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“Coimbra não é uma acaso, é um destino!”

1 de Dezembro 2018

Publicado a 18 de Outubro de 2018, na edição n.º 946

 

Nome: AMADEU José de Figueiredo CARVALHO HOMEM
Naturalidade: Satão – Viseu
Idade: 73 anos
Profissão: Historiador; Professor catedrático reformado da Universidade de Coimbra
Passatempos: Escrever
Signo: Carneiro
“Regresso ao ponto de partida e o tempo passou sobre mim , a fazer negaças e a dizer que a soberania é dele e só dele. Mas o regresso de uma natureza orgânica ao seu ponto de partida encontra-se mediada pelo tempo. E esse cobra o juro, no corpo e no íntimo dos seres vivos, da sua passagem.” Historiador, escritor, pedagogo, adepto assumido de ideais republicanos mas, acima de tudo, um homem enlevado com todas
as formas de cultura do país onde nasceu. Amadeu Carvalho Homem escreve sobre o tempo mas garante que esse não alterou em nada os princípios que, desde tenra idade, defendeu e continuará a preservar até “ao derradeiro exercício da sua última órbita”. Fá-lo-á, acrescenta, pela “divulgação de cultura, beleza, dignidade, justiça, até ao momento da minha extinção e enquanto a cabeça mo permitir”.
Nascido no Satão no seio de uma família de classe média, iniciou os seus estudos na escola primária em Trancoso ao acompanhar o pai nas suas “transições geográficas” a nível profissional, um tanto ou quanto frequentes. Desta cidade, recorda, “um território mágico, não só pela sua estrutura mas porque, na altura, havia muita neve, formações de gelo que pendiam das árvores e eu nunca mais me esqueci daquilo, do sítio onde vivi os anos menos maduros da minha vida”. Passou depois, pelas mesmas razões, por S. Pedro do Sul onde concluiu o sétimo ano (o equivalente ao actual ensino secundário). Chegada a altura de ingressar no ensino superior optou pela licenciatura em Direito por insistência da mãe: “ela queria fazer de mim um jurista e ainda cheguei a andar três anos neste curso sem perder nenhum ano, mas aquilo para mim foi terrível.
Cheguei ao pé dos meus pais e disse-lhes ‘ ou vou para aquilo que realmente gosto ou mais vale ir já trabalhar’. Fiz as greves académicas decorrentes da crise de 69 não comparecendo aos exames e foi nessa altura que fui para a tropa e lá me dediquei às áreas que ainda hoje cultivo e nas quais verdadeiramente me afirmei e invisto… a cultura, a teoria, história e a filosofia”, esclarece.
Concluiu, em 1972, a licenciatura em Filosofia defendendo a sua tese de doutoramento já em período pós 25 de Abril, ao encontro da opção republicana que desde muito cedo tinha feito: “Teófilo de Braga. Filosofia e pensamento político-social”. Confessa ter estudado muito mas estabelece uma diferença clara entre o ensino das letras e o das leis, a mesma dissimilitude que se verifica no nível cultural da cidade de Coimbra entre o tempo em que era estudante e os tempos que correm: “as técnicas de ensino da Faculdade de Letras não se comparavam em nada com as de Direito porque aqui os professores queriam a palavrinha que lá estava, o memorizar dos artigos do código. Nas Letras não havia sebentas, havia livros, e até dizíamos com muita empáfia aos nossos colegas de Direito que eles estudavam por sebentas enquanto nós por livros, ou seja, tínhamos de coleccionar ideias e de as relacionar. Mas na altura Coimbra era um pólo cultural, com ciclos de cinema, de teatro com os melhores espectáculos que possa imaginar e eu não falhava um. Era um ambiente culturalmente vivo e estimulante. E grande parte disso perdeu-se. Coimbra já não é esse pólo cultural, pelo menos a nível universitário. Admito que exista vida cultural mas se existe é fora da academia.
Por esta altura já estava no mercado de trabalho, em Aveiro, e aí chegou, como todas as pessoas na altura, “de forma natural e simples”, pela resposta a um anúncio de jornal para a função de Conselheiro de Orientação Profissional, “uma espécie de seleccionador de capacidades profissionais, através da execução de testes e entrevistas psicológicas”. Em finais da década de 70, foi desafiado por um antigo professor seu a integrar o Instituto, que hoje já nem existe, de História de Teorias das Ideias da Faculdade de letras da Universidade de Coimbra (UC). Hesitou na altura pela falta de garantias mas acabou por aceitar e por lá fez todo o percurso até ao topo da carreira como professor catedrático. Primeiro foi nomeado Professor Associado do Grupo de História da Faculdade de Letras. Em 1998 prestou provas públicas de
habilitação ao título de Agregado, tendo sido aprovado por unanimidade, chegando ao topo da carreira em 2003. Um percurso que, lamenta, “foi do maravilhamento à profunda decepção. Adorei ser professor e ensinar milhares de alunos. Gostei das primeiras gerações, gente que sabia estar com um cérebro maduro. À medida que os anos passaram e que começaram a entrar na universidade os ‘jovenzinhos’, comecei a
reparar que eles não sabiam nada nem queriam saber. E a desilusão foi tanta que quis sair antes da minha jubilação. Já não suportava a arrogância dos alunos e menoridade mental dos alunos.” Foi esse desecanto que o levou, por opção própria, a “fazer as contas à vida” e a deixar de leccionar. Decorria, então, o ano de 2012. A convite do, na altura, Presidente da República, Mário Soares, proferiu nos Açores
uma alocução sobre a vida e obra de Teófilo Braga mas, das distinções que teve, destaca a da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída por Jorge Sampaio.
E a razão faz questão de frisar: “por não me ter sido atribuído por isto ou por aquilo mas sim (nas palavras de quem me concedeu essa honra) pelos contributos que prestei à historiografia portuguesa e sobretudo à progressão da história da República em Portugal.”
Quanto aos últimos anos e aos projectos que hão-de vir ainda não denota “os juros de passagem” cobrados pelo tempo. Entre Coimbra e o seu “recanto espiritual em Faro com vista para o mar” continua a escrever. Tem vários livros e artigos sobre a história contemporânea portuguesa publicados em revistas universitárias e um livro de poesia, “A madura estação”. Ainda este ano, desvenda, será publicado a sua próxima obra literária de contos, “Este levíssimo quotidiano” e, de cariz já académico, um livro sobre Ramalho Ortigão. “E assim morrerei de pé, que é como quem diz, cumprirei o meu propósito, concluirei o meu destino.”

