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Atrium Solum: Máquinas de costura mostram emancipação da mulher

18 de Novembro 2016 Jornal Campeão: Atrium Solum: Máquinas de costura mostram emancipação da mulher

O investigador Manuel Louzã Henriques, dono de uma colecção de máquinas antigas de costura, que se encontra em exposição no centro comercial Atrium Solum, em Coimbra, destaca o contributo deste utensílio na emancipação da mulher e na “democratização do vestuário” desde o século XIX.

“À descoberta da máquina de costura, devemos uma democratização do vestuário e também um fortíssimo impulso na emancipação da mulher”, quer da cidade, trabalhando em fábricas de tecelagem e manufatura, quer também nas zonas rurais, refere o etnólogo e médico psiquiatra.

Integrando esta actividade na economia familiar, “a mulher do povo fazia muito do que lhe era necessário em casa, podia vender este trabalho aos seus vizinhos”, acrescenta.

Louzã Henriques afirma que a máquina de costura permitiu “muitas vezes” a profissionalização das utilizadoras, que se tornaram costureiras e modistas um pouco por todo o mundo.

“Isto permitiu-lhe uma confortável independência económica, assegurando-lhe sobrevivência, independência e até estatuto social”, refere no catálogo da “Exposição de máquinas de costura. Meados do século XIX – Fins do século XX”.

A mostra é uma iniciativa da editora Lápis de Memórias, com apoio do centro comercial Atrium Solum, onde está patente até 26 de Dezembro, tendo na sessão de abertura usado da palavra Louzã Henriques e o editor Adelino Castro. O coleccionador proferiu uma conferência subordinada ao tema “Parras, peles, fibras e pelos – Da capa de S. Martinho aos vestidos de noiva”.

A parra de videira, que o mito popular identifica como uma das primeiras formas de cobrir o corpo, ou apenas parte dele, neste caso os órgãos genitais de Eva e Adão, segundo a Bíblia, e a capa que o militar Martinho de Tours, mais tarde considerado santo pela Igreja Católica, partilhou com um mendigo, no século IV, foram dois dos episódios evocados por Louzã Henriques para contar a evolução do vestuário desde a Pré-História.

As peças de vestuário, incluindo chapéus, calçado e outros adereços, foram usados por homens, mulheres e crianças, ao longo dos milénios, para proteger o corpo do calor e do frio ou como expressão de “pudor e estatuto social” e económico, explicou.

Louzã Henriques recordou que a história da máquina de costura teve início em 1830, quando o alfaiate Barthélemy Thimonnier concebeu o primeiro modelo, em França.

Deve-se a Thimonnier “a primeira destas máquinas bem conseguida”, para dar resposta a uma encomenda de fardamento do exército francês. Temendo perder o trabalho, os outros alfaiates, seus concorrentes, “destruíram-lhe as máquinas, obrigando Thimonnier a fugir para Inglaterra”, para não ser morto. Ele regressou mais tarde a França, bastante pobre, e acabou por morrer na miséria.

A abertura da exposição de 48 máquinas de costura incluiu um momento musical especial pelo violinista Manuel Pires da Rocha, membro da Brigada Victor Jara e director do Conservatório de Coimbra.