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“Coimbra é privilegiada mas está a degradar-se”

7 de Setembro 2018 Jornal Campeão: “Coimbra é privilegiada mas está a degradar-se”

Perfil publicado a 07 de Junho de 2018, na edição n.º 929

 

Nome: JOSÉ MANUEL Monteiro de Carvalho e SILVA

Naturalidade: Pombal

Idade: 58 anos

Profissão: Médico, Professor, Vereador da Câmara Municipal de Coimbra e Ex-Bastonário da Ordem dos Médicos

Passatempos: “Tudo o que faço hoje porque faço com gosto”

Signo: Virgem

Nasceu em Pombal mas tinha apenas oito anos quando se mudou para Coimbra, juntamente com os pais e os quatro irmãos. Frequentou a escola primária de Santo António dos Olivais e concluiu o secundário na, denominada hoje, Escola Secundária José Falcão. Em 1977 ingressou no curso de Medicina na Universidade de Coimbra após ter concluído um mês de serviço cívico no Alentejo, prática recorrente incutida aos jovens no período pós 25 de Abril. A escolha que fez aquando o acesso ao ensino superior, explica, deveu-se a duas razões fundamentais: “Na altura o meu irmão mais velho teve uma complicação de saúde e havia alguma dificuldade de acesso aos médicos. E penso que essas duas coisas me tenham influenciado a seguir medicina”, justifica o médico.

Terminada a licenciatura em 1983, a especialidade a escolher, afirma, não poderia ter sido outra: “Foi a que sempre quis. A Medicina Interna é a medicina no seu estado mais abrangente, com menos técnicas mas mais generalista e conhecimento transversal. Hoje, provavelmente, se pudesse escolher, optava pela Medicina Geral e Familiar porque acompanha as pessoas desde antes do nascimento até do dia em que morrem, mas na altura não existia como especialidade”.

Esteve cinco anos em Medicina Interna nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), fez o mestrado em Saúde Ocupacional e trabalhou durante dois anos no Instituto Português de Oncologia, concluindo com distinção, por esta altura, o doutoramento focado no tema do colesterol e regressando depois aos HUC. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Coordenador da Consulta de Lipidologia dos HUC, Pró-Reitor da Universidade de Coimbra durante um ano, Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos nos triénios 2005-2007 e 2008-2010 e Bastonário da Ordem dos Médicos durante seis anos, após uma reeleição sem adversários. Em 2000, escreveu o seu primeiro e único livro, “Colesterol, Lípidos e Doença Vascular” sendo também autor ou co-autor de cerca de 600 trabalhos científicos apresentados ou publicados em congressos ou revistas nacionais e internacionais. Um percurso notável todo ele feito numa cidade que considera ser privilegiada mas que, sublinha, se “habituou a viver à sombra da fama”. Uma realidade que, segundo o médico, poderá vir a ter efeitos dramáticos. “Coimbra, em relação à saúde, sempre foi uma cidade privilegiada mas é uma cidade que se acomodou graças a ter a sua grande universidade e dois grandes hospitais. Particularmente acomodada está a Câmara Municipal de Coimbra, que vive à sombra dos indicadores sociais do concelho e tem a sorte de ter uma grande marca sem nada fazer para desenvolver a cidade. De 2001 a 2016 Coimbra perdeu 41% dos jovens residentes entre os 15 e os 34 anos e isto que vai ter efeitos dramáticos. Coimbra tem vindo a descer no ranking nacional das cidades embora mantenha uma marca com potencial enorme. Mas é a marca consolidada, que já vem de há muitos anos. É uma marca que sobrevive apesar do mau funcionamento da autarquia. Por força da sorte, das circunstâncias, por ter sido a primeira capital, por termos a universidade…”

O espírito interventivo que o caracteriza considera ser de índole educacional e genético. A preocupação com questões sociais levou-o a liderar o movimento independente Somos Coimbra numa atitude que, reitera, traduz a luta de um grupo de pessoas que, acima de tudo, é apaixonada pela cidade onde vive: “É evidente que uma pessoa que tenha o mínimo de consciência social, que analise estas questões, que goste da sua terra, não pode assistir pacificamente à sua degradação. A região já perdeu 25% dos alunos em idade pré-universitária. Coimbra não tem capacidade competitiva, não atrai grandes investimentos, o centro hospitalar está a ser asfixiado financeiramente, qual é o futuro de Coimbra? Quem se preocupa, quem gosta da sua terra não pode assistir pacificamente à perda progressiva de influência que Coimbra está a ter no panorama nacional por força da adinamia da autarquia.”

