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Alma de Coimbra: há 18 anos a cantar a portugalidade

15 de Junho 2024 Jornal Campeão: Alma de Coimbra: há 18 anos a cantar a portugalidade

Fundado em Maio de 2006, o Alma de Coimbra não é só um grupo musical. Nasceu para contar uma história e cumpri-la, sobretudo, no que toca à promoção da língua e cultura portuguesas e evocar a identidade da Lusofonia.

Passados 18 anos, o Campeão das Províncias foi conhecer o percurso deste projecto composto por antigos estudantes da Universidade de Coimbra, muitos deles dispersos pelo País, que encontram na música uma forma de manter viva a memória dos seus anos de vida académica. É composto por um coro masculino, acompanhado por piano, contrabaixo, violino e por um grupo de guitarras no feminino (guitarra de Coimbra e viola).

A alma do grupo assenta no talento e criatividade do seu maestro, Augusto Mesquita, autor dos arranjos corais e instrumentais de todos os temas do coro, promovendo a divulgação dos poetas, autores e intérpretes portugueses ou de língua portuguesa.

Com um currículo invejável, Augusto Mesquita iniciou os estudos musicais em Braga, com o compositor Manuel Faria. Quando foi cursar na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra prosseguiu estudos também no Conservatório Regional, onde foi aluno de Mário de Sousa Santos e de Gilberta Paiva. É diplomado em Piano e Composição pelo Conservatório de Música de Lisboa.

Abraçou o Alma de Coimbra desde a primeira hora e explica ao “Campeão” como tudo começou: “tinha dúvidas porque estava com outros projectos, ainda estava a dar aulas, e confesso que, inicialmente, hesitei. Mas os mentores da ideia eram meus amigos e tiveram a capacidade de me convencer”. Contudo, lembra que uma das razões que o levou a aceitar o desafio passou por querer “um projecto diferente dos existentes”. “Sugeri que fizéssemos só música de expressão portuguesa e que os arranjos seriam feitos apenas para o grupo, porque há muito repertório já feito. E isso é que nos distingue”, considera.

Alma e coração

É Augusto Mesquita que escolhe os temas e faz os arranjos e diz que “é fundamental que as músicas escolhidas estejam aptas a serem cantadas pelo coro e na sequência solista, tudo isto tem de ser pensado, um pouco como em todas as obras”.

Para o maestro a gestão do grupo tem dois planos: o primeiro, o humano, em que reconhece ser “fácil liderar”. Já em termos de coordenação, “aí é mais complicado”, sobretudo a nível dos ensaios, já que há pessoas de Lisboa, Porto, Aveiro, Cantanhede, Estarreja, etc. “Juntar esta gente toda, reunir disponibilidades, nem sempre é fácil, mas vamos conseguindo unir este mundo de diversidades espalhadas geograficamente”, refere. Os ensaios acontecem aos sábados à tarde e Augusto Mesquita garante que o “entusiasmo nunca se perde”. “Quem está no Alma de Coimbra faz isto de coração”, assegura.

Augusto Mesquita nasceu em Vila Nova de Famalicão, tendo vindo para Coimbra quando tinha perto de 20 anos, estudando na Faculdade de Direito. Integra desde a sua fundação, e até hoje, o Alma de Coimbra, e dirige também o coro Advocal, composto por advogados do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados e o Chorus Ingenium, composto por engenheiros dos Engenheiros da Região Centro. Foi também director Artístico e Maestro do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra (de 1992 até 2003), dirigiu também o Coro da Administração Regional de Saúde, o Coro de Câmara de Coimbra e o Coro de Câmara do Conservatório de Música de Coimbra. Diz, com orgulho, que o Alma de Coimbra é o “projecto que me deu mais aplausos” e recorda com especial emoção vários concertos onde o público “foi extraordinário” e “sentiu exactamente o carinho de volta”.

Sobre o futuro, o maestro antecipa a vontade de “estrear muitas músicas” e manifesta a intenção de apostar em novas ideias, nomeadamente um disco centrado na música popular portuguesa. “Acho que é o caminho a seguir porque temos uma obra riquíssima e é uma área da música que merece ser evocada”, garante Augusto Mesquita.

