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As secas que portugueses e espanhóis enfrentam este século

23 de Março 2024 Jornal Campeão: As secas que portugueses e espanhóis enfrentam este século

Cada vez mais frequentes um pouco por todo o planeta, também a Península Ibérica será afectada pelas secas durante este século. Esta é a principal conclusão de um estudo realizado na Universidade de Aveiro (UA), que prevê alterações no regime de secas, que poderão trazer alterações ao modo de vida de portugueses e espanhóis.

Realizado pelos investigadores Humberto Pereira e João Miguel Dias, do Departamento de Física e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA, em colaboração com Nieves Lorenzo e Ines Alvarez, da Universidade de Vigo, o estudo, publicado na revista ‘Atmospheric Research’, caracteriza a ocorrência e a variabilidade espacial das secas na Península Ibérica nos próximos 50 anos, considerando dois cenários de concentração de gases de efeito estufa na atmosfera (um moderado e um severo) definidos pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPPC).

Neste contexto, foram analisados dois tipos de secas: as meteorológicas (que se definem como uma medida do desvio da precipitação em relação ao valor normal/esperado) e as hidrológicas (que se relacionam com a redução dos níveis médios de água nos reservatórios e no solo).

Os principais resultados revelam que, para ambos os cenários do IPCC, as secas meteorológicas serão globalmente menos frequentes na Península Ibérica no período compreendido entre 2006-2040, mas mais intensas e duradouras na região Este da Península Ibérica, intensificando-se este efeito ao longo do século XXI.

O Campeão das Províncias falou com os autores do estudo que analisam, ao detalhe, o que aí vem. Os investigadores João Miguel Dias e Humberto Pereira começam por explicar que este estudo analisou dois tipos de secas (meteorológicas e hidrológicas) em dois períodos diferentes (2006-2040 e 2041-2075) considerando dois cenários de alterações climáticas (um moderado e um severo). As secas meteorológicas referem-se à precipitação abaixo da média esperada para um determinado período, e as hidrológicas estão relacionadas com a diminuição dos níveis de água em reservatórios, aquíferos e solo.

“Em Portugal, para o período 2006-2040, e considerando o cenário moderado, os resultados mostram que, tanto as secas meteorológicas como as hidrológicas deverão ser um pouco mais frequentes, mas de menor duração. Já para o cenário severo, as secas hidrológicas poderão ser um pouco mais intensas e duradouras. Para o período 2041-2075, as secas meteorológicas poderão ser mais duradouras e intensas sendo este efeito intensificado no cenário mais severo. Quanto às secas hidrológicas, estas poderão ser menos frequentes e intensas, mas mais duradouras num cenário moderado. Já para o cenário mais severo, prevêem-se secas hidrológicas mais frequentes, mas de menor duração”, indicam.

Os impactos podem ser a nível económico (negativos para a agricultura, turismo e a produção de energia), a nível ambiental (negativos para a biodiversidade da região, degradação dos solos e potencial aumento do risco de incêndios florestais) e a nível social (possível escassez de água potável para a população).

 Agricultura: um sector “muito vulnerável”

Segundo os investigadores, a agricultura portuguesa “está muito vulnerável à seca”, com impactos na “produção, rendimento e sustentabilidade deste setor”. Admitem que existem “alguns progressos na adaptação à seca, contudo, ainda não são suficientes”. “Algumas medidas para enfrentar o aumento da seca podem passar por modernizar sistemas de rega otimizando o uso da água e reduzindo o seu desperdício, optar por culturas com menor necessidade de água, explorar a possibilidade da agricultura hidropónica, e não menos importante, promover a formação dos agricultores para que estes possam desenvolver a actividade de forma mais consciente e informada”, adiantam João Miguel Dias e Humberto Pereira.

Para os autores, as medidas de mitigação e adaptação que poderiam ser tomadas seriam as já muito conhecidas: reduzir as emissões de gases de efeito estufa, aumentar o uso de energias renováveis como a energia solar e eólica e aumentar a conscientização da população para a importância do uso racional da água e a necessidade de utilizá-la de forma responsável. E dão alguns exemplos em Portugal de iniciativas do Governo que podem minimizar o problema, como o Plano Nacional de Regadio (PN Regadios) ou, mais recentemente, o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC 2030).

A falta de água é outra consequência gritante e já aí está, afectando, de modos diferentes, todo o território. Para os investigadores, o País tem abordado esta problemática de “forma muito superficial, não tendo até ao momento elaborado e executado medidas concretas que sejam efectivas para a resolução dos problemas actuais e que se perspectivam para o futuro próximo, e que conduzam ao uso racional da água e à sua poupança”. “O País continua extremamente dependente do regime de precipitação, e consequentemente nos anos de seca, atravessa sempre imensas dificuldades de fornecimento de água para as necessidades existentes”, vincam, acrescentando que não temos “tomado ainda medidas suficientes para consciencializar para a importância da água, e que a maioria da população encara ainda erradamente como sendo inesgotável”.

De uma maneira geral, os investigadores dizem que há uma consciência geral de que as secas são um problema sério. No entanto, “como este problema não afecta todas as pessoas da mesma forma, quem vive nas regiões mais críticas, como por exemplo o Alentejo ou Algarve, sendo mais afectado e sentindo mais o impacto da seca do que quem vive na região Norte do País, estará obviamente mais sensibilizado para este problema”. Contudo, “a maioria das pessoas não alterou ainda os seus hábitos de consumo da água, o que indica que conhecem o problema, mas ainda não estão cientes da sua importância para o nosso futuro”.

Os resultados deste estudo foram obtidos utilizando o Standardized Precipitation Index (SPI), um índice amplamente utilizado para caraterizar o regime de seca em diferentes escalas temporais, que se baseia exclusivamente na precipitação. “É sabido que os fenómenos de seca podem ser influenciados por outros factores, como a temperatura do ar, a sazonalidade e até as características do terreno, o que requer uma caracterização e previsão mais complexa destes fenómenos”, diz João Miguel Dias.

 Água: faltam estratégias efectivas

O problema da água é um dos mais preocupantes. João Miguel Dias e Humberto Pereira consideram que, infelizmente, “continuam a não existir estratégias efectivas para o combate ao problema”, como por exemplo a elaboração de um plano de transvase da água das regiões mais húmidas para as mais secas e consequente construção das indispensáveis infraestruturas, a instalação de unidades de dessalinização nas zonas mais críticas próximas da zona costeira, a redução dos desperdícios no transporte de água nas redes existentes, o aproveitamento das águas pluviais e reutilização de águas cinzentas e a consciencialização das populações para a importância do uso racional da água.

“De referir que na área da construção civil existe ainda muito trabalho a fazer para regulamentar e construir habitações com um aproveitamento e consumo de água mais sustentável, por exemplo, aproveitando águas residuais dos banhos para utilização nas sanitas ou substituindo os actuais equipamentos por outros de maior eficiência hídrica”, alertam.

 

Texto: Ana Clara, jornalista do “Campeão” em Lisboa

 Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 21 de Março de 2024