Coimbra  14 de Junho de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Casa dos Enxovais. Tanta coisa bonita dentro das paredes e do peito

3 de Junho 2023 Jornal Campeão: Casa dos Enxovais. Tanta coisa bonita dentro das paredes e do peito

Falar da Loja dos Enxovais é falar de mais um dos bem conhecidos, prestigiados e antigos estabelecimentos de Coimbra, que ajudaram a fazer da Baixa da cidade um dos mais nobres espaços do comércio tradicional da cidade. Mais do que isso: falar da Casa dos Enxovais é reconhecê-la como uma loja âncora das muitas que povoaram as ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges, desde meados do século passado. Algumas delas foram fechando aos poucos por razões de natureza diversa: pela idade dos proprietários, pela alteração do modo de vida da sociedade, pela alteração das circunstâncias do negócio, pelo aparecimento dos grandes centros perante os quais algumas cidades se ajoelharam em troca de nada. Mas outros desses estabelecimentos resistem e os respectivos proprietários, de invulgar dinamismo empresarial, levam pela idade adiante a paixão pelo espaço comercial de que fizeram casa, loja, escritório e onde cultivaram uma clientela que se fez família ao longo de tantos anos e ainda hoje isso acontece. Na semana passada demos o exemplo da Ourivesaria Costa; esta semana falamos da Casa dos Enxovais, ali na Visconde da Luz, onde há anos e anos (57, propriamente), as montras, de tão cuidadas, são um dos embelezamentos da cidade, sob o olhar atento do seu responsável de sempre. Durante muitos anos, dezenas deles, a Loja dos Enxovais foi, e continua a ser, das mais conceituadas de Coimbra, primando sempre pela qualidade dos produtos, pelo rigor de montras feitas com arte, perícia e amor, mas também pela forma elegante como os clientes eram e são tratados dentro daquele espaço, situado ali mesmo onde a Visconde da Luz se inicia a caminho da Portagem. Entrar ali, olhos postos nos expositores, é olhar para uma imensidão de tecidos produzidos com perícia e qualidade por empresas do norte, expostos com tal engenho e criatividade que todo aquele interior lembra um quadro de arte.

José Marques, proprietário da Casa dos Enxovais, afirma que esses 57 anos na loja têm sido “muito bons”

Conversando com José Marques

“Estive a trabalhar na Casa Guimarães por 17 anos e, depois, resolvi abrir a Casa dos Enxovais. Precisava ganhar dinheiro, para mim e para a minha família. E esse era o ramo que eu conhecia”, explicou-nos José Marques numa breve conversa que com ele tivemos há dias.

Assim, o que começou como um meio de sustento tornou-se numa das lojas mais conhecidas da Baixa de Coimbra. No entanto, a tradição de comprar enxovais tem-se tornado obsoleta, como explica José Marques.

“Estes 57 anos têm sido muito bons, mas agora está um pouco mais difícil”, explica. As complicações surgem do facto de não haver tanto movimento quanto antes. “Há anos atrás estávamos sempre cheios de gente. Vendíamos 6.000 euros por dia, agora vendemos em torno de 600, isso representa apenas 10%”.

Como nos esclareceu, quando as mulheres casavam era costume que fosse feita a compra de um enxoval, seja pela noiva em si ou pelos pais, sogros, madrinhas ou padrinhos, por exemplo. Hoje em dia, no entanto, deixou de ser habitual seguir este tipo de tradição.

 

“Foram anos de muito trabalho”

Contudo, por uma questão matrimonial ou não, ainda é possível visitar a loja e comprar produtos para a casa, como jogos de cama, banho, cozinha ou de sala. Os itens que estão a ser comercializados vêm de fábricas e, posteriormente, a Casa dos Enxovais personaliza os tecidos (com o bordado de nomes), embora também estejam à venda jogos lisos.

Rosinda Henriques, colaboradora da Casa dos Enxovais há 53 anos, conta que, nos primeiros anos da loja, muito trabalho foi feito.

“Ao princípio foram anos de muito trabalho, já chegamos a ter 20 funcionários. Agora, desde há sete anos, estou a trabalhar sozinha e não é fácil. Mas há 30 anos, mais ou menos, era tudo uma maravilha”, explica.

