Coimbra  21 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

“Coimbra é uma cidade parada no tempo”

2 de Março 2018

Perfil publicado a 08 de Fevereiro de 2018, na edição n.º 912

 

Nome CARLOS Manuel Batista FIOLHAIS

Naturalidade Lisboa

Idade 61 anos

Profissão Físico, Professor Universitário e Ensaísta

Passatempos Ler e viajar

Signo Gémeos

Podia chamar-se António dado ter nascido em Lisboa na véspera das comemorações de Santo António, mas os pais escolheram chamar-lhe Carlos, talvez, graceja, pela etimologia da palavra que o liga às suas origens provincianas: “Carlos significa guerreiro e homem do povo, não sei se o meu pai sabia na altura (acho que não) mas gosto de pensar que sim.”

Contrariando o sentido normal do êxodo, ele e os pais mudaram-se de Lisboa para Coimbra quando terminou a 1ª classe. Com apenas quatro anos já sabia ler os números nas portas, contar e até há quem diga que já desenhava o Rio Tejo em papel vegetal. Talvez por isso tenha pertencido aos quadros de honra das escolas por onde passou tendo até recebido uma bolsa da Fundação Gulbenkian.

Durante os estudos jogava xadrez, desenhava cartoons, fazia o jornal da escola, e até explorava grutas. Desse tempo recorda histórias curiosas: “Eu e um grupo de amigos fundámos o Centro de Espeleologia de Coimbra e um dia fiquei preso nas grutas de Mira D’Aire. Consegui sair com a ajuda dos outros, todo rasgado e maltrapilho, mas vivo. No último ano de liceu foi à escola o Ministro Veiga Simão e eu, como representante dos alunos, apresentei-lhe o nosso jornal. Ele, instintivamente, mete a mão ao bolso e diz ‘quanto é que precisam?’,” conta divertido. “Lembro-me da cara do Reitor a dizer apressado ‘Oh Sr. Ministro esteja descansado que eu resolvo isso com os rapazes!’ Mas o gesto do Ministro foi espontâneo, a querer ajudar a rapaziada, o que não era normal numa altura de disciplina férrea…”

Em 1973, entrou na Faculdade em Ciências e Tecnologia por achar ser onde iria exercitar a sua curiosidade e a vontade de descobrir sempre mais.

Hoje recusa-se a dizer aos alunos para escolherem o curso que lhes dá mais empregabilidade, um factor que, sublinha, deve ser tido em conta mas não deve ser o mais importante. Foi talvez por isso que, quando o pai, sargento da GNR, pouco habituado a ouvir falar em termos científicos, lhe perguntou “Física? E isso dá para quê?”, ele lhe tenha respondido apenas “Logo se vê…”. Hoje, esclarece, teria dado outra resposta mas, naquela altura, Portugal ainda era um país fechado: “Eu lá imaginava a transformação que Portugal ia ter? Hoje recomendo aos jovens ‘vão atrás do vosso sonho, daquilo que farão por gosto, o resto virá por acréscimo’, porque o mundo é cada vez mais imprevisível e uma pessoa pode ter formação numa área e depois pode desempenhar tarefas distintas à formação que tirou e sair-se muito bem nisso.”

Em 1975 foi a Londres a um congresso juvenil de Ciência e, desde então, a vida de Carlos Fiolhais tem girado à volta desta área. Fez o curso de Física Teórica em cinco anos. Começou a dar aulas na qualidade de assistente ainda frequentava uma pós-graduação nessa área.

Estava a terminar o curso quando foi convidado a doutorar-se na Alemanha pois uma comissão vinda de lá pretendia fazer um intercâmbio com Coimbra. Aprendeu alemão durante um ano, enquanto dava aulas e completava os estudos. Mudou-se em 1979 para Frankfurt onde viveu três anos, e durante esse tempo escreveu a tese em alemão, ensinou português aos filhos dos emigrantes e a estrangeiros, e chegou até a ser tradutor de várias entidades. Em Dezembro de 1982 fez o exame de Doutoramento.

Numa altura em que começavam a aparecer os primeiros anúncios de computadores, Carlos Fiolhais foi o primeiro a ter um computador pessoal na Universidade de Coimbra e dedicou-se a levar a Ciência para fora: “Dei muitas palestras em várias escolas…o que eu gastei de sola! O meu critério era convite feito, convite aceite. E assim começou a estabelecer-se alguma fama. Contactei o editor da coleção ‘Ciência Aberta’, fazendo criticas, e ele telefonou-me (descobriu o meu nome na lista telefónica…ainda existia na altura!). Encontrámo-nos e foi um encontro que dura até hoje. Hoje sou Diretor dessa colecção que já conta com mais de 30 anos. Portanto, já dirigi uma biblioteca mas também escolho livros, que é uma coisa que gosto muito. Eu dei aquela resposta ao meu pai mas, no dia em que tomei posse como Diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra, o meu pai foi lá, e eu não disse nada, mas pensei ‘pai, a Física serve, por exemplo, para ser Diretor de uma biblioteca histórica e uma das mais bonitas do mundo.”

