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Apoiar saúde mental infantil é ajudar as crianças a crescerem para o mundo

15 de Junho 2024 Jornal Campeão: Apoiar saúde mental infantil é ajudar as crianças a crescerem para o mundo

Chama-se Capiti e nasceu para dar apoio a crianças e jovens carenciados com problemas de comportamento e/ou desenvolvimento. Através de clínicas parceiras, o projecto disponibiliza serviços de identificação, diagnóstico e acompanhamento na área do neurodesenvolvimento. Na dificuldade do Serviço Nacional de Saúde e do Ministério da Educação em dar resposta a estas necessidades, a iniciativa surge, assim, como uma luz ao fundo do túnel para centenas de famílias.

“Avaliamos as famílias em termos socio-económicos e também holísticos, porque queremos sempre conhecê-las, conseguir ler nas entrelinhas e perceber o seu estado emocional. Posteriormente, é atribuído um escalão de apoio, que vai do 10, – o mais carenciado – , ao 3. São quatro escalões, onde nós apoiamos 90%, 70%, 50% e 30%”, explica a assessora de direcção da CAPITI, Teresa Cunha, em declarações ao “Campeão das Províncias”. Segundo a responsável, é importante corresponsabilizar as famílias com parte do pagamento por forma a que estas se sintam responsáveis pelo tratamento dos seus filhos.

Sob o mote “ajudamos as crianças a crescer para o mundo”, o projecto abrange todo o tipo de patologias relacionadas com o neurodesenvolvimento (como, por exemplo, Perturbações do Espectro do Autismo, Perturbações de Hiperactividade e Défice de Atenção e dificuldades de aprendizagem) e o comportamento (nomeadamente, ansiedade, depressão e acontecimentos de vida traumáticos). “Um luto, um divórcio complicado, violência doméstica, doenças prolongadas,… Acompanhamos estes acontecimentos de vida e também, ultimamente, tem vindo a crescer uma grande franja no que toca às dependências da internet”, revela Teresa Cunha.

Apoio ainda é escasso

Fundada em 2016, a Capiti ganha vida quando o médico neuropediatra Nuno Lobo Antunes identificou um problema recorrente na sua clínica: muitas famílias procuravam-no porque percebiam que algo não estava bem com os seus filhos. No entanto, assim que era feita uma avaliação e consequente proposta de acompanhamento, estas desistiam por falta de recursos financeiros. O profissional decide, então, reunir uma equipa, da qual Mariana Saraiva se viria a tornar presidente, e formar a iniciativa.

Inicialmente, surge como um projecto-piloto de 30 famílias com vista a testar o modelo de actuação. Os resultados foram frutíferos e a Capiti nunca mais parou. “Orgulhamo-nos muito, hoje em dia, de o modelo adoptado na altura ser o modelo que ainda hoje é feito. Somos o elo de ligação entre as famílias e as clínicas”, conta Teresa Cunha. Isto significa que a organização estabelece protocolos com várias clínicas do país que recebem as crianças e lhes prestam o devido acompanhamento.

De acordo com a assessora da direcção, este apoio é fundamental, já que as respostas públicas são escassas. “Não é que elas não existam, mas há muito poucos recursos nestas respostas. Ou seja, elas até existem, mas demoram muito tempo e não têm a periodicidade que era suposto”, lamenta. Nesse sentido, e como forma de chegar ao maior número de pessoas possível, a Capiti conta com a parceria de nove clínicas em doze cidades do país. Entre elas: Coimbra, Porto, Lisboa, Aveiro, Algarve, Almada, Montijo, Amarante, Baião e Resende. “Estamos agora também a avaliar uma nova colaboração com outra cidade”, confessa a responsável, sem ainda desvendar qual.

Projecto já apoiou mais de 400 crianças

Oficialmente em actividade desde 2017, a Capiti já apoiou um total de 466 crianças. Além disso, avaliou 677 candidaturas e, no momento, presta acompanhamento regular a 183 crianças e jovens. “Através da Capiti, já foram realizados 15.389 actos clínicos”, acrescenta ainda Teresa Cunha. Os números são gratificantes, sobretudo, porque espelham a mudança na vida das famílias que recorrem ao projecto.

“Estas crianças conseguem perceber que aumentam muito o seu bem-estar e, aumentando o seu bem-estar pessoal, aumentam também o bem-estar das famílias e das suas relações”, sublinha a assessora de direcção. De qualquer modo, para compreender melhor os benefícios da iniciativa junto das famílias, a Capiti estabeleceu uma parceria com uma empresa consultora para medição de impacto. “Aplicamos no momento zero, isto é, no momento em que a família entra para o projecto. Passado um mês do início da terapia, fazemos um questionário à família e aos técnicos que a acompanham”, revela Teresa Cunha. Acção que é repetida um ano depois para analisar a evolução do tratamento.

Apesar deste ser um processo moroso, começam já a surgir os primeiros resultados. “87% melhorou o cumprimento das instruções dadas pelos pais a outros cuidadores; 85% melhorou os níveis de autonomia a nível de higiene; 74% melhorou na realização das tarefas diárias”, adianta a responsável. As percentagens evidenciam, desta forma, que a mudança não se faz sentir apenas no dia-a-dia da criança ou jovem, mas também dos que a rodeiam. “É fundamental na dinâmica da família, porque nós damos ferramentas aos pais. Também na integração na escola com os pares e os professores; e, mais tarde, na sociedade. Nós actuamos muito nestes três eixos: família, escola e sociedade”, salienta.

Capiti quer ajudar mais crianças

A crescer a olhos vistos, a Capiti não tem dúvidas do poder que o “boca-a-boca” tem tido para trazer mais pessoas para o projecto. “As escolas sabem que há uma criança a ser tratada por nós e percebem que há uma família que, possivelmente, pode estar dentro do âmbito da Capiti, e aconselham-na a procurar-nos”, afirma Teresa Cunha. Não obstante, as parcerias são também essenciais em todo este processo.

“As clínicas parceiras são, diria, o principal veículo com uma maior percentagem junto das famílias, porque a verdade é que estas procuram respostas para os problemas que os filhos têm”, refere. Frisa também que “temos comunicação, temos um Instagram, um Facebook e um site. É precisamente no site que existem as candidaturas para as famílias e para as instituições, porque nós também apoiamos instituições”.

Como qualquer organização não governamental, a Capiti debate-se, diariamente, para que o melhor serviço nunca falte. “O nosso maior desafio é garantir a actividade, porque nós nunca queremos defraudar as expectativas de uma família (…) Dizemos, orgulhosamente, que desde o princípio da nossa actividade, nunca tivemos de dizer a uma família que, por falta de financiamento, íamos ter de largar a sua criança”, admite a responsável.

Tendo sempre assegurado a sua funcionalidade via voluntários, a Capiti aposta agora na profissionalização da equipa. O objectivo passa por crescer, de forma sustentada, auxiliando cada vez mais crianças e jovens. “Estamos numa fase em que queremos consolidar a equipa para, depois, aos poucos e de forma sustentável, irmos garantindo este crescimento para apoiar cada vez mais crianças”, conclui Teresa Cunha.

Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Texto publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 13 de Junho de 2024