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Bichos Felizes resgata animais e garante-lhes uma família

9 de Março 2024 Jornal Campeão: Bichos Felizes resgata animais e garante-lhes uma família

Desde que se recorda, Dami Paiva sempre foi ligada aos animais. Trocava qualquer programa para ficar em casa a brincar com os cães do pai. Foi esse “amor aos bichos” que a inspirou na criação do projecto “Bichos Felizes”. O que a jovem estava longe de imaginar era que, em apenas dois meses, a iniciativa iria mudar a vida de mais de 30 animais.

“Há, efectivamente, muitos animais em situação de rua, negligenciados e vítimas de maus tratos. Eu sempre quis fazer a minha parte nesta causa, ou seja, ajudar o maior número de animais possível”, conta Dami Paiva, em declarações ao “Campeão”. É dessa vontade que, em finais de Setembro do ano passado, nasce o “Bichos Felizes”, um projecto que garante o bem-estar e um lar permanente a animais resgatados das ruas até que estes sejam adoptados. “Queremos dar-lhes uma vida digna. No fundo, dar-lhes uma oportunidade de viver, porque muitos deles não a têm”, salienta a fundadora.

Apesar de não ter ainda um espaço físico, a iniciativa conta com a ajuda de Famílias de Acolhimento Temporário (FAT). São elas que abrem as portas de sua casa para dar abrigo a todos os bichos que, até então, não tinham uma morada. “Aquilo que acontece é que os animais são resgatados e, depois de serem avaliados pelo veterinário, são reencaminhados para as FAT. No entanto, continuam sempre à nossa responsabilidade enquanto não são adoptados definitivamente”, adianta Dami Paiva.

Promover a adopção

Além de garantir o acolhimento temporário de dezenas de animais, o “Bichos Felizes” também participa no processo de promoção de adopção. Através das redes sociais, a iniciativa vai dando conta dos animais que procuram um lar. Os interessados devem preencher um formulário e, de seguida, é realizada uma visita à FAT. Posteriormente, é feita a triagem dos possíveis adoptantes, uma etapa importante para excluir possíveis adopções por impulso.

“Costumamos dizer que a adopção não é uma entrega. É um processo. É sempre feito de forma faseada. Depois de conhecermos as pessoas, – se corresponderem àquilo que, para nós, é uma boa adopção – , então o animal é entregue”, sublinha Dami Paiva. Contudo, existe ainda quem comece por acolher e acabe a adoptar. Foi o que aconteceu com o Ziggy, um cão que chegou ao “Bichos Felizes” e que viu a sua FAT tornar-se uma família definitiva. “Os actuais donos queriam adoptar um cão, mas antes queriam ver a reação da cadela deles. Se era exequível a adopção definitiva. O animal ficou, assim, em FAT durante algum tempo. Depois, avançaram para a adopção “, recorda Dami.

Mais de 30 adopções

Desde a sua génese, o “Bichos Felizes” já levou alegria a dezenas de animais. Em apenas dois meses, foram adoptados mais de 30 e o número não pára de crescer. A certeza de que cada “bichinho” foi entregue ao lar certo é confirmada diariamente. Afinal, a iniciativa faz questão de acompanhar a vida de cada animal, mesmo depois destes encontrarem o seu final feliz. “Tentamos sempre criar um grupo do WhatsApp pós-adopção para acompanharmos o processo e a evolução do animal. Além disso, estamos sempre disponíveis para aquilo que o adoptante precisar”, admite a fundadora.

Dami Paiva mostra-se ainda satisfeita por sentir que é promovida “uma relação afectiva com os adoptantes” e por estes darem um “feedback muito positivo” em relação ao projecto. A jovem descreve ainda a emoção que sente ao acompanhar o crescimento de cada um dos, também seus, “bichinhos”. “Tivemos uma ninhada que foi resgatada no final de setembro. Esses animais estão agora a fazer seis meses e, todos os dias, recebemos fotografias. A diferença deles é abismal. Isto é, eles vieram para o projecto como uns feijõezinhos muito pequeninos e agora estão grandes”, relembra, com um sorriso.

As dificuldades financeiras

Um gesto simples pode ajudar a salvar a vida de um animal em situação de vulnerabilidade. Contudo, nem sempre é fácil, tendo em conta os custos económicos associados. “Eu diria que a parte mais difícil de resgatar animais é a parte financeira, porque dependemos, efectivamente, dos donativos”, confessa Dami Paiva. Até ao momento, – e sempre que os animais são resgatados em Gondomar -, o projecto conta com o apoio do Centro de Recolha Oficial Animal de Gondomar (CROAG), no distrito do Porto. Todavia, apenas esse contributo não é suficiente, já que a iniciativa actua um pouco por todo o país.

“É impossível restringir a nossa actuação unicamente a Gondomar, porque nós acabamos por receber muitos pedidos de ajuda. Evidentemente, se pudermos ajudar todos os animais, vamos fazê-lo”, sublinha Dami Paiva. Nesse caso, “quando os animais são resgatados noutros municípios, nós dependemos de donativos de terceiros”, acrescenta. Apesar das dificuldades, a solidariedade é uma palavra bem presente no dia-a-dia do “Bichos Felizes”. Mais do que nunca, as pessoas querem contribuir para a causa animal e mudar a vida daqueles que pouco têm vivido.

“Acho que, cada vez mais, estamos a assistir, sobretudo nas camadas mais jovens, a uma aproximação gradual aos animais. Estes já não são vistos como coisas. São seres vivos, que sentem dor, que têm sentimentos e que merecem ser tratados com dignidade e respeito”, considera Dami Paiva. Nesse sentido, a responsável não tem dúvidas de que projectos como o “Bichos Felizes” contribuem para a mudança de mentalidades. “Se não fossem estes projectos, o que é que seria dos animais? No fundo, nós fazemos omeletes sem ovos nesta causa. É um trabalho extremamente importante de resgate e de promoção da adopção consciente”, realça.

Actualmente, o “Bichos Felizes” pode ser acompanhado através da página do facebook: Projeto.bichos.felizes. No entanto, Dami Paiva assegura que não falta muito tempo até existir uma verdadeira morada. “Eu vejo, de facto, num futuro breve, que tenhamos um espaço físico para ajudar mais animais, sem dúvida”, conclui.

Texto: Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 7 de Março de 2024