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Boaventura de Sousa Santos relembra Eduardo Lourenço que faleceu hoje

1 de Dezembro 2020 Jornal Campeão: Boaventura de Sousa Santos relembra Eduardo Lourenço que faleceu hoje

O sociólogo da Universidade de Coimbra Boaventura de Sousa Santos recorda o ensaísta Eduardo Lourenço, que morreu esta terça-feira (01), como um homem afável, muito simples e que “iluminou a vida de muita gente”.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, Conselheiro de Estado, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço morreu hoje, em Lisboa, aos 97 anos, confirmou à agência Lusa fonte da Presidência da República.

“Era uma pessoa de trato afabilíssimo, muito simples, um beirão de gema, muito amante da convivência com os amigos, da boa comida e da boa bebida, que contava anedotas e histórias incessantemente, que animava qualquer grupo. Tinha um lado humano extraordinário”, afirmou à agência Lusa Boaventura de Sousa Santos.

Para o sociólogo, morreu “talvez o maior intelectual do século XX” português, que “iluminou a vida de muita gente” e que teve “uma presença pública muito forte”.

“Em Portugal, os intelectuais não são bem conhecidos, são ignorados, quando não são esquecidos. É preciso viver muito tempo. Eduardo Lourenço viveu o suficiente para ser reconhecido, celebrado e premiado. É consolador ver que o Eduardo Lourenço cortou o enguiço dos intelectuais que são pouco conhecidos e reconhecidos”, frisou.

Boaventura de Sousa Santos recordou que o ensaísta não era “um pensador sistemático”, retirando grande parte da sua inspiração da poesia, sobretudo de Fernando Pessoa, “de quem foi um inovador teórico e analista”.

“Tinha um estilo envolvente, muito literário. Para mim, foi dos intelectuais que mais violou as regras canónicas da escrita filosófica. A sua escrita era poética, abundava em metáforas, em imagens e foi isso grande parte do encanto que ele teve e que conseguiu transmitir a tanta gente”, salientou.

Apesar de Eduardo Lourenço ter uma ideia de Portugal “que afagava o ego dos portugueses”, distinguia-se bem de “pensadores nacionalistas e conservadores”, por nunca ter perdido uma dimensão crítica no seu pensamento sobre o país e sobre os portugueses, notou.

Segundo Boaventura de Sousa Santos, também era “fácil divergir” com Eduardo Lourenço, discutindo-se “sem entrar em grandes conflitos”.

“Lembro-me do ‘Labirinto da Saudade’ em que a minha análise da sociedade portuguesa não se identifica com a brilhante análise de base psicanalítica do Eduardo Lourenço, mas isso não afetava a grande admiração que tinha por ele”, disse.

O sociólogo recordou ainda que, após o 25 de Abril, havia um conjunto de pessoas na Universidade de Coimbra que tentou dar “uma lufada de ar fresco” à Academia, convidando intelectuais para a instituição, sendo que dois deles eram Jorge de Sena e Eduardo Lourenço.

“Nenhum dos dois ficou em Portugal”, recordou o professor catedrático da Faculdade de Economia, referindo que, no caso de Eduardo Lourenço, havia um grande interesse em incluí-lo na Faculdade de Letras, para renovar o departamento de filosofia, mas que, na altura, levaram-se várias questões, nomeadamente o facto de o ensaísta não ser doutorado.

“Não tínhamos ainda a categoria de professor convidado, mas gostaríamos muito que ele tivesse sido catedrático. O departamento de filosofia tinha muita gente conservadora que via com maus olhos a entrada de Eduardo Lourenço, que o via como um concorrente, e usou o facto de não ter qualificações doutorais para isso”, contou.

Eduardo Lourenço Faria nasceu em 23 de maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, no distrito da Guarda.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra, em 1946, aí inicia o seu percurso, como assistente e como autor, com a publicação de “Heterodoxia” (1949).

Seguiram-se as funções de Leitor de Cultura Portuguesa, nas universidades de Hamburgo e Heidelberg, em Montpellier e no Brasil, até se fixar na cidade francesa de Vence, em 1965, com actividade pedagógica nas principais universidades francesas.

Foi conselheiro cultural da Embaixada Portuguesa em Roma e, em 1999, passou a administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que tem em curso a publicação da sua obra integral.

Autor de mais de 40 títulos, Eduardo Lourenço possuiu desde sempre “um olhar inquietante sobre a realidade”, como destacaram os seus pares.

“O Labirinto da Saudade”, “Fernando, Rei da Nossa Baviera”, “Os Militares e o Poder” e “Tempo e Poesia” são algumas das suas principais obras.

Entre outras distinções, Eduardo Lourenço recebeu o Prémio Camões (1996) e o Prémio Pessoa (2011) e as insígnias de Grande Oficial e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Era Oficial da Ordem Nacional do Mérito, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e da Legião de Honra de França.