Coimbra  24 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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Ciclistas de 89 e 84 anos pedalam na Lousã pelo envelhecimento saudável

20 de Setembro 2020 Jornal Campeão: Ciclistas de 89 e 84 anos pedalam na Lousã pelo envelhecimento saudável

Dois ciclistas, com 89 e 84 anos, que passaram a vida a construir estradas e na assistência a automóveis, são agora mais conhecidos, na Lousã, por percorrerem de bicicleta o caminho do envelhecimento activo e saudável.

A Lousã tem pergaminhos nas actividades velocipédicas, com provas de ciclismo ao longo do século XX, a que se juntaram nas últimas décadas eventos cicloturísticos e competições com motos de nível internacional.

Mas foi a necessidade de transporte próprio na juventude que permitiu a José Fernandes, antigo operador de máquinas pesadas, e João Francisco Carvalho, que trabalhou em estações de serviço, estarem hoje entre os reformados mais populares de um concelho montanhoso onde diariamente continuam a pedalar pela sua saúde.

Nascido em 1930, José Fernandes completa 90 anos em Dezembro.

É conhecido na zona por ‘Zé Maquinista’, epíteto que herdou do pai, José Jacinto, e que não rejeita precisamente porque ambos exerceram a profissão na antiga Junta Autónoma de Estradas (JAE).

“Nasci e baptizaram-me logo como Maquinista”, graceja, durante a reportagem da agência Lusa.

Ainda jovem, fez o curso que o habilitaria a guiar as máquinas na construção de estradas, barragens e aeroportos do país. Na empresa Alves Ribeiro, queriam que tirasse a carta de motorista de veículos ligeiros e pesados.

“Eu era o único maquinista que sabia ler”, explica, para esclarecer que trabalhou por duas vezes na construtora, antes e depois da JAE.

Sempre que era preciso, conduzia “uma camioneta que não tinha motorista destinado”, não podendo sair dos troços onde decorriam as empreitadas.

Aos 12 anos, “já tinha a carta de ciclista”, obtida na Câmara da Lousã, após José Jacinto, que

percorria grandes distâncias ao volante das máquinas da JAE, ter ensinado ao filho os sinais e regras de trânsito.

“Por necessidade e prazer”, José Fernandes faz compras, visita amigos e vai às repartições no seu veículo de duas rodas.

O Governo aponta para a existência de 7 000 quilómetros de vias cicláveis em Portugal, dentro de 10 anos, contra os actuais 2 000 quilómetros.

“Andar de bicicleta faz movimentar o corpo todo. É melhor para a saúde do que andar a pé”, defende José Fernandes.

Se estiver bom tempo, afirma, “todos os dias ando de bicicleta”, chegando a ir com outros ciclistas almoçar a Miranda do Corvo, a oito quilómetros de casa.

No regresso, na descida mais íngreme do percurso, diz que não usa travões: “É a velocidade que a bicicleta der”.

Este exercício proporciona “um envelhecimento com mais saúde”, congratula-se, enquanto lamenta que pessoas mais novas não preservem de igual modo a qualidade de vida.

Mais conhecido localmente por João Fão, o conterrâneo João Francisco Carvalho tem raízes na Ponte Velha, muito perto do local onde a mítica Estrada Nacional 2 cruza os municípios de Lousã e Vila Nova de Poiares.

O antigo operário do ramo automóvel nasceu no auge da ditadura do Estado Novo, em 1935, e faz 85 anos em Novembro.

Diariamente, percorre a vila montado na bicicleta. Teve carta de pesados, mas deixou-a caducar quando se reformou.

Só precisava dela na estação de serviço, “para experimentar os carros”, aos quais mudava o óleo, calibrava os pneus e alinhava a direcção, entre outros trabalhos.

“Eu aqui corro tudo de bicicleta”, salienta, contando que às vezes vai a Poiares e arrisca mesmo trepar a serra da Lousã. Nas subidas acentuadas ou quando está cansado, tem na bicicleta “uma bengala bestial” com que se ampara.

“Quando me falta a bicicleta, sinto logo. Aquilo dá uma saúde às pernas que é uma maravilha”, assegura.

João Malva, investigador coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, recomenda algumas actividades para um envelhecimento activo e saudável.

“Não basta dar anos à vida se esses anos vão ser de má qualidade. É sobretudo necessário dar mais vida aos anos que tempos para viver”, preconiza.

A dependência de cuidados “retira qualidade de vida e dignidade à condição humana”, cabendo à sociedade investir na prevenção, segundo o coordenador do “Ageing@Coimbra”, um consórcio que valoriza o papel do idoso na comunidade e promove “boas práticas em prol do seu bem-estar geral”.

“Devemos estimular a adoção de estilos de vida saudáveis de modo a evitar a doença”, sublinha o especialista.

Correr, caminhar, nadar e andar de bicicleta “têm um benefício muito significativo na qualidade de vida das pessoas”, com reflexos positivos na idade avançada.

João Malva, que não conhece pessoalmente José Fernandes e João Carvalho, define-os à luz dos objetivos do “Ageing@Coimbra” e das actuais políticas da União Europeia nesta área.

“São exemplos vivos de um envelhecimento de qualidade que aqui se relaciona directamente com o seu hábito de prática de exercício físico diário”, conclui. Velhos, afinal, sãos os trapos.