Em 1991 saiu o seu primeiro livro, ‘Física Divertida’. Hoje conta com mais de 50, na maioria livros escolares. Criou o Centro de Ciência Viva ‘Rómulo’, ganhou recentemente o prémio Ciência Viva e chegou até a ser condecorado, em 2005, com a ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Jorge Sampaio (“Olha pai dá para escrever livros, ajudar os outros a aprender coisas novas e até para ser condecorado”).

Hoje, acumula com as funções de físico, professor catedrático (desde o ano 2000) e ensaísta, a de empresário, após ter fundado a Coimbra Genomics, que visa decifrar o genoma humano para médicos. Ainda assim, na Ciência e na Física, assim como a nível de concretização pessoal, não tem dúvidas, ainda há muito a ser feito: “Quero escrever mais livros e fazer crescer mais o ‘Rómulo’. Quero levar Coimbra ao mundo. Quero transformar esta cidade numa grande antena emissora. Se me perguntam, se o meu pai me perguntasse hoje, o que tenho feito ao longo da vida com a Física? Hoje eu tinha a resposta na ponta da língua: tenho feito o que posso nos mais variados sectores. E quem faz aquilo que pode, a mais não é obrigado.”

E ainda…

Porquê Física? Não era aquilo que eu sabia mais mas eu achava que tinha segredos para descobrir, em particular na Física moderna: os mistérios do átomo, do núcleo atómico, ou da constituição das coisas. Algumas respostas, ainda que parciais, eu já encontrava em livros que lia muito na altura na Biblioteca Municipal de Coimbra. E por isso é que, mais tarde, dirigir uma biblioteca foi uma forma de pagar aos outros o que os outros em tempos me tinham dado a mim.”

Regressei em Dezembro de 1982, ainda Portugal não tinha integrado a União Europeia. Não havia Internet, nem telemóveis…os telefonemas eram uma epopeia. Na Alemanha eu recebia as noticias de Portugal através do jornal que se chamava exatamente ‘O Jornal’. Ia por via aérea e demorava cerca de 3 dias a chegar. E lia-o como se fosse novo. Não havia a circulação rápida de informação de hoje em dia.”

Os anos 80 e 90 são anos de grande esperança da Ciência. E eu de algum modo cavalguei nessa onda. Em Portugal nasceu nessa altura a coleção ‘Ciência Aberta’ da editora Gradiva. E eu, além de começar a fazer sessões nas escolas, dava aulas divertidas onde até anedotas inventava e havia pessoas que levavam namorados e primos até para assistir a essas aulas. Era um individuo jovem, com muita energia, desempoeirado, que tinha vindo de fora e não tinha aquele ar solene dos professores. No início até me fazia confusão chamarem-me Sr. Professor….quer dizer, eu tinha apenas 26 anos.”

Estive à frente do centro de informática da UC. Só havia um grande computador. Depois começámos a montar computadores pessoais e criámos um centro de Física Computacional. E hoje se calhar ninguém valoriza isso. Mas, na ligação da UC à Internet, eu estava lá. Mais tarde, nos anos 90, as primeiras páginas web aqui foram feitas por nós. Nós vivemos uma história do ponto de vista tecnológico muito rico, e eu vivi essa historia. Páginas da universidade na Internet? Hoje em dia é trivial. Ninguém pode viver sem isso. Mas na altura era a primeira pagina web da UC!”

Gosto muito do meu país. Gosto muito da minha cidade, Coimbra, apesar de ela estar muito mal tratada. Tenho a impressão que os nossos governantes não gostam de Coimbra. As pessoas aqui têm falta de visão, são pequenas, só pensam no seu umbigo, não se juntam a outras para levar projetos em frente. Aqui vai cada um para seu lado. Vejo bibliotecas modernas em vários lados mas aqui não e Coimbra tem todas as condições para ser um sítio de referência na cultura e na ciência. Coimbra não apresenta a mínima capacidade de reivindicação. Fica aquém das suas potencialidades, acomoda-se. É uma cidade parada no tempo. Tem coisas muito boas mas não estão valorizadas. Ainda no outro dia comprei um livro de fotografia com sítios fantásticos do país e Coimbra não estava lá. Porquê?”

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