“Alma portuguesa” espelhada no grupo

Francisco Melo Ferreira, vice-presidente do Alma de Coimbra, recorda ao “Campeão” como surgiu a ideia de criar o grupo há 18 anos. “Muitos de nós somos antigos estudantes da Universidade de Coimbra. Foi uma coisa natural. Fomos falando uns com os outros e foi aumentando o número de pessoas”, lembra, referindo que tudo começou “de forma singela” em casa de um dos coralistas.

Ao todo, explica, o Alma de Coimbra conta com 40 associados, sendo que os quatro instrumentistas (piano, violinistas, contrabaixo e guitarra de Coimbra) são contratados.

O responsável não tem dúvidas, “há muita Portugalidade neste projecto e é a alma portuguesa que está ali reflectida. Cantamos mais com o coração do que com a voz. E isto é muito fruto da forma como o nosso maestro dirige o grupo, com uma energia muito peculiar, intensa e vibrante”.

São os concertos o expoente máximo do trabalho e dedicação do grupo. Falamos de actuações que contam normalmente com 1h30 de duração, “sendo que à medida que vai acontecendo, cada concerto ganha uma energia especial” e “o público vai também em crescendo, retribuindo e aplaudindo sempre mais intensamente”. “Para nós é uma honra sentir que somos acarinhados e que o nosso trabalho é apreciado por quem vai aos concertos”, realça Francisco Melo Ferreira. Dos últimos, recorda um muito especial, pela intensidade com que decorreu. “Tivemos um concerto impressionante na Expofacic há dois anos, com 15 mil pessoas, no mesmo dia do concerto da Mariza, e a forma como cantaram connosco o ‘Perdidamente’, da Florbela Espanca, foi extraordinário”, relembra, com emoção.

“Viagem transversal”

Com 18 anos de existência, o Alma de Coimbra interpreta diversos temas da música portuguesa, numa “viagem muito transversal” que vai desde o fado à música popular portuguesa, cantores de intervenção e a autores e intérpretes nacionais contemporâneos. Com quatro CD’s editados até hoje (‘Alma’, ‘Alma 2’, ‘Alma 3’ e ‘Cantar Amália’), o quinto sai ainda este ano e é um tributo a José Afonso.

Francisco Melo Ferreira afirma que o grupo “é cada vez mais procurado para concertos” e em 2024 vão, pela primeira vez, “entrar no Algarve”, com um concerto em Tavira, a 27 de Julho. Antes, a 13 de Julho, actuam no Casino da Figueira da Foz, e a 29 de Setembro marcam presença nos Sons da Lusofonia, na Fundação Oriente, em Lisboa. Contudo, o vice-presidente do Alma de Coimbra, realça que a projecção internacional tem sido “muito gratificante”.

Ao longo dos seus 18 anos de existência foram muitos os concertos além-fronteiras, desde Macau, Timor, Estados Unidos da América, Índia, Tunísia, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Espanha, Bélgica, Áustria, Itália, República Checa, Etiópia, Hong Kong, Polónia, Chile e Tailândia.

Deste périplo internacional já longo, Francisco Melo Ferreira destaca algumas viagens muito especiais, como a “primeira grande experiência” em Timor, em 2007, onde “fizemos 13 concertos em cinco dias”, e a “recepção impressionante de Xanana Gusmão e na Casa Mari Alkatiri”. Também marcante foi o concerto em 2007, em Washington (EUA), a propósito do encerramento da Presidência Portuguesa da CEE, “com muitos momentos especiais, sobretudo pelo carinho que recebemos da comunidade portuguesa”. Este ano não está previsto nenhum concerto no estrangeiro, mas o vice-presidente do Alma de Coimbra diz que “começa a ser uma realidade a possibilidade de, num futuro próximo”, irem ao último continente que ainda não pisaram, a Oceânia, nomeadamente à Austrália. “É provável que isso venha a acontecer”, sublinha.

Em relação aos objectivos, a ideia, garante, “é continua a desenvolver o projecto e ampliá-lo”. Sobre o impacto em Coimbra e na região Centro, considera que “tem sido excelente ao longo dos últimos anos” e destaca as importantes sinergias estabelecidas com a Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal que “têm acarinhado muito” o Alma de Coimbra.

Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)

Texto publicado na edição em papel do Campeão das províncias de 13 de Junho de 2024