Ao falar sobre a tradição de comprar enxovais, Rosinda Henriques informa que, “as mulheres antes de casar tinham de ter tudo para a sua casa”. Ou seja, ninguém se unia em matrimónio sem ter um enxoval. 

“Actualmente, no entanto, é totalmente diferente, as ideias são distintas”, afirma Rosinda. Agora já não é mais uma tradição seguida à risca e muitas pessoas casam-se sem comprar os jogos para casa.

Assim, os produtos mais vendidos no estabelecimento passaram a ser os jogos de cama e os jogos de banho, além dos panos de cozinha (este último é bordado já na fábrica).

Os que desejarem renovar os jogos de casa, ou visitar esta quase sexagenária loja, podem fazê-lo de segunda à sexta-feira, entre as 9h30 e as 12h30 e, de seguida, entre as 14h00 e as 18h00. No sábado o estabelecimento funciona apenas durante a manhã (9h30-12h30).

 

A origem da Casa dos Enxovais

Deve-se, a Loja dos Enxovais, na sua concepção, criação e continuidade até hoje, a José Marques, hoje homem entristecido pela idade, pela cansaço, pela dificuldade em assistir ao desenvolvimento do mundo e particularmente da cidade de Coimbra, nem sempre pelos caminhos que considera os mais adequados. Desde há muito empresário de sucesso no seu ramo de actividade, frontal como poucos no apoio e na discordância, o José Marques de hoje provém daquele menino de 9 ou 10 anos que um dia desceu do norte e em Coimbra se fez marçano, moço de recados, esperto e ladino que cedo se destacou aos olhos do patrão da Loja Guimarães, na Praça do Comércio, por onde começou a sua vida profissional. A sua geração, rica de comerciantes muito bem sucedidos em Coimbra, começou quase toda assim (José da Costa foi assim também, os Mendes, Carvalho, Pedrosa e outros mais). Mas alguns deles cedo decidiram que não seria a aviar recados que fariam da vida a sua taleiga de sonhos. Mal a oportunidade surgiu, José Marques fez-se patrão na casa por onde começara e daí à Casa dos Enxovais foi um pulo. Apostando na qualidade dos tecidos que vendia e que mandava fazer em fábricas do norte, o sucesso chegou e manteve-se muitos anos. Chegaram a ser mais de 20 pessoas a trabalhar dentro da loja. Hoje são dois apenas. Não porque a qualidade diminuiu, mas porque o mundo dos tecidos de qualidade e elegância levou uma volta de todo o tamanho. O produto disputado há anos é hoje dispensado e substituído por outros artigos, mais simples, mais baratos, menos distinto e outras formas de dar vida ao lar. Foi este salto, esta mudança no negócio, as alterações que a Baixa foi sofrendo ao longo dos anos (ainda hoje considera que tirar o trânsito das ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges foi uma das causas do definhar da Baixa) que trouxeram tristeza a José Marques, tristeza que, acumulada ao cansaço e à idade e outras circunstâncias, tem vindo a rasgar neste homem de enorme dignidade um rosto de sorriso triste. Mas foi este mesmo rosto, este mesmo empresário e homem, que ao longo de muitos anos foi, no recato da sua maneira de ser, um alguém sempre disponível para a Casa da infância Elísio de Moura, de que foi dirigente, apoiante, porta sempre aberta e mãos largas nas muitas vezes em que o pão se fazia curto lá para as bandas da Alta, onde tão prestigiada instituição geria como podia as faltas de tanta vez, onde jovenzinhas de tenra idade, de quem a sorte cedo se esquecera, repartiam entre si as faltas que íam para além das disponibilidades de cada dia. Anos e anos José Marques esteve lá e foi um de alguns mais, onde as irmãzinhas das Missões eram o garante de que, se pão faltasse, carinho não faltaria seguramente. Sim, José Marques esteva lá. Com trabalho, com apoio, com ajuda, com motivação. Fechada a loja, subia à Alta. Era ali o seu destino de final de dia e também o seu destino de vida. Metade de Coimbra, se não Coimbra quase inteira, não sabe disto. Mas fica dito. Com verdade, com rigor, com reconhecimento. Sabendo embora que o faz à revelia de José Marques que se recusa a falar desta vertente do seu perfil de homem de bem, trabalhador, rezingão, mas homem de uma palavra só.

A Casa dos Enxovais é um dos comércios de grande prestígio que estão localizados na Baixa de Coimbra