Coimbra  26 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

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APPACDM promove colóquio para colocar o foco no cuidador

6 de Março 2019

Carla Ribeiro e Helena Albuquerque, da APPACDM, com Carlos Cortes, presidente da SRCOM

 

O papel do cuidador, seja ele formal ou informal, está na ordem do dia e, no âmbito dos seus 50 anos, também a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM), vai debater o tema, no próximo dia 14 de Março, numa parceria com a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM).

O colóquio “Cuidadores (In)Formais: proteger quem cuida” realiza-se na sala de Miguel Torga da SRCOM, a partir das 09h30, e irá contar com intervenientes especialistas no tema, bem como com testemunhos de cuidadores reais.

“Este é um assunto muito importante e com o qual lidamos todos os dias”, explicou Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra, admitindo que, diariamente, chegam à instituição pedidos de ajuda de cuidadores que, por várias razões, não se sentem capazes de tomar conta dos seus familiares.

A APPACDM tem, actualmente, três lares residenciais e uma Residência Autónoma, que têm capacidade para 56 utentes, um número que fica muito áquem do necessário.

“Os lares residenciais são a nossa prioridade, porque a médio prazo vamos necessitar mais de uma centena de lugares para dar resposta aos cuidadores”, afirmou a responsável, que chamou a atenção para o facto de, na maioria dos casos, só se dar atenção ao paciente que tem a patologia, “quando por vezes é o cuidador que está em piores condições físicas e emocionais”.

É, por essa razão, que esta é uma iniciativa importante, até porque se enquadra no mote do aniversário da instituição, que pretende “mudar consciências”.

“Os cuidadores precisam de saúde para o seu bem-estar e as leis deviam ser criadas nesse sentido”, adiantou a responsável.

Como tal, foi convidado a fazer parte deste colóquio a Ordem dos Médicos, uma vez que para o bom desempenho do papel do cuidador, também a comunidade médica pode e deve contribuir activamente.

Segundo Carlos Cortes, presidente da SRCOM, este “é um tema muito pertinente e estratégico, inserido numa iniciativa muito importante”, que será, também, debatido esta sexta-feira (08), na Assembleia da República.

“A visão que temos da saúde actual é a de que os intervenientes não são só os hospitais, mas também as várias organizações que actuam nesta área, vem como pessoas comuns como familiares, amigos e vizinhos, que são os cuidadores”, realçou o médico, adiantando que, por isso, “é muito importante e necessário reconhecer o papel do cuidador”. Outro ponto, prende-se com a “humanização da saúde”, sendo que um dos elementos fundamentais desse processo é o cuidador, porque “é ele que permite que os doentes possam estar em casa e atingir melhores patamares, não delegando esse papel nos serviços de saúde menos humanizados”, referiu o presidente da SRCOM.

Também neste âmbito, Carlos Cortes assumiu que a Ordem está a apostar no tema, através de da realização de diversas iniciativas.

O colóquio tem início com a sessão de abertura, na qual serão intervenientes Carlos Cortes, presidente da SRCOM; Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra; e Ananda Maria Fernandes, presidente do Conselho Técnico-Científico da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

Segue-se o primeiro painel, onde tomarão a palavra Manuel Teixeira Veríssimo, presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital da Figueira da Foz; Filomena Girão, advogada; e Rita Joana Maia, da Associação Nacional de Cuidadores. Depois de uma pausa para um pequeno lanche, a cargo de alguns utentes da APPACDM, segue-se uma mesa redonda, com testemunhos de cuidadores de doentes com vários tipos de problemas (Alzheimer, esclerose múltipla, paralisia cerebral e deficiência mental).

O evento está aberto à população em geral, uma vez que se enquadra nas comemorações do seu 50.º aniversário, cujo programa decorre até final do ano.

O Estado não se pode demitir do seu papel”

Helena Albuquerque considera que este é um tema premente na sociedade e, em particular, para as instituições que apoiam a deficiência e que não veem retorno por parte do Estado.

“A tutela não se pode demitir do seu papel relativamente aos cuidadores, nem estes se podem demitir da tutela ou dos doentes, têm de haver um equilíbrio entre todos”, assinalou a responsável, considerando que a possível aprovação do Estatuto do Cuidador Informal não pode ser apenas para “dar regalias à pessoa que está em casa, tem de ser algo mais profundo, como a criação de mais lares residenciais, mais centros de dia e mais apoios institucionais”, além de “sensibilizar a comunidade médica sobre a situação dos cuidadores”, explicou Helena Albuquerque.

Com um projecto aprovado para a construção de um lar residencial, há mais de dois anos, em Arganil (para 20 vagas), mas sem financiamento por parte do Estado, a APPACDM não consegue construir a infraestrutura, nem dar resposta às inúmeras solicitações, que lhe chegam de todo o país continental e ilhas, diariamente.

“Os cuidadores estão sem condições físicas e emocionais para tomar conta dos seus familiares, algumas situações são desesperantes e não conseguimos dar resposta”, sublinhou, acrescentando que o problema “não é a falta de dinheiro, mas sim de prioridades da tutela”.