Coimbra  26 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Coimbra: “O Despertar” celebra hoje 102 anos

15 de Março 2019

“O Despertar” acaba de completar 102 anos de vida, data que é celebrada hoje com uma edição comemorativa.

“O Despertar” é um dos 35 jornais centenários portugueses que integram a candidatura da Associação Portuguesa da Imprensa (API) a Património Imaterial da Humanidade.

O “modesto jornal de província” apresentou-se à cidade a 02 de Março de 1917, assumindo-se como um periódico “simples”, “despretensioso” e “humilde”, que tudo prometia fazer pelo bem de Coimbra e região.

O aparecimento do novo jornal assumiu-se como um marco importante para a cidade de Coimbra e para a imprensa regional, numa altura em que eram ainda muito poucos os títulos existentes. Surgiu com a determinação de empenhar “o melhor dos seus esforços” na luta e defesa pelo desenvolvimento da região, trazendo para as suas páginas, ao longo destes mais de cem anos, os anseios de tantos e tantos colaboradores que, de forma incansável e determinada, aqui apresentaram e lutaram por aquilo que consideravam importante para esta “encantadora Coimbra, a velhinha, mas formosa, princesa do Mondego, tão decantada pelos poetas e que tão amada devia ser pelas gerações que aqui têm engrandecido o seu espírito e para quem ela tantos carinhos e sorrisos teve”.

Era desta forma que se resumiam os propósitos de “O Despertar”, num momento em que era ainda incerta a forma como seria acolhido este novo projecto editorial mas na certeza de que, apesar das dificuldades, não se baixariam os braços. “Qual será, porém, o acolhimento que espera ‘O Despertar’? O futuro o dirá; se sucumbirmos, procuraremos morrer com honra, se podermos caminhar é nosso intuito seguir sempre a áspera estrada do dever”, lê-se na primeira edição, onde se garante também que “confiantes no futuro, avante iremos”.

E cá estamos nós, 102 anos depois desta primeira edição ter dado à estampa. “O Despertar” nasceu na “Baixa” de Coimbra, com as suas oficinas a funcionarem na Rua Pedro Rocha, perto do Pátio da Inquisição, até inícios de 2015. Desde então funciona na rua de Adriano Lucas, na Estrada de Eiras, n.º 116, Fracção D. Ultrapassado o marco importante do primeiro centenário, olhamos para o passado com orgulho e honra, certos de que este longo percurso nem sempre foi fácil, acompanhando cada época com determinação e sempre com os olhos postos no futuro.

A história deste “velhinho” mas rejuvenescido jornal continua a ser escrita a cada dia, com a mesma confiança, determinação, entrega e perseverança de tantos e tantos homens bons que, ao longo destes mais de 100 anos, se dedicaram a este projecto e o trouxeram até nós. O seu “espírito de cruzada”, que tantas vezes foi referido nestas páginas, passou de geração em geração, unindo todos aqueles que se dedicaram a esta causa.

Apesar de ser praticamente impossível enumerar todos aqueles que fazem parte desta longa história, há alguns nomes que não podem ser esquecidos. Uma palavra especial, em primeiro lugar, para o seu fundador e proprietário, João Henriques, que, em conjunto com um grupo de amigos, fez nascer “O Despertar”. Uma referência também para José Pires de Matos Miguens, o seu primeiro director, e para Ezequiel Correia, colaborador de muitos anos que o “baptizou”, escolhendo um nome que pretendia “agitar”, “despertar”, “manter com vida” a cidade e todos aqueles que aqui faziam as suas vidas.

Após a morte de João Henriques, sucedeu-lhe o filho, Mário Henriques, que acabaria também por falecer poucos anos depois. Quando se temiam anos difíceis, António de Sousa surge como “o salvador”, assumindo este projecto que acabou por se manter na família até inícios de 2008. Os filhos, António, Armando, Artur e Lúcia, deram-lhe sequência, com o jornal a envolver toda a família, incluindo o neto, Fausto Correia, que era seu director por ocasião da sua morte, a 09 de Outubro de 2007, em Bruxelas. O grande sonho que tinha de celebrar o centenário do jornal foi-lhe “roubado” pelas imprevisibilidades da vida mas houve quem o mantivesse vivo e lhe desse sequência, mostrando que a amizade é um compromisso que vai para além da vida. O jornalista Lino Vinhal assumiu o projecto em 2008 e foi com grande emoção e alegria que toda a vasta “família” de “O Despertar” comemorou, a 02 de Março de 2017, os seus primeiros 100 anos de vida ininterrupta.