Hoje, José Manuel Silva dedica grande parte do seu tempo a esta campanha sem origens partidárias, gerindo o tempo entre ela e o cargo de médico nos HUC, professor auxiliar de Medicina Interna e regente da unidade curricular de Medicina Geral e Familiar do 6.º ano da Faculdade de Medicina de Coimbra. Considera que tudo o que faz pode ser visto como um “passatempo” porque fá-lo com prazer, empenho e espírito de missão: “O Somos Coimbra é um passatempo útil que está a crescer a olhos vistos, já temos mais de 5 000 seguidores no Facebook. E é útil porque estamos a agitar e a mudar a cidade e o concelho. Ninguém nos obriga a lutar contra o sistema a troco de nada, apenas pelo sentido de pugnar por um melhor futuro para as pessoas e para o concelho de Coimbra. Depois, quando tenho tempo, dedico-me à jardinagem, aos filhos e a alguma cultura. E adoro a minha profissão. Na verdade, tudo o que faço hoje são como passatempos porque faço com gosto”.

O seu futuro, traduz-se, metaforicamente, no grande desafio da Humanidade enaltecido no livro que está a terminar de lêr, de Yuval Noah Harari, o Homo Deus – “a imortalidade, a felicidade e a divindade do ser humano”, pontos que o conduzem ao seu próximo desafio: “o meu próximo projecto, além de continuar a fazer crescer o Somos Coimbra, é actualizar o meu livro. Em 18 anos muita coisa mudou e evoluiu. Há livros a explorar comercial e negativamente a evolução científica. Durante 1750 anos as pessoas viveram praticamente com o mesmo nível de conhecimento e hoje ele duplica a cada dois anos, teve uma explosão de evolução. Tenho de escrever mais sobre o colesterol, adaptado e actualizado aos dias de hoje.”

E ainda….

“Era assistente da faculdade quando me apaixonei por uma aluna. Sempre tive pouca vida social e as circunstâncias da vida levam-nos a fazer afinidade com as pessoas com quem convivemos. Depois de fazer o último exame e lhe dar a última nota, convidei-a para lanchar e ela aceitou. Casámos tinha eu 27 anos e hoje temos três filhos. Infelizmente, faleceu de cancro da mama.”

“Hoje os jovens têm uma visão completamente diferente da Medicina Geral e Familiar porque é uma especialidade estruturada como as outras e dá uma boa formação. Portugal tem a melhor organização de cuidados primários de saúde do mundo. Lamentavelmente, por causa das restrições financeiras ao SNS, atravessa algumas dificuldades.”

“Há muitas pessoas de Coimbra que continuam alheadas da realidade e não percebem que agora esta análise da Bloom-Consulting é uma análise de branding, de marca e não de realidade. Uma marca consolidada como Coimbra é muito difícil de destruir. Mas há outras marcas a crescer. Leiria, por exemplo, não tem um tão grande hospital nem universidade mas já tem mais jovens residentes entre os 15 e os 34 anos que a nossa cidade. Neste momento tem mais futuro que Coimbra. Aveiro tem três vezes mais investimento empresarial do que Coimbra.Coimbra estagnou. Ao estagnar, regride, enquanto os outros progridem.”

Estamos a destruir criminosa e deliberadamente o SNS. A troika só veio agravar e a saída não ajudou em nada o SNS. O colega Paulo Simões fez uma tese de doutoramento onde estabeleceu o ponto de inversão do início da degradação do SNS. A grande mudança no SNS foi em 2002 e a partir daí foi sempre a degradar para abrir portas ao grande sector privado, maioritariamente estrangeiro.”

“Por exemplo, quando o Movimento Somos Coimbra apresenta uma proposta para Coimbra tomar uma posição sobre a manutenção da penitenciária no centro da cidade, sendo que vai haver uma reforma do sistema prisional e judicial…a mim deixa-me chocado que Coimbra continue a ser das poucas cidades do país a manter uma prisão no centro da cidade. E isto, mais uma vez, espelha a falta de capacidade de Coimbra de defender os seus interesses, sobretudo da actual Câmara Municipal, que nem sequer admitiu que esta proposta fosse votada. Eu liderei a ordem dos médicos durante seis anos e todas as propostas que eram apresentadas eram discutidas no conselho nacional. Discutíamos, debatíamos e votávamos. Isso para mim é democracia. Quem quer o melhor para a sua cidade não impede este debate.”

“Coimbra só vai sobrevivendo porque tem uma marca fortíssima. É preciso aproveitá-la e exponenciar. Não podemos continuar a ter uma autarquia que nada faz para além da rotina de qualquer Câmara Municipal do país. Em Coimbra confunde-se a rotina com fazer um bom trabalho. A Câmara vai fazendo alguma coisa – claro que faz, tem de fazer – mas na verdade compete-lhe fazer muito mais. Fazer um desassoreamento do Mondego com 25 anos de atraso e depois de várias cheias é trabalhar bem? Actualmente a Câmara é a grande força de bloqueio da cidade.”