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Cheias: Engenheiros apontam falta de manutenção e ausência de barragem

27 de Dezembro 2019

Armando da Silva Afonso, presidente da SRCOE, e Alfeu Sá Marques, engenheiro especialista em hidráulica

 

A falta de manutenção da obra hídrica do rio Mondego e a ausência da barragem de Girabolhos, em Seia, são duas das principais causas apontadas pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Engenheiros (SRCOE) pelas cheias que assolam o território mais a jusante do Açude-Ponte.

Embora sem informação relevante sobre o que aconteceu na passada semana, nos concelhos de Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure, o engenheiro especialista em hidráulica Alfeu Sá Marques afirma que “a barragem da Aguieira não tem capacidade para gerir grandes caudais” e que, por isso, “deve ser construída a de Girabolhos”. A barragem está projectada para os concelhos de Gouveia, Seia, Mangualde e Nelas, e adicionaria uma capacidade útil de regularização do Mondego de 245 hectómetros cúbicos de água (um hectómetro corresponde a mil milhões de litros), sendo que o rio tem neste momento uma capacidade de 365 hectómetros cúbicos, com as barragens de Fronhas, Raiva, Caldeirão e Aguieira. Para além disso, aponta, “há falhas na manutenção dos três sifões, que devia ser sistemática para promover a sua conservação e monitorização”, exemplificando com uma imagem de um dos sifões totalmente coberto de vegetação. A responsabilidade, nota o engenheiro, é “de quem gere, que neste caso é a Agência Portuguesa do Ambiente”.

“Hoje, este tipo de obras, devem ter uma monitorização contínua”, até porque, sublinhou, “não estão adaptadas à nossa realidade”, com fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

O especialista defende que “as barragens não devem servir apenas para produzir energia, servem cada vez mais para armazenar energia e água e mitigar os efeitos das alterações climáticas (porque vai sempre haver anos mais secos e outros mais húmidos), utilizá-las em todas as suas funções”.

Com a construção de Girabolhos, Midões e Asse Dasse (barragens projectadas para o Mondego, “a capacidade de regularização pode ser mais que duplicada (de 365 para 889 hectómetros cúbicos), o que é de extrema importância”. Recordou Alfeu Sá Marques que Girabolhos esteve prestes a ser construída, pela Endesa, que chegou a pagar 60 milhões ao Estado português, mas entretanto abandonou a obra.

Questionado sobre a influência dos inertes movidos para jusante após o dessassoreamento do Mondego em Coimbra, Alfeu Sá Marques disse que a operação “foi bem feita mas está incompleta”, tendo, contudo, “ajudado a que o nível da água não fosse tão elevado em Coimbra”, mas, adiantou: “não tenho a certeza quanto e quero estudar a situação de onde foram depositados os inertes”.

Armando da Silva Afonso, presidente do Conselho Directivo da Secção Regional da Ordem dos Engenheiros, salientou “o bom comportamento da Aguieira durante toda a situação”, bem como a necessidade de se “controlar o Ceira, o sistema de efluentes e a conclusão da estação de bombagem do rio Foja”.

Na óptica de Armando Silva Afonso, é necessário revisitar e redimensionar todas as infraestruturas hidráulicas, face ao previsível aumento de eventos de seca e cheias.

O engenheiro destacou, ainda, a importância de Portugal se adaptar a esta nova realidade em que as alterações climáticas são ordem do dia, não focando tanto na neutralidade carbónica, mas sim no “no vento e na água”, que “serão dois factores extremamente importantes”.

“Devemos ter maior capacidade de regularização e armazenamento de água, utilizá-la de maneira mais eficiente e vê-la com outros olhos”, notou Silva Afonso, adiantando que é imprescindível uma adaptação “porque a água está no centro de quase tudo em Portugal”.

Para o engenheiro, “sem Girabolhos será muito difícil controlar estes fenómenos”.

Também Alfeu Sá Marques acredita que é necessário “aumentar a capacidade de resistência e de armazenamento”, apontando Girabolhos como solução, a par das obras previstas para o Ceira e para o Arunca e Anços. Intervenções que não foram concluídas no âmbito da obra do Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego, tendo sido executados cerca de 200 milhões de euros, mas faltam executar perto de 40 milhões.

 

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