Coimbra  27 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

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Coimbra: Investigadores concluem que insecto da Austrália reduz potencial da acácia

28 de Abril 2021 Jornal Campeão: Coimbra: Investigadores concluem que insecto da Austrália reduz potencial da acácia

Vários investigadores de Coimbra concluíram que o insecto da Austrália está a reduzir de forma significativa a capacidade de propagação da acácia-de-espigas, uma das piores invasoras no litoral português.

Em 2015, Portugal foi o primeiro país da Europa continental a efectuar a libertação intencional de um agente para controlar biologicamente uma planta invasora, depois de mais de uma década de estudos efectuados por uma equipa do Centro de Ecologia Funcional (CFE), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e da Escola Superior Agrária (ESAC), do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC).

Os investigadores do CFE e da ESAC efectuaram a libertação deste agente de controlo biológico, uma pequena vespa australiana formadora de galhas (Trichilogaster acaciaelongifoliae), muito específica, para controlar a acácia-de- espigas (Acacia longifolia), desde 2015, em 61 locais ao longo da costa portuguesa.

Esta introdução foi depois acompanhada pela equipa, nos anos seguintes, para estudar o estabelecimento, dispersão e efeitos ao longo dos primeiros anos pós- libertação do insecto.

Os resultados dessa monitorização, agora publicados no ‘Journal of Environmental Management’, mostram que, embora o estabelecimento inicial “tenha sido limitado pelo facto de o agente ter sido introduzido a partir do hemisfério sul, as taxas de estabelecimento aumentaram muito após a sincronização de seu ciclo de vida com as estações do hemisfério norte e fenologia da acácia-de-espigas. Actualmente observa-se um crescimento exponencial das populações, que se afastam cada vez mais dos locais de libertação. Observou-se que passados poucos anos os ramos de acácia-de-espigas com galhas de Trichilogaster acaciaelongifoliae diminuíram a produção de vagens (menos 84%), sementes (menos 95%) e ramos secundários (menos 33%)”, sublinham Hélia Marchante e Elizabete Marchante, coordenadoras do estudo.

A acácia-de-espigas, esclarecem, é uma das plantas invasoras “com maior dispersão ao longo do litoral português, onde forma extensas áreas monoespecíficas; produz milhares de sementes anualmente, que se acumulam no solo por várias décadas, e promovem a rápida reinvasão de áreas intervencionadas. A vespa australiana introduzida promove a formação de galhas nas gemas florais e vegetativas da acácia-de-espigas, reduzindo o seu potencial invasor”.

Francisco López-Núnez, investigador do CFE e primeiro autor do estudo, observa que “apesar de a introdução e estabelecimento deste agente de controlo biológico ainda ser recente e ter distribuição limitada ao longo do território, os resultados agora publicados confirmam o estabelecimento com sucesso do agente em Portugal e mostram que este está a afetar de forma negativa a capacidade da acácia-de-espigas se reproduzir e crescer”.

As espécies invasoras “são uma das principais causas de perda de biodiversidade a nível global, promovendo também prejuízos elevados a nível económico e de saúde humana. A gestão destas espécies é um desafio complexo e muito dispendioso. O controlo biológico de plantas invasoras é uma ferramenta chave para a gestão mais sustentável destas espécies, mas ainda é muito pouco utilizado na Europa”, concluem Hélia Marchante e Elizabete Marchante.