Coimbra  26 de Junho de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Coimbra: Escola da Noite ‘mergulha’ na obra de Augusto Baptista

6 de Junho 2019

A Escola da Noite estreia, hoje, em Coimbra, “O Homem Que”, instalação-espectáculo que mergulha na obra de Augusto Baptista, autor largamente desconhecido, cujo trabalho vai da fotografia ao micro-conto, do tangram aos enigmas.

A obra de Augusto Baptista, do Porto, multiplica-se por muitas coisas. Foi fotojornalista, escreve micro-contos e outros textos que lança em pequenas edições de autor, conta mais de 2 000 enigmas que aponta no seu blogue, editou livros de desenhos de garrafas e de bigodes – “pancadas”, diz – e a paixão pelo tangram, que tem desde criança, já o levou a lançar livros em torno deste jogo, um deles em que fez 1 111 figuras originais de gatos através das sete peças geométricas (cinco triângulos, um paralelogramo e um quadrado) do tangram.

Perante um universo tão diverso, afastado de qualquer circuito ou cânone, A Escola da Noite decidiu montar uma instalação-espectáculo que pudesse dar luz a uma obra múltipla de um autor que, segundo o encenador António Augusto Barros, lembra as telas de Marc Chagall, nomeadamente “A Aldeia e Eu”, por ser uma espécie de voo “que parte, mas que continua radicado no real, em que o vórtice está na Terra, está na raiz”.

No espectáculo de 50 minutos, que leva pela primeira vez a obra de Augusto Baptista a cena, quatro atores usam as sete peças do tangram como cenografia, pulando de texto em texto, entre enigmas e micro-contos, onde o absurdo e o humor estão presentes, focando-se na dimensão “mais existencial” da obra do artista, que acompanhou grande parte do percurso d’A Escola da Noite como fotógrafo de cena.

Há um texto indecifrável em que Augusto Baptista se socorre de velhos dicionários para contar uma história com palavras que poucos conhecem, um pequeno conto de dois cavalheiros na porta de entrada de uma arena onde um leão os espera, uma mão que se desprende do corpo num aperto – “Que havemos de fazer? É a vida” -, ou um homem que joga tangram, pequeno texto que explica a relação do artista com o jogo.

Assim que o público chegar ao Teatro da Cerca de São Bernardo, verá a fachada do edifício com uma tela gigante repleta de enigmas do autor. Dentro do espaço, haverá duas exposições de fotografias de Augusto Baptista, desenhos, outros enigmas, outros textos, para serem descobertos antes e depois do espectáculo.

António Augusto Barros salienta que os enigmas, com perguntas à primeira vista ingénuas, têm outros sentidos, e foi essa viagem “do prosaico ao sublime” que lhe interessou na construção da instalação-espectáculo.

“Interessou-nos muito introduzir esta linguagem geométrica, esta geometria poética ou esta poética que se desprende da geometria” e que tem ligações ao próprio surrealismo, salienta o encenador.

Pelo Teatro da Cerca de São Bernardo, o público vai ser interpelado por enigmas, como “O tempo tem frente e verso?”, “O salto no escuro é modalidade olímpica?”, “O que fica da mão, depois do adeus?”, “Fere mais a palavra ou o silêncio?”, “Um pôr-do-sol, em média, dá quantos ovos?”.

São enigmas que Augusto Baptista vai apontando. “Eles é que vêm ter comigo. Não ando atrás deles. Tenho que estar atento e anotá-los”, conta o escritor, que falava aos jornalistas depois de um ensaio geral.

Sobre a sua obra, diz que as interrogações e o mistério que aparecem nos textos e enigmas não têm nada a ver com uma ligação que pudesse ter com o transcendente.

“Não sou da mística. Sou um gajo da matéria, sou um gajo do chão, um tipo que está muito atento aos outros, às pessoas, que vai com os ouvidos abertos para ouvir os sons, para ouvir o palavrão, para ouvir a vida e vê-la”, vinca Augusto Baptista.

“Histórias de Coisa Nenhuma e Outras Pequenas Significâncias”, “O Caçador de Luas”, “Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos”, “Floripes Negra”, “Humor das Multidões” são alguns títulos de Augusto Baptista, a par de “Tangram-Humanas Figurações”, “Tangram Art”, “Tangram Design” e “Tangram Cats”. É também autor de “O Medo Não Podia Ter Tudo”, com Francisco Duarte Mangas.

A 67.ª produção d’A Escola da Noite, que estreia hoje, pelas 21h30, estará em cena até ao próximo dia 30. Às quintas-feiras a sessão é às 19h00, às sextas e sábados, às 21h30 e, aos domingos, às 16h00.

 

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