EDITORIAL

“O Despertar”: 102 anos

Mais um ano se passou na vida de “O Despertar”. São já 102 anos a noticiar Coimbra, a tomar posição por algumas das suas causas mais nobres, a lutar por ideais, sempre na convicção de bem defender os interesses das suas gentes, da cidade, concelho e região, muitas e muitas vezes o próprio país. Passaram por aqui muitas gerações, todas elas irmanadas nesse propósito de servir e defender o interesse público. Pelas páginas de “O Despertar”, primeiro, nas páginas de outros Jornais depois, passou toda a história de Coimbra e sem a sua leitura nunca o nosso passado colectivo será bem compreendido e orgulhosamente assumido. Nestes 102 anos que hoje evocamos, uma coisa fique clara: nós, a geração actual que garante a continuidade do Jornal, tem muito orgulho no seu passado e muita honra em continuar o seu trabalho e o seu sonho de servir a causa pública. Não contem connosco para criar etapas fracturantes entre gerações, porque aqui, neste Jornal, não se pensa nem se trabalha assim. Aqui, na humildade do que somos e de quem somos, vemo-nos como uma família, sentimo-nos como tal, vivemos em partilha afectiva e de ideais, respeitamos o mesmo tipo de objectivos, alimentamos os mesmos sonhos. Todos os dias vemos entrar portas adentro pessoas, algumas vindas de longe, fazendo questão de pagar pessoalmente a assinatura do Jornal, gesto que repetem anos a fio, alguns há mais de 50/60 e até 70 anos. Não ver nestes gestos, nesta dedicação e neste esforço, uma mensagem de apoio e de estímulo, é não ler da vida os sinais que ela nos envia a cada momento.

Claro que o caminho – e este é um dos mais longos do país em termos de Jornais – não é fácil nem o terá sido nunca. Sempre conhecemos o/s Director/es deste Jornal a lutar com dificuldades, a imaginar condições de sobrevivência nesta ou naquela iniciativa, alimentando-se do sonho de amanhãs diferentes mas tirando muitas vezes da sua própria boca para que ao Jornal fossem garantidas condições de continuidade. Escolhos que se mantêm, conhecidas que são as dificuldades com que vive a generalidade da imprensa portuguesa, da nacional à regional. Mas nem por isso deixamos de prescrutar o horizonte em busca de sinais de esperança.

Viver, e viver muito tempo, é magoar os pés nas pedras da calçada. Por muito que cada um faça de bom no seu posto de trabalho, ninguém consegue evitar os escolhos que vão surgindo pelo caminho, uns naturais e normais, outros alimentados por quem vive a criar dificuldades aos outros. E Coimbra tem algumas instituições que gostam exactamente disso: criar dificuldades. Instituições e pessoas. Algumas destas, quando colocadas em posições que lhes conferem algum poder de decisão, usam e abusam dessa faculdade para se tornarem notadas e se convencerem que são importantes.

Ao atingir os 102 anos, “O Despertar” dá por terminadas as iniciativas evocativas do centenário. O programa previamente delineado foi todo cumprido, faltando apenas concretizar o livro com que a Câmara Municipal de Coimbra, pela mão do seu presidente, gentilmente quis assinalar a efeméride. Seria uma forma simpática, oportuna e adequada para reconhecer o trabalho e o percurso deste Jornal. Quiseram as circunstâncias que essa obra não tivesse chegado a ver a luz do dia, apesar de ter sido adjudicada e editorialmente conseguida. O Pelouro da Cultura achou por bem não apoiar este trabalho a tempo de ele ser editado na altura em que fazia mais sentido. Registamos o ato inamistoso, ao nível de algumas outras atitudes que igualmente não compreendemos. Mas a seu tempo, se tempo houver, voltaremos ao assunto.

A Coimbra, à região e a todos quantos estiveram com este projecto ao longo da sua longa vida o nosso muito obrigado.

A Direcção