do que um gosto, era o destino marcado. Chegou a Coimbra em 1968 e, nos 50 anos seguintes, acredita ter feito tudo para que esse caminho fosse percorrido da melhor forma e com a eficácia possíveis. Um percurso sempre acompanhado por pessoas que muito contribuíram para aquilo que é hoje, “porque numa equipa não pode haver só ‘Ronaldos’, tem de haver defesas, médios… e muitas vezes os avançados têm de vir jogar à defesa. Nós isolados não somos nada”, frisa.
Nesse ano a Universidade de Coimbra, particularmente a Faculdade de Medicina, “atravessava um ponto alto sob a direcção, do professor Augusto Vaz Serra”, sendo, no entanto, também um ano conturbado com a crise académica a despoletar. A oftalmologia, essa, surge de uma forma um tanto ou quanto “rebelde”, espelho do inconformismo e inquietude que sempre o caracterizaram. “No segundo ano de Medicina um professor, que era em meu entender um mau professor, ao escrever a fórmula de um aminoácido no quadro disse: ‘quem não quiser saber isto vá para oftalmologia’ e eu achei que ele tinha dito aquilo de uma forma tão arrogante e desprestigiante que pensei ´é mesmo para aí que eu quero ir’. E desde esse momento eu decidi que queria fazer uma oftalmologia diferente.”
Licenciou-se em Medicina em 1974 e iniciou-se na docência logo nesse ano, mas nunca foi esta a área que o fascinou. Aprender, mais do que ensinar, esse foi sempre o seu propósito. “Nunca me sentiria feliz a ocupar a maior parte do meu tempo como professor. Sinto-me muito mais feliz a aprender do que a ensinar. Estar a ensinar a quem não quer aprender é uma coisa horrível. Eu aprendi, por exemplo, a melhorar a minha cirurgia a rever os vídeos da minha própria cirurgia para a aperfeiçoar. Eu ia para casa ver as gravações e tentar perceber o que tinha corrido bem e o que tinha corrido mal, onde podia ganhar tempo reduzir o tempo das cirurgias”, enaltece.
Em 1980 chega aos Estados Unidos da América onde permanece durante um ano, acompanhado sempre pelo professor Cunha Vaz, com o qual trabalhou durante trinta anos. Juntos, sublinha, conseguiram “mudar radicalmente a perspectiva da oftalmologia neste país. Ela era inicialmente mais ligada à refracção, à receita de óculos, e de algum modo à cirurgia da catarata. A minha chegada ao Serviço de Oftalmologia nos Hospitais da Universidade e depois a saída para os EUA, onde estive um ano na Universidade de Chicago, deu-me uma perspectiva completamente diferente. E quando regressámos a Portugal havia uma lista enorme de doentes com casos muito complexos, mas com alta probabilidade de cura e comecei por esses, os casos mais complicados. Hoje tenho a certeza que a oftlamologia que praticamos é diferente e reconhecida em qualquer parte do mundo”.
Em 2015 foi agraciado por Cavaco Silva com o grau de Grande-Oficial da Ordem de Mérito, condecoração atribuída a pessoas a quem o Presidente da República reconhece notório desinteresse ou abnegação em prol da comunidade.
Hoje, passados 12 anos do afastamento do Hospital de Coimbra deixando o Serviço Nacional de Saúde dedica-se, além das diversas artes que nunca abandonou por completo, à administração do Centro Cirúrgico de Coimbra. Idealizou-o há 25 anos atrás e foi fundado em 1999. Uma instituição que, frisa, “não é um projecto em alternativa aos Hospitais da Universidade de Coimbra, mas sim uma unidade complementar”. Também aqui, em qualquer ofício, como num jogo de equipa ou em casa com a família, é imprescindível o trabalho em conjunto, mas não só. “É necessário um pouco de mau feitio. Tê-lo é ter um coração grande. Gosto de trabalhar com pessoas com mau feitio porque já sei que são
exigentes, são maus perdedores…gente sempre preparada para fazer melhor. Pessoas com bom feitio ficam sempre felizes com qualquer coisa que aconteça. Eu nunca fico feliz com 7qualquer coisa que aconteça, só quando acontece mesmo o melhor que seria possível”.

 

E ainda…

“Quando decidi ir para a especialidade de oftalmologia passei de ser um aluno médio para ser um dos melhores alunos do curso e isso devo-o, sem dúvida, aos excelentes professores que tive. E eu acho que a Faculdade de Medicina necessita de se rever nesses tempos e de rever o tipo de professor, aquele que sabe que o aluno vai às aulas, que trabalha, que o demonstra no exame e que é capaz de tirar o melhor do aluno.”
“Quando se começa a operar doentes que estão a caminho de uma cegueira irreversível e conseguimos reverter essa situação, isso dá-nos uma força enorme. É um orgulho, vaidade não. Porque não fazemos mais do que devemos. Mas sempre atentos ao detalhe. Quando operamos o doente nunca podemos perder nada daquilo que o doente pode ganhar com a cirurgia. Na medicina, se o médico não consegue fazer bem ao doente também não lhe deve fazer mal. Há um slogan até que eu sempre adoptei, nós trabalhamos para ser os melhores. Tem de haver da nossa parte uma força, um querer e uma persistência que nos leva a conseguir recuperar tudo o que uma cegueira leva a perder.”
“O Centro Cirúrgico começou por ser um projecto meu mas hoje é das pessoas que aqui trabalham e que todos os dias lutam para que os doentes sejam bem tratados. Quando o pensámos foi a pensar primeiro em segurança, segundo em funcionalidade e terceiro em
estética. Era um conceito que não estava associado à medicina. Escolhemos para trabalhar connosco sempre os médicos mais competentes, mais honestos e que façam a diferença na relação com um doente, pelos conhecimentos teóricos que têm, pela preocupação de estar atentos ao detalhe…todos os que pensarem dessa maneira serão sempre bem-vindos a esta casa.”
“Olho para os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) como um bem extremamente necessário para que exista boa privada em Coimbra. Os HUC formam bons médicos, por isso desejo que esta instituição não se transforme num hospital regional, mas que seja sempre ‘O’ grande hospital deste país.”
“Conheci no ano passado um americano, Robert Weil, professor na Universidade Nova de Lisboa, e perguntei-lhe porque veio para Portugal. Ele respondeu ‘porque é o único país que constrói estátuas aos poetas”. Fiquei maravilhado com esta definição. Quando cheguei a Coimbra pensei: mudava duas estátuas aqui: a de D. Dinis, que foi o rei fundador da universidade, e na estátua, o rei está de costas voltadas para a Universidade; e a de Camões, a quem fizeram uma escultura ridícula, que depois mudou para a Sá da Bandeira, mas não está melhor. São dois poetas que estão muito mal tratados em Coimbra.”
“Coimbra tem uma oftalmologia ao nível das melhores do mundo. Mas, o que Coimbra precisa, como toda a medicina, são actores e não figurantes. Quero uma medicina de actores e de liberdade para os doentes poderem escolher. Há um abismo enorme entre ser um grande actor ou ser um figurante.”

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