E ainda…

“A minha época de licenciatura foi uma época mágica. Fiz o luto académico mas não fui activista académico. Estava na tropa e não se podia brincar senão pagava-se caro naquela altura. Não fiz exame nenhum. Foi na tropa que estudei como estudante voluntário mas não ia às aulas. Tinha duas amigas que se formaram comigo e que me mandavam por correio os apontamentos todos. E depois ficavam escandalizadas porque eu tirava melhor notas que elas. [risos] É importante dizer porque isto é típico de uma geração, hoje seria impossível. Hoje já ninguém é solidário porque impera uma concorrência de tal ordem no domínio do estudo e da progressão académica que impossibilita uma situação destas.”
“Os namoros na altura eram completamente diferentes daquilo que são hoje. A minha geração talvez tenha sido aquela que mais se divorciou. Porque nós vínhamos marcados e massacrados pelo puritanismo do Estado novo. Não tivemos experiência de natureza física. Portanto quando passámos ao estado de liberdade éramos predadores natos. Nesses anos 60 foi quando começou a haver alguma abertura mas ainda com muitos vestígios de passado. As mulheres nessa altura começaram a frequentar cafés, porque antes era um espaço exclusivamente masculino, mas ainda assim havia muitas colegas que se encontravam em colégios de freiras com horário controlado. Eram
namoros eram difíceis.”

“Coimbra é um mito. Tem uma carga tamanha vinda do passado, da literatura, na parte simbólica e até mesmo no modo de estar. É uma cidade única e estou convencido que o vai continuar a ser. Mas não posso omitir um dado…Coimbra mudou consideravelmente desde os meus tempos de estudante e o que foi depois e o que é hoje, nomeadamente em termos de praxe académica. Na minha altura a praxe não vexava ninguém, era uma forma de integração. O que se passa hoje na sua maioria é duma indignidade que nem me permite qualificar. Coimbra vai continuar a afirmar-se, a ser um pequeno meio, e nem deve ter aspiração a metrópole. Porque esta cidade é isto e é bom que o preserve. Uma cidade que se consegue percorrer toda a pé se a pessoa tiver boas pernas. Coimbra não é uma acaso, Coimbra é um destino!”
“Em termos do ensino em Coimbra estou preocupado, não com a UC que tem uma espessura e densidade de tradição e de saber fazer universitário muito sólido. Com este reitor ou outros que hão-de vir, a UC irá impor-se. Espero que venha um dia uma reitora para que a universidade se liberte de um sarro tradicionalista que tem vindo a paralizá-la (a UC já podia ter tido uma reitora ou até duas talvez mas não teve porque imperou o princípio machista). Se os próximos reitores ou reitoras souberem fazer as coisas (e eu acho que sim( Coimbra vai ser um grande pólo de ensino. Já foi mas deixou de ser e agora acho que está no bom caminho para regressar ao que, em tempos, já foi.”

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